Maurício Segall
Filho mais velho de Lasar Segall e Jenny Klabin Segall, Maurício Segall nasceu em Berlim, em 1926, cidade na qual seus pais se encontravam por ocasião de uma viagem à Europa.
Fundou o Museu Lasar Segall em 1967, na antiga residência da família, na Vila Mariana, em São Paulo. A iniciativa foi compartilhada com seu irmão, Oscar Klabin Segall, realizando um desejo da mãe.
Foi o primeiro diretor e esteve à frente da instituição por três décadas, até 1997, quando deixou a direção. Manteve-se na direção do Museu nos anos de 1970, 1971 e 1972, mesmo durante o período em que esteve preso pela ditadura militar. Em 2013, foi nomeado Diretor-Emérito.
À frente do Museu Lasar Segall, imprimiu uma visão inovadora de instituição cultural, integrando artes visuais, cinema, fotografia, literatura e atividades educativas. Seu trabalho foi decisivo para a consolidação do Museu como referência nacional, preservando o legado de Lasar Segall e ampliando seu alcance público.
Formado em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, teve atuação diversa ao longo da vida: foi produtor teatral, gestor cultural, articulador institucional e museólogo. Sua trajetória esteve marcada pelo compromisso com a cultura como campo crítico e de formação, em oposição à lógica de mercantilização da arte.
Participou ativamente da vida política e intelectual brasileira ao longo do século XX. Foi também autor de peças teatrais, poemas e artigos sobre cultura, política e museologia, publicados em periódicos e livros, além de participante frequente de debates e encontros na área cultural.
Faleceu em 31 de julho de 2017, em São Paulo.
“EU”
Maurício Segall, vulgo Maurício “Porra”, filho de Jenny Klabin Segall e Lasar Segall, judeu de origem e por teimosia, ateu convicto, paulistano de carteirinha, nasceu em 1926 e, com alguns poucos interregnos (por exemplo, o ano e meio estudando na ENA de Paris com bolsa de estudo das Nações Unidas, em 1952/1953), sempre viveu e ainda vive no bairro de Vila Mariana, em São Paulo, onde provavelmente será enterrado em túmulo cativo.
Iniciou seus estudos em 1932 no primário do Liceu Franco-Brasileiro, na Rua Mairinque da Vila Mariana, e cursou o secundário no Colégio Rio Branco, ainda na Rua Dr. Vila Nova. Estreou sua vida profissional como operário de fábrica, onde trabalhou, em 1941, durante um ano com salário de menor.
É reservista de segunda categoria porque brincou de milico no serviço militar em Tiro de Guerra. Formado em 1949 na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, é bacharel em Ciências Sociais, tendo inclusive participado de pesquisas antropológicas entre índios. Por prática e experiência, foi produtor teatral no Teatro São Pedro, na oposição à ditadura militar na década de 70, administrador de empresas (quando inclusive foi motorista de caminhão) e de instituições culturais, museólogo e arquiteto amador. Fundou o Museu Lasar Segall em 1967 e o dirigiu desde então até 1997, no seu papel de resistência e alternativa à massificação e mercantilização cultural.
Sempre foi militante político de esquerda, a partir de sua participação como delegado de sua Faculdade no primeiro Congresso Nacional da UNE, depois do fim da ditadura do Estado Novo, na velha sede na praia do Flamengo, no Rio de Janeiro. Sua primeira militância institucionalizada se deu no Partido Comunista Brasileiro, quando integrou sua célula na USP, onde foi professor assistente de 1949 a 1956 na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, cargo do qual se afastou voluntariamente por sentir total falta de vocação e entusiasmo pelo magistério. Desligou-se do PCB após a divulgação, em 1957, do relatório Krúchev no XX Congresso do PCUS, mas nunca deixou de ser marxista militante por ideologia e comunista sonhador por necessidade.
Entre outras participações políticas, militou ainda na ALN chefiada por Carlos Marighela durante a ditadura militar, razão pela qual foi preso e torturado em 1970 e condenado a 2 anos de prisão pela Justiça Militar, dos quais cumpriu um. Fundador do PT em 1980, foi seu militante de base até 1995, assim como integrante de diversas Comissões de Ética dos seus Diretórios Nacional, Estadual e Municipal. A postura ideológica que informou toda sua vida política do autor é enfatizada pela citação “O comunismo está morto, viva o comunismo”, de José Saramago.
Tido como generoso e solidário, às vezes, no entanto, gostaria, mas tem dificuldades, de dizer “não” e, apesar de não procurar sarna pra se coçar, tenta sempre lidar com aquelas numerosas que cruzam seu caminho.
Autor de duas peças premiadas de teatro, “A Formatura” e “O Coronel dos Coronéis”, editadas pelo Serviço Nacional de Teatro e pela Editora Civilização Brasileira, e do livro de poemas “Máscaras”, editado pela Editora Iluminuras, foi ainda autor de diversos artigos sobre política cultural, política em geral, racismo, museologia, administração e outros, publicados em periódicos e jornais, tais como Cadernos de Opinião, Teoria e Debate, Novos Estudos CEBRAP, Shalon, Jornal do Brasil, Revista de Administração da FCEA/USP, entre outros, e participante com intervenções em vários congressos e encontros, sobretudo na área de Museologia, algumas publicadas em atas, a maioria das quais integram o livro “Controvérsias e Dissonâncias”, a ser editado em 2001, em co-edição pela Edusp e Editora Boitempo.
É ou foi membro fundador dos Conselhos do Centro Brasileiro de Pesquisas (CEBRAP), da Revista Teoria e Debate, da Fundação Flávio Império, da Fundação Ema Klabin, da Fundação Cinemateca Brasileira, do Conselho Deliberativo do Museu Lasar Segall, ex-passista da Escola de Samba Barroca Zona Sul da Vila Mariana, ateu praticante, antiagônico ferrenho e feminista convicto, sócio da Sociedade Brasileira de Whisky, mas também chegado na cachaça, e acha que a noite é feita para repousar nos braços de Morfeu e não para madrugar com Baco na sarjeta.
Divorciado, pai, avô e sogro coruja de 3 queridos filhos e noras, uma neta e cinco netos, passa as horas que lhe restam papeando com eles, namorando as pouquíssimas mulheres maravilhosas que coloriram sua vida, bebericando com alguns fiéis amigos e amigas, “gourmand” mas não “gourmet”, se virando na cozinha desde que não seja por obrigação, caminhando nas montanhas, pescando em alto-mar, viajando pelo Brasil e pelo mundo quando se permite, vendo cinema em casa, lendo somente nos sinais vermelhos, planando com a música desde Pixinguinha até Bach, vociferando cólera e grosseiramente por besteiras, indignando-se dolorosamente com as injustiças, chateando a todos com suas insistências e impaciências, fantasiando Eros nas insônias, incuravelmente romantizando até o irromantizável, tentando fazer da coerência sua bandeira e procurando poetizar com tudo aquilo que ainda mexe com sua vida.
“Meu outro Eu”, de Maurício Segall