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Costa Rica impulsiona diálogo regional para fortalecer ambientes alimentares saudáveis

- Costa Rica impulsiona diálogo regional para fortalecer ambientes alimentares saudáveis
O evento faz parte do projeto regional Sistemas Agroalimentares Urbanos, impulsionado pelo Governo do Brasil, por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) do Ministério das Relações Exteriores, e do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), em conjunto com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), no âmbito do Programa de Cooperação Internacional Brasil-FAO.
O encontro compartilhou os aprendizados gerados pelo trabalho interagência realizado entre a FAO e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que fortaleceu a governança dos sistemas agroalimentares em duas regiões rurais daquele país: Buenos Aires, em Puntarenas, e Guatuso, em Alajuela.
Dados
Apesar de ser classificada como um país de renda alta (Banco Mundial, 2025), a Costa Rica enfrenta importantes desigualdades que impactam diretamente a segurança alimentar e nutricional da população. Em 2024, 18% dos domicílios viviam em situação de pobreza (32,9% na população infantil) e 4,8% em extrema pobreza (ENAHO 2024). A isso se soma um aumento contínuo da desigualdade: o índice de Gini, medida usada para avaliar o grau de desigualdade na distribuição de renda, passou de 45,6 em 1997 para 50,2 em 2023.
Quanto à nutrição, o país apresenta dados preocupantes: 71% das pessoas adultas têm sobrepeso ou obesidade, assim como 34% das crianças entre 6 e 12 anos (CCSS 2018, EMNA 2018). Essas condições aumentam o risco de doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares.
Além disso, 16 em cada 100 domicílios relataram insegurança alimentar moderada ou grave em 2020 (ENAHO 2020). Embora a Costa Rica não enfrente uma crise generalizada, persistem desigualdades que dificultam o acesso universal a uma alimentação adequada, especialmente para pessoas em maior vulnerabilidade.
Patrícia Gentil, Diretora do Departamento de Promoção da Alimentação Adequada e Saudável do MDS, destacou que o Brasil enfrenta o desafio de avançar continuamente na agenda alimentar urbana, em um contexto de intensa urbanização que tem moldado profundamente as condições de vida e saúde da população. Ela ressaltou que a insegurança alimentar e nutricional se concentra nas áreas urbanas, onde persistem altas taxas de sobrepeso e obesidade, dificuldades de acesso físico e econômico a alimentos saudáveis, longos circuitos de produção e consumo, a presença de desertos e pântanos alimentares e o crescente impacto das mudanças climáticas, entre outros fatores, especialmente em áreas com população em situação de vulnerabilidade.
Já a Analista de projetos da ABC, Riffat Iqbal, afirmou que uma verdadeira transformação do sistema alimentar implica garantir o acesso das pessoas a alimentos de qualidade nas escolas, comunidades, locais de trabalho, mercados, feiras e até em plataformas digitais, promovendo o consumo de alimentos naturais e reduzindo a presença de alimentos ultraprocessados.
O Oficial Principal de Políticas da FAO para Sistemas Alimentares na América Latina e Caribe, João Intini, destacou a importância desse tipo de diálogo em um momento em que os países enfrentam desafios especiais para aprovar políticas públicas essenciais para suas populações. Acrescentou que, na COP 30, ficou claro que já não é suficiente promover uma política de segurança alimentar e nutricional sem considerar o meio ambiente, os ambientes alimentares e as conexões entre as regiões urbanas e rurais.
Na mesma linha, o UNICEF destacou a necessidade de que esses espaços gerem compromissos concretos orientados à transformação dos ambientes alimentares e à melhoria da qualidade de vida das crianças e das famílias. “Que as conversas de hoje possam nos inspirar, desafiar e impulsionar a tomar decisões que gerem impacto real na vida das pessoas, especialmente de quem depende das nossas ações”, afirmou Juan Manuel Baldares, gerente de programas do UNICEF Costa Rica.
Troca de experiências
O webinário contou com apresentações do município de Caxias do Sul, no Brasil, e de Maynas, no Peru, que compartilharam ações concretas para transformar os ambientes alimentares locais. Da Costa Rica, o Ministério da Saúde, o Ministério da Agricultura e Pecuária e o Instituto de Fomento e Assessoria Municipal (IFAM) apresentaram iniciativas para promover estilos de vida saudáveis e fortalecer a articulação interinstitucional nos territórios.
“Na Municipalidade Provincial de Maynas estamos promovendo uma cidade verdadeiramente sustentável, fortalecendo a agricultura familiar, modernizando o sistema de abastecimento de alimentos e promovendo escolas sustentáveis que integrem os saberes ancestrais e a tecnologia. Nosso compromisso é melhorar a segurança alimentar e o bem-estar das nossas crianças e adolescentes, articulando esforços com todos os atores do território”, detalhou Nair Burga, da Municipalidade Provincial de Maynas, Peru.
Também foi destacada a experiência do cantão de Mora na construção do Plano Local para a Promoção de Estilos de Vida Saudáveis 2025–2030, um processo que integrou atores de diferentes níveis e demonstrou a importância da governança participativa, do trabalho interinstitucional e da participação das pessoas para melhorar o bem-estar das comunidades.
O Governo do Brasil, as instituições participantes, a FAO e o UNICEF concordaram que espaços de diálogo como esse são fundamentais para impulsionar transformações reais nos sistemas agroalimentares da região. Esses encontros permitem compartilhar experiências, fortalecer alianças e avançar em políticas públicas capazes de responder aos desafios atuais das cidades e dos territórios rurais.