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REGISTRO INÉDITO
Pesquisadores fazem registro inédito de um macaco sauá albino no Parque Estadual do Rio Doce através de monitoramento com drones
O primeiro registro de um sauá-da-cara-preta (Callicebus nigrifrons) com albinismo despertou muita curiosidade sobre o assunto. A descoberta de pesquisadores do projeto “Primatas PERDidos” foi realizada com o uso de um drone dentro de uma área de floresta densa no Parque Estadual do Rio Doce, em Minas Gerais. A descoberta foi publicada no início deste mês na revista científica internacional Primates e tem a colaboração do pesquisador do INMA Lucas Gonçalves.
O que mostra a imagem?
A imagem mostra o sauá-da-cara-preta albino com outros dois animais de coloração normal. Os pesquisadores comentam que, muitas vezes, animais albinos são rejeitados ou até atacados pelos pares. Mas, nesse caso, o indivíduo parecia estar plenamente integrado ao grupo.
O que é o albinismo?
“O albinismo é uma alteração genética em que ocorre a ausência total ou parcial de melanina nos tecidos do corpo, que afeta a pelagem, a pele e as palmas de mãos e pés. Os olhos geralmente apresentam coloração avermelhada, devido à visualização dos vasos sanguíneos da retina. É diferente do leucismo em que a redução de pigmentação geralmente é restrita apenas à pelagem”, explica o pesquisador Lucas Gonçalves.
Como ocorreu o registro?
"Em uma das expedições do trabalho de monitoramento de fauna, a câmera termal embarcada em um drone detectou o calor de um grupo de animais, e quando passamos para a visualização pela câmera colorida, vimos que se tratava de um indivíduo completamente branco. Na hora eu pensei: Que espécie é essa? Só depois, comparando com os outros indivíduos, percebemos que era um sauá. Foi um choque. É como encontrar uma agulha no palheiro", explicou Vanessa Guimarães, a bióloga líder do estudo e uma das fundadoras do projeto “Primatas PERDidos”.
Qual a importância desse registro?
“Esse foi o primeiro registro de um sauá albino conhecido para a ciência. Casos de albinismo em espécies de primatas da América Central e do Sul são extremamente raros. No Brasil, apenas 14 casos de anomalias de pigmentação em primatas foram documentados. Na família do sauá, conhecido também como guigó, composta por 63 espécies, não havia nenhum registro até então”, comenta Lucas Gonçalves.
O que esse registro pode indicar?
Para os pesquisadores, o registro indica possíveis efeitos do isolamento populacional causado pela degradação ambiental ao redor do Parque. Criado em 1944, o Parque Estadual do Rio Doce tem cerca de 36 mil hectares de floresta e é considerado a maior mancha contínua de Mata Atlântica de Minas Gerais e uma das últimas em bom estado de conservação no país. Ele abriga cinco espécies de primatas, três delas ameaçadas de extinção.
“Esses animais precisam de grandes áreas de floresta conectadas. O Parque Estadual do Rio Doce é cercado por áreas degradadas, em consequência da expansão urbana, da monocultura e de atividades agroindustriais. Isso afeta o fluxo genético das espécies e pode aumentar a endogamia, ou seja, a reprodução entre parentes próximos. A diminuição da troca genética pode resultar no aumento da frequência de características causadas por mutações recessivas como a do albinismo. Além disso, fatores externos, como a poluição atmosférica e o uso intensivo de agrotóxicos em plantações próximas, podem potencialmente interferir na expressão genética de animais silvestres”, explica Vanessa Guimarães.
Os pesquisadores explicam ainda que a condição genética interfere em muitos aspectos da vida do animal: sem possibilidade de se camuflar, ele fica mais exposto aos seus predadores naturais. O animal também fica mais suscetível a doenças de pele como câncer e problemas de visão.
Quais são as características do sauá?
O sauá-da-cara-preta é um primata endêmico da Mata Atlântica, encontrado nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. A espécie é monogâmica e vive em pequenos grupos geralmente formados por um casal e seus filhotes.
Essa espécie tem uma longa cauda e um corpo marrom-acinzentado. Um animal adulto tem, em média, 90 centímetros de comprimento (corpo e cauda) e pesa entre 1 e 2 quilos.
“Os sauás se alimentam principalmente de frutos. Ao dispersar naturalmente as sementes nas florestas, ajudam na sua regeneração. Atualmente, a espécie está classificada como ‘quase ameaçada’ de extinção segundo a lista nacional de espécies ameaçadas do ICMBio, com populações em declínio por conta especialmente da perda de habitats. Esses primatas são jardineiros das florestas, e essa descoberta reforça a importância da conservação de espécies-chave para o funcionamento de ecossistemas complexos, como a Mata Atlântica”, finaliza Lucas Gonçalves.