Instituto Nacional da Mata Atlântica desenvolve projeto para reintroduzir na natureza jacutingas nascidas sob cuidados humanos
28 indivíduos da espécie classificada como ameaçada de extinção já nasceram no zoológico do INMA

Em 2023, com o recebimento de sete aves que vieram da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) iniciaram um projeto que visa à reprodução da jacutinga sob cuidados humanos e retorno desses indivíduos à Mata Atlântica. Até o momento, 28 indivíduos já nasceram no Zoológico do INMA, localizado no parque do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, em Santa Teresa/ES.
“A alta taxa de reprodução das jacutingas mostra que o ambiente, o manejo e o bem-estar no Zoológico do INMA favoreceram a reprodução dos casais, que se encontram saudáveis e férteis. Muitas vezes, fatores como instalações adequadas, alimentação, enriquecimento, clima e tranquilidade são determinantes para estimular esse processo”, explica a médica veterinária e tecnologista do INMA, Mariana Malzoni Furtado.
Os ovos são chocados com o auxílio de uma incubadora para garantir as condições necessárias ao desenvolvimento dos embriões. Logo após o nascimento, os filhotes são transferidos para um ambiente com temperatura e umidade controladas para se fortalecerem e se desenvolverem sadios. A dieta da espécie fora de seu habitat natural é baseada em ração comercial, frutas e verduras frescas.
“A probabilidade de sobrevivência de um indivíduo nascido sob cuidados humanos dependerá de como ele é manejado, desde o seu nascimento até a liberação na natureza. Isso significa que as experiências individuais e o aprendizado enquanto jovens são extremamente importantes para a sua sobrevivência. Nesse sentido, os recintos onde as aves estão provisoriamente vivendo precisam estar adaptados ao mais similar possível às características da floresta onde esses animais serão libertados. Portanto, a inclusão de folhas secas, vegetação natural e o isolamento do recinto a uma área não visitável do zoológico, minimizando, dessa forma, o contato com seres humanos, são partes essenciais para o sucesso desse processo”, enfatiza a ornitóloga Flávia Chaves, pesquisadora do INMA.
Segundo dados do Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a jacutinga (Aburria jacutinga) é uma ave que, originalmente, podia ser encontrada da Bahia ao Rio Grande do Sul, além do nordeste da Argentina e sudeste do Paraguai. A espécie é considerada extinta no Espírito Santo e em áreas como extremo sul da Bahia e centro-oeste do Paraná, em função da caça e do desmatamento. A extração do palmito, um dos principais alimentos da jacutinga, também impacta essa ave. Estima-se que haja menos de 2,5 mil indivíduos adultos em território brasileiro, vivendo, especialmente, em Unidades de Conservação. O nome jacutinga vem do tupi e significa “jacu branco”, em referência às penas brancas que ficam no topo da cabeça e nas asas. A espécie também é conhecida como peru-do-mato e mede cerca de 75 centímetros na idade adulta.
“A jacutinga vive na Mata Atlântica, consumindo frutos de diversas espécies de plantas. Ao se alimentar, contribui para a dispersão dessas sementes, para longe da planta-mãe. Essas sementes dispersadas, em condições viáveis, tendem a originar uma nova planta. Portanto, a jacutinga contribui na manutenção das florestas e na restauração da Mata Atlântica”, destaca Flávia.
Além da jacutinga, o INMA tem um projeto de reprodução do mutum-do-sudeste (Crax blumenbachii), ave endêmica e também ameaçada de extinção, que se distribuía, originalmente, do sul da Bahia ao Rio de Janeiro. Também é conhecida popularmente como mutum-de-bico-vermelho. As principais ameaças à sobrevivência dessa ave são a caça e o desmatamento. A população total de mutuns no país é estimada em 2,5 mil indivíduos adultos em vida livre. Até agora, oito mutuns já nasceram sob cuidados humanos no INMA.
“Esperamos em breve dar início a um projeto de manejo e reforço populacional dessa ave, focando em locais onde o mutum-do-sudeste já ocorra, porém em números populacionais bem reduzidos. Um desses locais, por exemplo, é a Mata Atlântica do sul da Bahia”, completa Flávia.