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Tecnologia brasileira fortalece pequenos produtores de algodão no Mali
A produção de algodão é uma atividade com grande impacto econômico e social em muitos países africanos. Ela é, em muitos casos, uma das principais fontes de renda dos agricultores familiares e suas famílias. No Mali, por exemplo, cerca de 4 milhões de pessoas dependem do setor algodoeiro para o seu sustento. O país, que possui dois terços de seu território no deserto do Saara, viu sua produção aumentar, significativamente, ao adotar técnicas brasileiras e adaptá-las às condições ambientais locais.
Muitos são os relatos de mudança. O emprego das tecnologias brasileiras transformaram a vida da família do agricultor Abdoulaye Traoré, de 72 anos. Ele, que foi o primeiro produtor rural a participar da iniciativa no Mali, conta que, com o aumento da produção, conseguiu trocar sua antiga moto por uma caminhonete. Traoré começou a aplicar as técnicas do cultivo direto em uma pequena parcela da sua plantação, com o apoio de especialistas locais. Hoje ele relata, orgulhoso, os resultados positivos que conquistou, ao colocar em prática o que aprendeu:
“ Em breve teremos nossa última colheita e parece que vai ser boa. Já estou muito cansado e trabalhei a vida inteira nessa plantação. Agora estou feliz porque finalmente vou conseguir descansar. Meu filho vai cuidar de tudo por aqui ”.
Essas tecnologias, com técnicas mais modernas e sustentáveis de produção, chegaram ao Mali graças ao Projeto " Fortalecimento tecnológico e difusão de boas práticas agrícolas para o algodão em países do Cotton-4 e no Togo ", desenvolvido no Benim, Burquina Faso, Chade, Mali e Togo. A iniciativa, que começou suas atividades em 2014, deu início à segunda fase do projeto Cotton-4, realizado nestes países (com exceção do Togo), entre 2009-2013, e tem como objetivo compartilhar as tecnologias brasileiras na área de produção de algodão com pequenos produtores destes cinco países, de modo a aumentar a produtividade, gerar diversidade genética e aprimorar a qualidade do produto cultivado.
A iniciativa Cotton 4 + Togo, coordenada pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC) , em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e com financiamento do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA) , vem promovendo mudanças significativas nos paradigmas tecnológicos do setor algodoeiro destes países.
Conhecimento brasileiro
O plantio direto sobre cobertura vegetal, uma das técnicas compartilhadas pela Embrapa com os países africanos, no âmbito deste projeto, possibilita que as sementes do algodão sejam plantadas antes mesmo do início do período das chuvas, o que contribui para o aumento da produtividade em climas mais secos. O extensionista rural Sidiki Diarra, responsável por compartilhar as novas tecnologias que aprendeu com o Brasil, com os produtores locais, explica como a técnica ajuda a melhorar a qualidade do solo:
“ Em um setor se planta algodão, em outros feijão, milho e sorgo. Entre as fileiras de sementes nós colocamos plantas de cobertura, que preservam a temperatura do solo e protegem da erosão. Na próxima temporada, as variedades são trocadas e onde se plantou algodão vai ficar o feijão. Assim os nutrientes nunca são esgotados ”.
Além do aumento notável da produção do algodão, esse sistema de rotação de culturas contribui com a segurança alimentar e nutricional das famílias, uma vez que o campo também é utilizado para o plantio de gêneros alimentícios, como o feijão e o sorgo. As plantas de cobertura – ou forrageiras – servem ainda de alimento para os animais.
Além do plantio direto, o projeto de cooperação se baseia em outros dois pilares: o manejo integrado de pragas e o melhoramento genético das sementes do algodão.
Durante a primeira fase, iniciada em 2009, foi implantada, no Mali, a Estação Experimental de Sotuba, composta por instalações que contemplam escritórios, laboratório de controle de pragas, câmara fria para armazenamento de sementes, galpão para beneficiamento de amostras e espaço para gerador de energia. É lá que as sementes de algodão são estudadas e melhoradas geneticamente. O Brasil já compartilhou com o país africano diferentes variedades de sementes para serem testadas e cruzadas com espécies malinesas.
Em uma destas experiências de cruzamento genético, uma variedade de semente brasileira demonstrou-se bastante produtiva no Mali, levando o país a alcançar sua maior colheita dos últimos anos, como afirma o Coordenador da Confederação de Cooperativas de Algodão do Mali, Raymond Dansoko: “ Foi em 2013 que nós colhemos a maior safra de algodão dos últimos anos. Foi com uma variedade de semente trazida pela cooperação para o projeto do algodão. É uma variedade muito, muito produtiva ”.
Controle biológico de pragas
O controle biológico de pragas é outra das tecnologias brasileiras desenvolvidas e compartilhadas pela Embrapa, e que tem possibilitado aos cientistas e produtores malineses combater as pragas que assolam a agricultura no país. Uma delas é a larva da mariposa Helicoverpa, uma das grandes vilãs do algodão malinês. A mariposa coloca seus ovos embaixo das folhas do algodoeiro, espalhando a praga por toda a plantação.
Kelly Diallo, técnico que recebeu as capacitações providas pelo Brasil, explica que a maneira mais econômica e sustentável de eliminar a praga é a utilização da vespa parasita Tricrograma. Quando liberada na plantação, a parasita deposita seus ovos no interior dos ovos da Helicoverpa, evitando assim o nascimento das larvas da mariposa.
“ O uso de produtos químicos elimina todos os insetos da plantação, inclusive os insetos amigos. O uso do controle biológico permite que só as larvas da Helicoverpa sejam impedidas de nascer ”, conta Kelly.
Em nove anos de projeto, mais de 400 técnicos, no Benim, Burquina Faso, Chade, Mali e Togo, participaram de cursos, organizados no Brasil e na África, para adaptação das tecnologias brasileiras às realidades locais. Este foi o caso de Kelly e Aïché Traoré, técnicos agrícolas que participaram de formações conduzidas pela Embrapa no Mali e hoje trabalham no laboratório de controle de pragas da Estação de Sotuba.
Para o Diretor do Instituto de Economia Rural do Mali (IER, na sigla em francês), Abdoulaye Hamadoum, o controle biológico é uma ferramenta importante porque evita que o uso abusivo de inseticidas contamine os solos e intoxique os agricultores.
O IER é um dos parceiros locais da cooperação brasileira. Além de atuar no compartilhamento de tecnologias e na capacitação de técnicos e cientistas locais, o projeto busca fortalecer as capacidades das instituições parceiras em cada um dos países (INRAB, no Benim; INERA, em Burquina Faso; ITRAD, no Chade; IER, no Mali; e ITRA, no Togo) para garantir a sustentabilidade das ações a longo prazo.
Confira a reportagem especial produzida pela TV nbr sobre a cooperação brasileira no Mali
Autor: Isabelle Marie/ Agência Brasileira de Cooperação (ABC)



