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Museu Nacional de Belas Artes apresenta "Abolicionistas Brasileiras"
O Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) inaugura, em parceria com o Instituto Artistas Latinas, a exposição “Abolicionistas Brasileiras”. Com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, a mostra reúne trabalhos de 40 artistas visuais que revisitam as trajetórias de mulheres negras que marcaram a história e tiveram seus nomes silenciados ou apagados pelas narrativas oficiais. Em diálogo com pinturas do acervo da instituição, obras contemporâneas lançam novos olhares sobre os legados de personagens como Aqualtune, Anastácia, Maria Firmina dos Reis, Maria Felipa, entre outros símbolos femininos de resistência, protagonismo negro e luta por liberdade. Com entrada franca, a exposição ocupa a icônica Sala Bernardelli, agora totalmente reformada. A abertura é no dia 16 de setembro, quarta-feira, durante a Semana de Arte do Rio, junto com a reinauguração de três espaços expositivos do museu, que passa por reformas desde 2020.
Promovida pelo Instituto Artistas Latinas, “Abolicionistas Brasileiras” reúne trabalhos de artistas como Luna Bastos, Renata Felinto, Guilhermina Augusti, Lidia Lisbôa, Mônica Ventura, Aline Motta e Manuela Navas. A mostra já alcançou mais de 100 mil visitantes ao longo de suas passagens pelo Museu de Arte do Rio (MAR); pelo Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), no Recife; pela Casa da Cultura da América Latina, em Brasília; e pelo Centro Cultural São Paulo (CCSP). De volta ao Rio de Janeiro, o projeto ganha nova dimensão, incorporando obras do acervo do MNBA, como pinturas de Maria Auxiliadora e Marcia Falcão.
“Abolicionistas Brasileiras” se apresenta como a maior exposição já realizada no Brasil dedicada à produção de mulheres artistas negras, reunindo diferentes gerações, linguagens e perspectivas em torno de experiências, memórias e lutas protagonizadas por mulheres negras no país. Ao ampliar a visibilidade dessas artistas e promover o reconhecimento de suas contribuições para a história e a produção contemporânea das artes visuais brasileiras, o projeto reafirma o compromisso do Instituto Artistas Latinas com a pesquisa, a preservação e a difusão da produção de mulheres artistas latino-americanas, consolidando a instituição como uma referência na construção de novas narrativas para a história da arte.
Segundo Paulo Farias, diretor do Instituto Artistas Latinas, “Abolicionistas Brasileiras” articula passado e presente para questionar os mecanismos de apagamento produzidos pelo projeto colonial e evidenciar como essas estruturas ainda moldam as disputas de memória e representação no Brasil. “Em diferentes linguagens, as obras nos fazem refletir sobre a permanência das estruturas de raça e gênero na sociedade brasileira, propondo novas formas de compreender o passado e pensar o futuro”, explica ele. “A mostra traz uma reflexão sobre as formas de representação da mulher negra, afirma suas principais reivindicações — como o direito à memória, à moradia, ao território e à educação — e elabora visões de futuro pautadas pela liberdade, pelo cuidado, pela ancestralidade e pela construção de novos imaginários”, diz Ana Carla Soler.
Para Daniela Matera do Monte Lins, diretora do MNBA, a inclusão da mostra no calendário expositivo do museu, que completa 90 anos em 2027, amplia as possibilidades de articulação entre patrimônio, história e produção artística contemporânea. “A exposição reafirma a importância da instituição como espaço de revisão crítica das narrativas nacionais”, afirma. O projeto expográfico é de Gisele de Paula e a realização é do Instituto Artistas Latinas, que em 2026 celebra sete anos de atuação na promoção, pesquisa e difusão da produção artística de mulheres latino-americanas.
PERSONAGENS HISTÓRICAS
Aqualtune: mulher negra líder quilombola, chefe de um dos principais assentamentos que formavam o Quilombo dos Palmares, no século XVII.
Anastácia: conhecida como Escrava Anastácia, foi uma mulher escravizada que viveu no século XVIII e, segundo a tradição, foi sentenciada a usar uma máscara punitiva de ferro na boca por se negar a ter relações com seu escravizador.
Maria Firmina dos Reis: considerada a primeira romancista negra da América Latina, foi uma professora, compositora e escritora brasileira, que nasceu no século XIX.
Maria Felipa: combateu na Batalha de Itaparica, na campanha de Independência da Bahia, também chamada de Independência do Brasil na Bahia. Ao lado de Joana Angélica e Maria Quitéria, entrou para a história como símbolo da resistência.
Adelina: mulher negra escravizada no Maranhão do século XIX, é conhecida por atuar como informante e por sua resistência à escravidão. Sua trajetória evidencia as estratégias de luta e sobrevivência construídas por mulheres negras no período.
Esperança Garcia: mulher negra escravizada no Piauí, é considerada pela OAB a primeira advogada do Brasil. Em 1770, escreveu uma carta denunciando os maus-tratos sofridos e reivindicando o direito de permanecer junto à família, documento que é considerado o primeiro habeas corpus e a primeira petição jurídica do Brasil
Maria Tomásia Figueira Lima: abolicionista e ativista cearense, teve papel importante na mobilização pelo fim da escravização no Ceará. Participou da Sociedade das Cearenses Libertadoras, que atuou na libertação de pessoas escravizadas.
Luiza Mahin: mulher negra africana, associada à resistência à escravidão e às revoltas de pessoas negras na Bahia do século XIX. Sua trajetória, cercada de lacunas documentais, tornou-se símbolo da luta e da resistência negra no Brasil.