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Nota técnica conjunta aponta alta probabilidade de El Niño no segundo semestre de 2026
Anomalias positivas da temperatura da superfície do mar no mês de maio de 2026 condizentes com condições de El Niño. Fonte: CPTEC/INPE
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em conjunto com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), divulgou, no dia 19 de junho, uma Nota Técnica Conjunta sobre as condições previstas para o estabelecimento do fenômeno El Niño em 2026.
De acordo com o documento, previsões divulgadas pelo Climate Prediction Center (CPC), da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), no início de junho, indicam probabilidade superior a 95% de persistência das condições de El Niño ao longo do segundo semestre deste ano, podendo se estender, pelo menos, até o início de 2027. As previsões apontam ainda que o fenômeno tem potencial para atingir intensidade forte a muito forte.
O El Niño é a fase quente do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) e caracteriza-se pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial (conforme figura acima). Esse aquecimento altera os padrões de circulação atmosférica e o transporte de umidade, influenciando as condições climáticas em diferentes partes do planeta.
Segundo o chefe da Divisão de Previsão do Tempo e Clima do INPE, Enver Ramirez, o fenômeno resulta da interação entre diferentes componentes do sistema terrestre, principalmente entre o oceano e a atmosfera. “Pequenas alterações podem impactar vários parâmetros, como a intensidade, a duração do evento e os efeitos que o fenômeno pode ter em diferentes regiões do planeta”, explica.

- Previsão probabilística de intensidade do El Niño nas categorias fraca, moderada, forte e muito forte, emitida pelo CPC/NOAA no início de junho de 2026. Fonte: Nota Técnica - EL NIÑO 2026 (INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM)
Quais são os potenciais impactos no Brasil?
No Brasil, os impactos do El Niño variam de acordo com a região e a intensidade do fenômeno. A nota técnica aponta riscos para diversos setores da sociedade e da economia, incluindo abastecimento de água, segurança alimentar, geração de energia, mobilidade e saúde pública.
Nas regiões Norte e Nordeste, a tendência é de redução das chuvas, o que pode favorecer a ocorrência de secas mais severas. Na Amazônia, especialmente em sua porção leste, a diminuição das precipitações pode provocar redução dos níveis dos rios, com impactos para a navegação, a pesca e o abastecimento de comunidades. O cenário também favorece temperaturas acima da média e aumento do risco de incêndios florestais.
Na região Sul, as previsões indicam maior probabilidade de chuvas acima da média histórica, aumentando o risco de eventos extremos, como tempestades e enchentes.
Já nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, os efeitos tendem a ser mais variáveis. Em geral, espera-se aumento das temperaturas médias e maior frequência de ondas de calor. Em algumas áreas do Sudeste, o fenômeno também pode favorecer períodos mais prolongados de estiagem.
O meteorologista Fábio Rocha, do Grupo de Clima da Divisão de Previsão do Tempo e Clima do INPE, destaca que episódios de El Niño costumam estar associados a temperaturas acima da média climatológica em diferentes regiões do país. “Esse cenário pode favorecer a ocorrência de ondas de calor mais intensas e prolongadas, com impactos para a saúde da população, especialmente de grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças, pessoas com doenças cardiovasculares e pets”, explica.
Segundo o meteorologista, outro efeito que merece atenção é o aumento do risco de queimadas e incêndios florestais, principalmente durante os meses de agosto e setembro, período em que esses eventos já costumam atingir seu pico no Brasil Central e no sul da Amazônia. Fábio ressalta, contudo, que cada episódio de El Niño possui características próprias. “Nenhum evento é exatamente igual ao outro. Por isso, embora existam padrões climáticos esperados, os impactos podem variar em intensidade e abrangência, afetando diferentes regiões de formas distintas”, afirma.
As instituições que assinam a nota destacam que o objetivo do documento é fornecer informações científicas que subsidiem ações de planejamento, prevenção, mitigação e resposta por parte dos órgãos governamentais, do setor produtivo e da sociedade.
O monitoramento das condições oceânicas e atmosféricas seguirá de forma contínua, com atualizações periódicas à medida que novos dados forem disponibilizados. O INPE reforça a importância de a população acompanhar as previsões meteorológicas e os avisos oficiais divulgados pelos canais oficiais do Instituto.