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Novo estudo pode auxiliar a previsão de calor extremo na Amazônia
Condições anormalmente quentes nos oceanos Pacífico e Atlântico podem fornecer sinais antecipados de períodos de calor extremo na Amazônia. Em algumas regiões e épocas do ano, essas conexões aparecem com vários meses de antecedência, indicando um caminho promissor para aprimorar previsões sazonais e apoiar ações de preparação diante de eventos climáticos de grande impacto.
A relação mais clara foi identificada para o período entre março e maio. Em grande parte da Amazônia, episódios de calor extremo nesses meses estiveram associados a condições climáticas observadas até sete meses antes nos oceanos tropicais. Entre os principais fatores estão o El Niño, no Pacífico, e variações da temperatura da superfície do mar no Atlântico Tropical.
Compreender esses sinais com antecedência é particularmente importante porque períodos de calor intenso, principalmente quando coincidem com falta de chuva, podem aumentar o risco de incêndios, pressionar ecossistemas e afetar a saúde da população, a segurança alimentar e a disponibilidade de água. Esses eventos combinados também podem reduzir a capacidade da floresta amazônica de absorver carbono.
Oceanos distantes, impactos na Amazônia
Embora estejam a milhares de quilômetros de algumas áreas da floresta, os oceanos exercem forte influência sobre o clima amazônico. Durante eventos de El Niño, o aquecimento de partes do Pacífico Tropical altera a circulação da atmosfera e pode reduzir a formação de nuvens e as chuvas em algumas regiões da Amazônia. Com menos chuva e umidade disponível no solo, aumenta a quantidade de energia utilizada para aquecer a superfície.
O Atlântico Tropical também desempenha papel importante. Dependendo da época do ano e da região da Amazônia, o aquecimento de suas águas pode reforçar condições favoráveis ao calor e à seca. Essa influência, contudo, não é uniforme: a Amazônia é extensa e apresenta diferenças marcantes de clima, relevo, vegetação e regime de chuvas.
Para compreender melhor essas conexões, pesquisadores analisaram informações climáticas de 1950 a 2023, dividindo a Amazônia em seis regiões climáticas. Também foram utilizadas técnicas de aprendizado de máquina para avaliar se diferentes combinações de sinais observados nos oceanos poderiam ajudar a identificar condições favoráveis à ocorrência simultânea de calor e seca.
Os resultados mostram que o potencial de antecipação varia bastante ao longo do ano e entre as diferentes partes da Amazônia. O El Niño apareceu como uma das principais fontes de informação para antecipar eventos quentes e secos em diversas áreas, enquanto as temperaturas do Atlântico Tropical se mostraram particularmente relevantes em determinadas regiões e estações.
Da ciência à preparação
Os resultados ainda não representam um sistema operacional capaz de prever, com meses de antecedência, exatamente quando ocorrerá um evento extremo. O sinal de até sete meses identificado no estudo deve ser entendido como um indicador precursor de aumento do risco de calor extremo, e não como uma previsão determinística de um episódio quente e seco específico.
Mesmo assim, identificar regiões e períodos do ano em que esses sinais são mais consistentes é um passo importante para o desenvolvimento de serviços climáticos e sistemas de alerta mais direcionados. O avanço desse conhecimento poderá permitir que governos, comunidades e gestores ambientais reconheçam com maior antecedência períodos de risco elevado e se preparem melhor para seus possíveis impactos. Para transformar esse potencial em ferramentas operacionais, ainda será necessário combinar esses sinais oceânicos com modelos de previsão e outras informações, como umidade do solo, condições da vegetação e circulação atmosférica regional.
Cooperação internacional
O estudo é resultado do Projeto Institucional de Internacionalização dos Cursos de Pós-Graduação do INPE (PII-INPE) - PrInt/CAPES, vinculado ao Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) do INPE, que tem promovido a aproximação entre pesquisadores e estudantes brasileiros e grupos de excelência no exterior.
A colaboração reuniu pesquisadores do INPE e de instituições australianas, incluindo a University of New South Wales (UNSW Sydney), Australian National University e University of Melbourne, fortalecendo a cooperação científica entre Brasil e Austrália em temas relacionados a extremos climáticos e à Amazônia.
Os resultados foram publicados no artigo “Climate-Mode Precursors and the Predictability of Amazon Hot and Dry Extremes”, na revista científica Earth’s Future. O trabalho é assinado por Sanaa Hobeichi, Lincoln Muniz Alves, Andréa S. Taschetto, Wil Laura, Nayan Talmale e Lisa V. Alexander e está disponível em acesso aberto.