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Ciência e fé caminham juntas: imersões no INPE e no Cemaden mobilizam lideranças religiosas na prevenção de desastres e no cuidado com o planeta
Diante de um grande mapa do Brasil coberto por alertas meteorológicos, a ialorixá Mam’eto Nangetu — nome religioso de Neide Monteiro Rodrigues —, de Belém (PA), procurava reconhecer o próprio território. Acostumada a cuidar da natureza como parte de sua tradição religiosa, ela via pela pessoalmente como a ciência acompanha, em tempo real, secas, enchentes, deslizamentos e outros riscos que afetam comunidades de todo o país.
"Nós, povos de terreiro, nunca tivemos essa oportunidade de entidades como o Inpe e o Cemaden valorizarem nossa cultura e nos levar para esses espaços de poder, para mim é um espaço de poder, que eu via ondesão feitos os foguetes, via o asseio, via a importância daquele espaço cultural, intelectual e de muita necessidade para o Brasil. Porque é um espaço onde a gente vê tudo o que acontece", conta, em lembrança à imersão.
Que conexão pode existir entre satélites, alertas meteorológicos e a vida de fé? A resposta começa a tomar forma justamente em experiências como essa, vividas no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP). Durante dois dias, lideranças religiosas conhecem de perto como a ciência monitora o clima, acompanha o desmatamento, prevê eventos extremos e produz informações que ajudam a proteger vidas.
A cena reúne pesquisadores e representantes de diferentes tradições religiosas em torno de um mesmo objetivo: compreender melhor a crise climática e fortalecer a proteção das pessoas e dos territórios. Desde 2022, esse encontro já se repetiu mais de 30 vezes. As comunidades religiosas exercem um papel essencial por permanecerem nos territórios antes, durante e depois das tragédias, mobilizando solidariedade e transformando informação em ação coletiva.
Promovidas pela Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais (IRI Brasil), as imersões científicas no Inpe e no Cemaden — instituições vinculadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) — já receberam mais de 900 lideranças religiosas de 18 estados brasileiros. Participaram representantes de diferentes tradições cristãs, religiões de matriz africana, povos indígenas, comunidades da ayahuasca, judaísmo, islamismo, fé Bahá'í e outras expressões religiosas. Ao lado de cientistas, todos compartilham um espaço de diálogo sobre mudanças climáticas, desmatamento, prevenção de desastres e adaptação às novas condições ambientais.
Ciência de portas abertas
A programação de cada imersão é desenhada para transformar mapas, índices, imagens de satélite e projeções climáticas em experiência concreta. Não se trata de uma palestra técnica nem de um tour apressado. Os visitantes são convidados a ver com seus próprios olhos como os dados científicos nascem, são processados e se transformam em ferramentas para proteger pessoas e territórios. Pesquisadores explicam, mostram, respondem perguntas. Lideranças religiosas escutam, questionam, relacionam o que aprendem com a realidade de suas comunidades. Ao longo de dois dias, o que era distante e abstrato — uma curva de temperatura, um alerta de desmatamento, um mapa de risco — ganha sentido humano. E começa a se transformar, ali naquela sala, em algo que se leva para a vida.
No Cemaden, os visitantes são recebidos com um panorama institucional e, em seguida, assistem a palestras com meteorologistas e especialistas em desastres socioambientais. Os pesquisadores explicam como as mudanças climáticas têm intensificado a frequência e a gravidade de eventos extremos — secas prolongadas, enchentes devastadoras, deslizamentos — e como o monitoramento científico pode antecipar esses fenômenos, salvando vidas.
A visita à Sala de Situação é um dos momentos mais aguardados. Ali, diante de telas que mostram em tempo real o comportamento do clima em todo o território nacional, os visitantes conseguem visualizar as áreas com alerta de deslizamentos, enchentes ou secas extremas. É a ciência em ação, transformada em imagem e disponível para quem precisa tomar decisões.
O programa Cemaden Educação ocupa lugar central na visita. Por meio da campanha #AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco, as lideranças participam de oficinas práticas que as convidam a identificar riscos em seus próprios municípios, a interpretar mapas e alertas, e a planejar estratégias de prevenção adaptadas às realidades de suas comunidades. Professores, escritores, cantores, influenciadores digitais e agentes pastorais saem dali com materiais pedagógicos e, mais importante, com um repertório científico que pode ser traduzido em ações concretas nos territórios onde atuam.
No INPE, a experiência é igualmente impactante. Os visitantes conhecem o Laboratório de Integração e Testes (LIT), o maior do Hemisfério Sul — uma infraestrutura que poucos países possuem e onde os satélites são “montados” e testados. De uma passarela elevada, é possível contemplar o Hall de Testes, onde se veem câmaras termo-vácuo que simulam as condições extremas do espaço, shakers que submetem os satélites a vibrações semelhantes às do lançamento, câmaras anecóicas e acústica, além de modelos de testes dos satélites Amazonia-1 e CBERS-4. É, para muitos visitantes, o momento mais impactante de toda a imersão.
A visita ao Centro de Controle de Satélites (CCS) revela outro universo. Em uma sala com uma grande tela central, os visitantes observam o mapa orbital com as posições em tempo real dos cinco satélites operados pelo INPE, além de informações sobre clima espacial e as centenas de milhares de objetos que orbitam a Terra. Ali, compreendem a dinâmica de uma equipe que trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana, para planejar e executar o rastreio e o controle dos satélites brasileiros — uma operação que se estende do Centro de Controle em São José dos Campos às estações terrestres de Cuiabá (MT) e Alcântara (MA).
Mas é nos sistemas de monitoramento ambiental que a conexão com o cotidiano das comunidades se torna mais evidente. Pesquisadores do INPE apresentam o Programa BiomasBR. Mostram mapas — às vezes das próprias regiões de origem dos visitantes — com manchas que indicam, com enorme precisão, as áreas onde houve supressão da vegetação nativa. Explicam como funciona o PRODES, sistema de monitoramento anual que produz os dados oficiais de desmatamento do governo brasileiro, reconhecido internacionalmente por sua metodologia rigorosa, que passa por revisões internas e externas. Também apresentam o DETER, sistema de detecção de desmatamento em tempo real, que emite alertas quase diários e orienta ações de fiscalização e políticas públicas em todos os biomas do país.
Outro sistema apresentado é o Programa Queimadas. Na plataforma, um mapa em tempo real revela os focos de incêndio em todo o território nacional, atualizados diariamente graças às tecnologias de satélite que permitem detectar mesmo as menores ocorrências. Os pesquisadores explicam como esses dados são essenciais para o combate a incêndios, para a prevenção — com informações sobre risco de fogo observado e previsto para os próximos três dias — e para a consolidação de estatísticas sobre áreas queimadas e quantidade de focos por período, região, estado e bioma.
Os visitantes também conhecem a atuação do Instituto na Carta Internacional Espaço e Grandes Desastres (Disaster Charter), consórcio global que fornece imagens de satélite gratuitas para emergências — como terremotos, furacões ou enchentes — no Brasil e em qualquer lugar do mundo. Uma demonstração de como a ciência brasileira oferece suporte essencial à resposta a desastres e fornece informações estratégicas para a assistência humanitária dentro e fora do país.
Há ainda a Plataforma AdaptaBrasil, Desenvolvida pelo INPE em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), ela reúne e sistematiza informações sobre os impactos projetados das mudanças climáticas em cada região do país — desde o aumento de temperatura até a ocorrência de eventos extremos. A ferramenta permite visualizar, por exemplo, quais cidades podem enfrentar secas mais severas ou enchentes mais frequentes nas próximas décadas, oferecendo subsídios para que governos e comunidades possam planejar ações de adaptação antes que o desastre aconteça.
A previsão numérica de tempo e clima para a América Latina, produzida pelo INPE com o apoio de seu sistema de supercomputação, é outro conhecimento compartilhado com os visitantes. O sistema processa diariamente enormes volumes de dados atmosféricos para antecipar, com dias de antecedência, a chegada de frentes frias, massas de ar quente, tempestades ou períodos de estiagem — uma ferramenta essencial para a agricultura, a gestão de recursos hídricos, a defesa civil e, sobretudo, para a proteção de populações vulneráveis. Os estudos sobre mudanças climáticas — suas causas, consequências e possibilidades de adaptação — também são apresentados durante as visitas, oferecendo às lideranças religiosas elementos concretos para compreender a urgência da crise e para planejar ações de mitigação e adaptação em seus territórios.
O conhecimento adquirido durante as imersões não permanece nos laboratórios. De volta às comunidades, muitas lideranças transformam as informações recebidas em ações concretas de educação ambiental, prevenção de desastres e mobilização social. Em diferentes regiões do país, a aproximação entre ciência e fé tem fortalecido iniciativas que unem proteção ambiental, solidariedade e cuidado com a vida.
Quando a ciência chega no território
O pastor Marquinhos Maciel, da Comunidade Batista Vida (CBVida), em Rio Branco (AC), participou de uma das primeiras imersões promovidas pela IRI Brasil, em 2022. A experiência mudou sua forma de compreender a emergência climática e inspirou uma série de iniciativas socioambientais desenvolvidas pela igreja.
"O que mais me marcou foi compreender, ouvindo os cientistas, o quanto a ação humana contribui para agravar os desastres naturais. Mas também ficou claro que, se nossas escolhas ajudam a causar esses problemas, elas também podem fazer parte da solução. Foi isso que nos motivou a transformar esse aprendizado em ações concretas dentro e fora da igreja."
O aprendizado deu origem ao CBVida Ambiental, que reúne ações como o Green Day, mutirão que já retirou mais de uma tonelada de resíduos das margens do igarapé São Francisco; a instalação de placas solares, coleta seletiva e pontos de recarga para veículos elétricos; e o projeto Uma Vida, Uma Árvore, que já resultou no plantio de mais de 580 mudas na área conhecida como Cidade da Vida.
A comunidade também ajudou a criar, em parceria com o Instituto Vida e a IRI Brasil, a primeira Brigada Voluntária Inter-Religiosa do país para atuação em emergências climáticas. Durante as enchentes do rio Acre, desenvolveu ainda o projeto Água é Vida, que distribuiu filtros para famílias atingidas, e o Sabão Orgânico Vida, que transforma óleo de cozinha usado em produtos de limpeza destinados a pessoas em situação de vulnerabilidade.
A experiência também marcou dom Ricardo Hoepers, bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Após conhecer os sistemas de monitoramento do INPE e do Cemaden, ele passou a incorporar ainda mais o conhecimento científico à defesa da ecologia integral.
"A visita ampliou minha compreensão sobre o trabalho realizado pelos pesquisadores e mostrou, de forma muito concreta, aquilo que o papa Francisco afirma na Laudato Si': tudo está interligado. Aquilo que muitas vezes parece apenas uma reflexão teológica se revela também uma constatação científica. Os dados mostram que as mudanças ambientais afetam diretamente a vida das pessoas, sobretudo das mais vulneráveis."
Essa visão passou a integrar sua atuação na Campanha da Fraternidade 2025, dedicada à Ecologia Integral. "Precisamos superar o achismo e aprender a confiar em evidências. Os dados produzidos pelo INPE e pelo Cemaden ajudam a compreender a realidade com responsabilidade. A fé madura não rejeita o conhecimento científico; ao contrário, acolhe esse conhecimento e o coloca a serviço da vida."
Na Amazônia paraense, Mameto Nangetu também levou para sua comunidade os conhecimentos adquiridos durante as imersões. Fundadora do terreiro Manso Massumbando e coordenadora do Instituto Nangetu de Tradição Afro-Religiosa e Desenvolvimento Social, ela incorporou a prevenção de desastres às atividades desenvolvidas com povos tradicionais. Em 2023, o instituto recebeu o prêmio da campanha #AprenderParaPrevenir, do Cemaden, pelas ações de mobilização comunitária voltadas à redução de riscos de desastres.
Para Mameto, a aproximação com a ciência fortaleceu um cuidado com a natureza que sempre esteve presente nas tradições de matriz africana. "Nós cultuamos a natureza porque dependemos dela para viver. As folhas, as águas e a mata fazem parte da nossa espiritualidade. A ciência nos ajuda a proteger aquilo que sempre aprendemos a preservar. É uma troca de conhecimentos: nós compartilhamos nossa experiência com a natureza e também aprendemos com quem pesquisa e monitora o clima."
Quando ciência e fé constroem confiança
Em um país marcado por secas, enchentes, deslizamentos e ondas de calor cada vez mais frequentes, produzir conhecimento científico é apenas parte do desafio. É preciso que essas informações cheguem às pessoas de forma acessível e fortaleçam a prevenção nos territórios.
É nesse contexto que as lideranças religiosas ganham importância. Presentes nas comunidades e com forte capacidade de mobilização, elas ajudam a transformar evidências científicas em ações concretas. Para o coordenador da IRI Brasil, Carlos Vicente, esse diálogo nasce de um propósito comum.
"A IRI Brasil entende como essencial promover o diálogo entre cientistas e lideranças religiosas em torno da melhoria das condições de vida, reconhecendo que, a partir de diferentes caminhos e visões, ambos compartilham um compromisso com o bem comum. Esse diálogo também fortalece uma relação mais cuidadosa com a natureza, especialmente com as florestas, os recursos hídricos e o clima, e amplia a capacidade de mobilização das comunidades."
Para o diretor do INPE, Antonio Miguel Vieira Monteiro, a aproximação entre ciência e lideranças religiosas amplia o alcance social do conhecimento produzido pela instituição.
"A missão do INPE é produzir conhecimento científico de excelência para responder aos desafios do país. Quando esse conhecimento chega às comunidades por meio de lideranças que já possuem credibilidade e compromisso com seus territórios, ele ganha ainda mais capacidade de transformar realidades. A ciência produz evidências, mas elas precisam dialogar com as pessoas para gerar mudanças concretas."
As imersões seguem em expansão, com a meta de ampliar o número de participantes e fortalecer uma rede nacional de lideranças preparadas para disseminar conhecimentos sobre prevenção de desastres, adaptação às mudanças climáticas e proteção ambiental. A iniciativa mostra que, diante da crise climática, ciência e fé podem atuar de forma complementar na construção de comunidades mais preparadas e resilientes.