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Estudo do INPE aponta que desmatamento na Amazônia eleva em até 3 °C a temperatura da superfície na estação seca
Vista da Floresta Amazônica. Créditos: Liana Anderson
Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostra que o desmatamento na Amazônia tem provocado mudanças regionais significativas no clima, quando comparado a áreas com alta cobertura florestal. A perda da vegetação está associada ao aumento da temperatura da superfície, à redução da evapotranspiração e à diminuição da quantidade e da frequência das chuvas, especialmente durante a estação seca.
Os resultados foram obtidos a partir da análise de dados observacionais de satélite e publicados na revista científica Communications Earth & Environment, periódico de acesso aberto da Nature Portfolio, que reúne pesquisas de destaque nas áreas de ciências da Terra e ambientais.
O artigo, intitulado Observed shifts in regional climate linked to Amazon deforestation (Alterações climáticas regionais observadas estão ligadas ao desmatamento da Amazônia, em português), tem autoria dos pesquisadores do INPE Marcus Silveira, Luiz Aragão, Liana Anderson, Marcos Adami e Celso von Randow.
A pesquisa avaliou variáveis climáticas essenciais em regiões da Amazônia com diferentes níveis de cobertura florestal, comparando áreas altamente desmatadas com regiões vizinhas ainda bem preservadas. De acordo com o estudo, áreas com menos de 60% de cobertura florestal apresentam algumas condições climáticas semelhantes às de zonas de transição entre floresta úmida e savana.
Nessas regiões mais desmatadas, os pesquisadores observaram um aumento médio de até 3 °C na temperatura da superfície durante a estação seca, além de uma redução de 12% na evapotranspiração (processo pelo qual a vegetação devolve água à atmosfera) e de 25% na quantidade de chuvas no mesmo período, em comparação com áreas que mantêm cobertura florestal acima de 80%.
Outro resultado relevante é a redução no número de dias chuvosos. Em média, foram registrados 11 dias a menos de chuva por ano em regiões com menor cobertura florestal, indicando que o desmatamento afeta não apenas o volume total de precipitação, mas também sua distribuição ao longo do tempo.
Segundo os pesquisadores, a combinação de temperaturas mais elevadas e menor disponibilidade de água cria um ambiente mais propenso à degradação florestal, aumentando a mortalidade de árvores e a suscetibilidade a incêndios. Esse processo compromete a permanência de espécies típicas da floresta úmida e favorece a substituição por vegetação mais rala, incluindo espécies oportunistas e gramíneas, com impactos diretos sobre a biodiversidade.
Para os autores, os resultados evidenciam a importância do controle do desmatamento e da restauração de áreas degradadas como estratégias essenciais para preservar a resiliência climática da Amazônia e das atividades econômicas que dependem do clima, como a agricultura.
“O estudo mostra que as florestas tropicais têm um impacto gigantesco no clima, com consequências para diversos setores da sociedade, tanto para o bem-estar das populações como para atividades econômicas. Por isso, o debate sobre a importância das florestas deve ter um olhar mais abrangente, para além da questão ambiental. Precisamos trabalhar com uma visão de desenvolvimento nacional, com ação coordenada e integrada entre diversos setores da sociedade”, afirma Luiz Eduardo Aragão, um dos autores do artigo, em entrevista à Agência Fapesp.
De acordo com Marcus Silveira, líder do estudo, os resultados reforçam evidências científicas já consolidadas sobre a necessidade de manter elevados níveis de cobertura florestal na Amazônia. Em entrevista à Agência Fapesp, Silveira explicou que “o estudo corrobora cientificamente a importância de manter a cobertura florestal em, no mínimo, 80% em propriedades rurais da Amazônia, como estabelece o Código Florestal”.
Os pesquisadores ressaltam que as alterações climáticas regionais já começam a ser observadas inclusive em áreas que ainda mantêm entre 60% e 80% de cobertura florestal, o que indica que os impactos do desmatamento não se restringem às regiões mais desmatadas. O trabalho reforça o papel das florestas como aliadas fundamentais na mitigação das mudanças climáticas e na adaptação dos ecossistemas e da sociedade aos seus impactos.