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Países da América Latina definem linhas de ação para enfrentar desafio de alimentar cidades

- Países da América Latina definem linhas de ação para enfrentar desafio de alimentar cidades
Esses avanços foram discutidos durante o evento internacional “Sistemas Alimentares Urbanos na América Latina: evidências, implementação e alianças”, organizado em parceria pelo Governo do Brasil, por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), no contexto do Programa de Cooperação Sul-Sul Brasil-FAO.
Entre as principais linhas de ação definidas, destaca-se o fortalecimento dos mercados tradicionais de alimentos e dos centros de comercialização, por meio de estratégias que favoreçam preços mais acessíveis para a população, uma oferta diversificada de alimentos e maiores oportunidades de negócios para ampliar a renda da agricultura familiar.
Em um contexto em que mais de 80% da população vive em cidades, o aumento dos preços dos alimentos também foi destaque entre os participantes - que ressaltaram a necessidade de fortalecer uma ação articulada entre os governos nacionais para enfrentar o aumento dos custos de produção, com o apoio da Rede de Sistemas Públicos de Abastecimento (Rede SPAA), que atualmente reúne 19 países da região e cuja secretaria está sob responsabilidade da FAO.
Da mesma forma, o fortalecimento do trabalho em rede foi apontado como prioridade para ampliar a cooperação entre cidades na busca por soluções e boas práticas relacionadas à segurança alimentar urbana, por meio da Rede de Cidades Intermediárias e Sistemas Alimentares (Rede CISA), que conta com 71 cidades-membro e o apoio da FAO.
Mudança Climática
Quanto aos impactos da mudança climática sobre o acesso e o consumo de alimentos em áreas urbanas, os participantes concordaram em avançar em uma proposta de financiamento que articule as agendas climática e alimentar, alinhada ao Marco de Referência de Sistemas Alimentares e Clima para Políticas Públicas, lançado pelo Governo do Brasil em 2025 durante a COP30, que orienta sobre como a produção, distribuição e o consumo de alimentos causam e sofrem com a mudança climática.
O embaixador do Brasil na Colômbia, Paulo Estivallet, reafirmou o compromisso do Brasil com a cooperação regional e lembrou que a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza busca acelerar os esforços internacionais para erradicar a fome e reduzir as desigualdades.
O Representante da FAO na Colômbia, Agustín Zimmermann, destacou a necessidade urgente de transformar os sistemas agroalimentares diante da crise climática. “O sistema agroalimentar não é apenas vítima da mudança climática, mas também é responsável por aproximadamente um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. Portanto, transformá-lo é fundamental tanto para mitigá-la quanto para nos adaptarmos a ela”, afirmou.
Por sua vez, Patrícia Gentil, diretora do Departamento de Promoção para uma Alimentação Adequada e Saudável do MDS, ressaltou que as cidades e as políticas públicas desempenham um papel central na transformação dos sistemas alimentares urbanos. “São desafios que compartilhamos na região, porque não são exclusivos do nosso país”, afirmou.
Durante o evento, também foram apresentadas as propostas de roteiro estratégico e da constituição do Comitê Amazônico de Sistemas Alimentares Urbanos, como resultado dos diálogos e intercâmbios realizados em Manaus durante a Semana da Amazônia de 2025, no âmbito da cooperação Sul-Sul entre o Brasil e a FAO.
O roteiro estabelece eixos estratégicos de ação que posicionam as cidades como atores-chave na transformação sustentável dos sistemas alimentares. Já o Comitê Amazônico funcionará como uma plataforma técnica e política de cooperação para fortalecer a articulação regional entre cidades e territórios amazônicos, além de apoiar a implementação dessa agenda comum.
Cidades e alimentação: um desafio crescente
A coordenadora de Sistemas Agroalimentares Urbanos da FAO, Isis Núñez, alertou para um paradoxo global crescente: enquanto cerca de 70% dos alimentos são consumidos nas cidades, as áreas de produção periurbana e rural continuam diminuindo. Além disso, destacou que 1,7 bilhão de pessoas em zonas urbanas enfrentam insegurança alimentar e que muitas famílias destinam entre 50% e 75% de sua renda à compra de alimentos. “É um desafio enorme, mas isso demonstra precisamente por que devemos priorizar os sistemas alimentares urbanos”, afirmou.
Atualmente, a FAO promove um novo marco de ação para sistemas agroalimentares urbanos, focado em três áreas prioritárias: dietas saudáveis e mercados justos; sistemas agroalimentares urbanos circulares e resilientes à mudança climática; e fortalecimento dos vínculos entre territórios urbanos e rurais para promover prosperidade compartilhada.
Como parte do intercâmbio regional, que reuniu mais de 100 participantes de forma presencial e virtual, as delegações também conheceram experiências implementadas na Colômbia relacionadas a mercados locais, economia circular, redução do desperdício de alimentos, hortas urbanas e valorização de resíduos orgânicos para a produção agrícola.