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RECONSTRUÇÃO DO RS
Um ano da tragédia: Vida nova para Marizania
A história recente da funcionária de serviços gerais Marizania Nolasco, 41 anos, é marcada por dor, desespero, por uma profunda sensação de desamparo, e, ao final, por redenção em meio às dezenas de milhares de famílias afetadas pelas enchentes que castigaram o Rio Grande do Sul há um ano.
A vida da família de Marizania mudou drasticamente no dia 2 de maio de 2024, quando a casa dela, no Sarandi, um bairro na Zona Norte de Porte Alegre, um dos mais afetados pelas enchentes, foi tomada pelas águas em meio a um pesadelo inimaginável. Localizada praticamente às margens do rio Gravataí – e com um arroio que atravessa a comunidade –, o lar da família transformou-se em palco de momentos de enorme caos em meio à tragédia que tomava conta do estado.
Até aquele momento, os moradores da região, acostumados às cheias do rio, imaginavam que a água subiria e, como sempre, recuaria para as margens. Exatamente por isso, quase ninguém atendeu aos pedidos da Defesa Civil para evacuar o local e ignoraram até mesmo os apelos das lideranças comunitárias, que saíram batendo de porta em porta para sensibilizar os moradores das áreas de maior risco. Não tardaria muito para eles descobrirem que a cheia daquele 2 de maio era algo sem precedentes.
Era uma mão para o alto segurando os documentos e outra tentando afastar aqueles bichos. Aí a gente saiu só com a roupa do corpo, sem emprego, sem nada. Só acreditando em Deus
Marizania Nolasco
ÁGUA NO PEITO, RATAZANAS, ARANHAS E BARATAS – Tudo aconteceu rápido demais. Quando a água começou a subir e chegou nos fundos de sua casa, Marizania percebeu que estavam diante de uma situação atípica. Ela e o marido, Claudiomar Teixeira, ergueram o que podiam e foram buscar apoio na casa da irmã – num ponto bem mais alto da região. Durante a madrugada o pior aconteceu, o dique não aguentou e cedeu. A força da água, em grande volume e em alta velocidade, provocou um estrondo assustador. A correnteza levou casas inteiras. Outras ficaram submersas. De algumas, restaram apenas a fachada e as paredes. Todas ficaram vazias por dentro. Tudo foi arrastado pelas águas, que, livres do dique, moviam-se de forma avassaladora. Ao fim, sobraram apenas os esqueletos de moradias. A dor era tão grande que nem mesmo as memórias resistiram.
“Pela manhã, a gente foi até a nossa casa para salvar o que dava, mas já não tinha mais como entrar. Estava tudo cheio de água. Só conseguimos pegar os documentos. A água já batia no meu pescoço, porque sou pequenininha, e chegava ao peito do meu marido. Eu tentava sair, mas tinha ratazana, aranha, baratas, que tentavam se salvar e subir para cima da gente. Era uma mão para o alto segurando os documentos e outra tentando afastar aqueles bichos. Aí a gente saiu só com a roupa do corpo, sem emprego, sem nada. Só acreditando em Deus”, recorda Marizania.
Como dezenas de milhares de outras por todo o estado, a família de Marizania passou quase um mês em abrigo. Todas as roupas que vestiam foram doadas. Claudiomar, um ex-metalúrgico de 50 anos, havia sofrido um acidente de trabalho que deformou para sempre suas pernas uma década antes das enchentes. Com dificuldade para caminhar e fazendo uso de bengala, ele se emociona ao recordar como foi difícil caminhar pela chuva e pela correnteza que tomava conta do Sarandi. “Eu sou um cara que não trabalha mais. Aí a gente luta para adquirir as nossas coisas e, de repente, você olha e vai tudo por água abaixo”, lembra com tristeza.
SOCORRO IMEDIATO – A resposta por parte do Governo Federal à tragédia climática foi imediata, com ações em várias frentes na medida em que as enchentes e seus efeitos avançavam pelo estado. Em 29 de abril, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta vermelho para risco elevado de acúmulo de chuva no Rio Grande do Sul.
Nos dias seguintes, as chuvas castigaram o estado e, então, no dia 2 de maio, uma quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez a primeira visita ao Rio Grande do Sul. O estado de calamidade pública seria decretado, por força de uma portaria publicada em edição extra do Diário Oficial da União, já na noite daquela quinta-feira.
Nos primeiros 15 dias após as chuvas, o Governo Federal já tinha destinado mais de R$ 35 bilhões para o Rio Grande do Sul, por meio de diversas ações, entre elas a suspensão do pagamento da dívida do estado por 36 meses e isenção de juros sobre o estoque da dívida, estimada inicialmente em R$ 23 bilhões.
Houve ainda a destinação de mais de R$ 12 bilhões em créditos para empresas de todos os portes, por meio do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) e Programa Emergencial de Acesso a Crédito (PEAC), respectivamente; e para diversos ministérios e entidades que passaram a agir no socorro ao estado, como Defesa Civil, Conab, Trensurb, entre outros.
UMA NOVA VIDA – Para socorrer aqueles que perderam tudo na tragédia, R$ 3,48 bilhões em recursos federais foram destinados à construção de 24,8 mil novas casas. Deste montante, R$ 2,98 bilhões já foram pagos. Com isso, passados 107 dias após aquele terrível 2 de maio, a família de Marizania ganhou uma nova vida.
Um recomeço que representa um dos símbolos da perseverança do povo gaúcho e da reconstrução de um estado inteiro. Em 16 de agosto, o presidente Lula efetuou a entrega de 173 habitações no condomínio Morada da Fé, em Porto Alegre. Naquele dia, Marizania e sua família voltaram a sorrir quando ela recebeu as chaves de sua unidade, naquele “bairro nobre”, como ela definiu.
UM QUARTO PARA RONIEL – Na nova casa de Marizania tudo estava tão novo que era possível sentir o aroma de tinta fresca na habitação com sala, cozinha, banheiro e dois quartos. Pela primeira vez, o filho Roniel, de 15 anos, iria trocar o sofá onde dormia pela cama em um espaço só para ele, num condomínio com segurança, conforto e até piscina.
Tudo construído pelo Minha Casa, Minha Vida Calamidades, modalidade do programa criado pelo Ministério das Cidades, justamente para contemplar as vítimas da enchente de 2023, também no Rio Grande do Sul. Os móveis novos, incluindo uma boa tevê e um sofá macio para garantir o conforto de Claudiomar, que passa a maior parte do dia sentado, foram adquiridos com os R$ 5,1 mil do Auxílio Reconstrução.
DO ARROIO À PISCINA – Meses depois da tragédia, a casa em que Marizania e a família moravam, e que ainda estava sendo paga, foi demolida para que o dique pudesse ser reconstruído e expandido. Hoje, os três já não choram mais pelo que perderam.
Agora, se emocionam por nunca terem pensado em morar em um lugar tão bonito. “Eu conhecia o arroio, mas não uma piscina”, alegra-se Marizania, que cresceu na área rural e na cidade sempre viveu na periferia.
R$ 111,6 BILHÕES EM RECURSOS – No total, o Governo Federal destinou R$ 111,6 bilhões para o Rio Grande do Sul, dos quais R$ 89 bilhões, ou 80% do montante, já foi executado. Uma das ações de impacto direto para a população afetada foi a criação do Auxílio Reconstrução, no valor de R$ 5,1 mil, que já beneficiou mais de 420 mil famílias.