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Detecção precoce
As estratégias para a detecção precoce do câncer de mama são o diagnóstico precoce (abordagem de pessoas com sinais e/ou sintomas iniciais da doença) e o rastreamento (aplicação de teste ou exame numa população sem sinais e sintomas sugestivos de câncer de mama, com o objetivo de identificar alterações sugestivas de câncer e encaminhar as mulheres com resultados anormais para investigação diagnóstica) (INCA, 2021).
As Diretrizes para a Detecção Precoce do Câncer de Mama no Brasil apresentam as recomendações para diagnóstico precoce e rastreamento (INCA, 2015; Migowski, 2018a).
Cabe ressaltar que, em setembro de 2025, houve atualização da recomendação para o rastreamento do câncer de mama no Brasil. A faixa etária prioritária passou a ser de 50 a 74 anos, com periodicidade bienal, como estratégia de maior comprovação científica para a redução da mortalidade por câncer de mama. Essa recomendação está alinhada ao Código Latino-Americano e Caribenho contra o Câncer (IARC/OMS/OPAS, 2023).
O Ministério da Saúde também ressalta que, embora a faixa etária prioritária seja de 50 a 74 anos, mulheres entre 40 e 49 anos e acima de 74 anos que desejarem realizar a mamografia poderão fazê-lo, desde que orientadas por profissionais de saúde quanto aos potenciais riscos e benefícios, incluindo a possibilidade de resultados falso-positivos, exames desnecessários e sobrediagnóstico.
Diagnóstico Precoce
A estratégia de diagnóstico precoce contribui para a redução do estágio de apresentação do câncer. Nessa estratégia, destaca-se a importância da educação da mulher e dos profissionais de saúde para o reconhecimento dos sinais e sintomas suspeitos de câncer de mama, bem como do acesso rápido e facilitado aos serviços de saúde tanto na atenção primária quanto nos serviços de referência para investigação diagnóstica. São considerados sinais e sintomas suspeitos de câncer de mama e de referência urgente para a confirmação diagnóstica:
- Nódulo mamário de consistência endurecida e fixo, em mulheres adultas de qualquer idade; ou
- Nódulo mamário que vem aumentando de tamanho, em mulheres adultas de qualquer idade; ou
- Descarga papilar sanguinolenta unilateral; ou
- Lesão eczematosa da pele que não responde a tratamentos tópicos ou pele em casca de laranja ou retração na pele da mama; ou
- Presença de linfadenopatia axilar normalmente endurecida, podendo ser fixa ou móvel. Outras cadeias de linfonodos supra ou infra-clavicular também podem estar acometidas em doenças avançadas; ou
- Aumento progressivo do tamanho da mama com a presença de sinais de edema, como pele com aspecto de casca de laranja ou vermelhidão; ou
- Mudança no formato do mamilo (ex.: retração unilateral).
- Homens com tumoração palpável unilateral; ou
- Mastite ou inflamação que não melhora depois de um curso adequado de antibiótico.
Na década de 1950, nos Estados Unidos, o autoexame das mamas surgiu como estratégia para diminuir o diagnóstico de tumores de mama em fase avançada. Ao final da década de 1990, ensaios clínicos mostraram que o autoexame não reduzia a mortalidade pelo câncer de mama. A partir de então, diversos países passaram a adotar a estratégia de breast awareness, que significa estar consciente para a saúde das mamas (Thornton e Pillarisetti, 2008).
Essa estratégia de conscientização destaca a importância do diagnóstico precoce e busca orientar a população feminina sobre as mudanças habituais das mamas em diferentes momentos do ciclo de vida e os principais sinais suspeitos de câncer de mama.
A orientação é que a mulher observe e palpe suas mamas sempre que se sentir confortável para tal (seja no banho, no momento da troca de roupa ou em outra situação do cotidiano), sem necessidade de aprender um técnica de autoexame ou de seguir uma periodicidade regular e fixa, valorizando a descoberta casual de pequenas alterações mamárias suspeitas. É necessário que a mulher seja estimulada a procurar esclarecimento médico, em qualquer idade, sempre que perceber alguma alteração suspeita em suas mamas. O sistema de saúde precisa adequar-se para acolher, informar e realizar os exames diagnósticos em tempo oportuno. Prioridade na marcação de exames deve ser dada às mulheres sintomáticas, que já apresentam lesão palpável na mama ou outro sinal de alerta.
A estratégia do diagnóstico precoce é especialmente importante em contextos de apresentação avançada do câncer de mama.
Rastreamento
O rastreamento do câncer de mama é uma estratégia que deve ser dirigida às mulheres na faixa etária e periodicidade em que há evidência conclusiva sobre redução da mortalidade por câncer de mama e na qual o balanço entre benefícios e danos à saúde dessa prática é mais favorável. Os benefícios do rastreamento bienal com mamografia em mulheres de 50 a 74 anos são bem estabelecidos: redução da mortalidade por câncer de mama, diagnóstico em estágios mais precoces da doença e, consequentemente, maior chance de tratamentos menos agressivos e mais efetivos, com menor morbidade associada. Embora os benefícios superem os riscos nessa faixa etária, é importante saber que existem riscos como: resultados falso-positivos (que podem gerar ansiedade e levar à realização de exames adicionais), falso-negativos (que podem transmitir falsa sensação de segurança), além do risco de sobrediagnóstico e sobretratamento de tumores de comportamento indolente. Em menor escala, também existe a exposição à radiação ionizante em baixas doses, cujo impacto é minimizado quando o exame é realizado com a periodicidade adequada e em serviços que seguem padrões de qualidade. (INCA, 2015).
O rastreamento pode ser oportunístico ou organizado. No primeiro, o exame de rastreio é ofertado às mulheres que oportunamente chegam às unidades de saúde, enquanto o modelo organizado convida formalmente as mulheres na faixa etária alvo para os exames periódicos, além de garantir controle de qualidade, seguimento oportuno e monitoramento em todas as etapas do processo. A experiência internacional tem mostrado que o segundo modelo apresenta melhores resultados e menores custos (INCA, 2021).
Em países que implantaram programas efetivos de rastreamento, com cobertura da população-alvo, qualidade dos exames e, sobretudo, tratamento adequado e oportuno, a mortalidade por câncer de mama vem diminuindo. O impacto do rastreamento na mortalidade por essa neoplasia justifica sua adoção como política de saúde pública, tal como recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (Iarc, 2016).
A mamografia é o único exame cuja aplicação em programas de rastreamento apresenta eficácia comprovada na redução da mortalidade por câncer de mama.
A mamografia de rotina é recomendada para as mulheres de 50 a 74 anos uma vez a cada dois anos*. Essa recomendação está alinhada ao Código Latino-Americano e Caribenho contra o Câncer, respaldado pela IARC/OMS e OPAS e baseia-se na evidência científica do benefício dessa estratégia na redução da mortalidade nesse grupo e no balanço favorável entre riscos e benefícios (OPAS, 2023).
Todas as mulheres, independentemente da idade, devem ser estimuladas a conhecer seu corpo para saber o que é e o que não é normal em suas mamas. A maior parte dos cânceres de mama é descoberta pelas próprias mulheres.
Além disso, o Ministério da Saúde recomenda o rastreamento populacional para mulheres* entre 50 e 74 anos, a cada dois anos, com mamografia de rastreamento (exame de rotina realizado quando não há sinais nem sintomas suspeitos).
Importante: *Incluem-se também nessa recomendação os homens trans e pessoas não-binárias assignadas no feminino ao nascer, que mantêm as suas mamas.
Aproximadamente 5% dos casos de câncer de mama ocorrem em mulheres com alto risco para desenvolvimento dessa neoplasia. Ainda não existem ensaios clínicos que tenham identificado estratégias de rastreamento diferenciadas e eficazes para redução de mortalidade nesse subgrupo. Portanto, recomenda-se acompanhamento clínico individualizado para essas mulheres.
Alto risco de câncer de mama relaciona-se à forte predisposição hereditária decorrente de mutações genéticas. As mais comumente associadas são as dos genes BRCA 1 e 2 (síndrome de câncer de mama e ovário hereditários), que representam de 30 a 50% dos casos. Mas mutações genéticas também foram encontradas em outros genes como: PALB2, CHEK2, BARD1, ATM, RAD51C e RAD51D (Breast Cancer Association Consortium, 2021), TP53 (síndrome de Li-Fraumeni) e PTEN (síndrome de Cowden) (Mitchell et al, 2017; Migowski et al. 2018a). Também constitui alto risco o histórico de radioterapia supra diafragmática antes dos 36 anos de idade para tratamento de linfoma de Hodgkin (Swerdlow, 2012; Migowski et al. 2018a).
O êxito das ações de rastreamento depende dos seguintes pilares:
- Informar e mobilizar a população e a sociedade civil organizada.
- Alcançar a meta de cobertura da população-alvo.
- Garantir acesso a diagnóstico e tratamento oportuno.
- Garantir a qualidade das ações.
- Monitorar e gerenciar continuamente as ações.
A existência de rastreamento mesmo com boa cobertura não prescinde das estratégias de diagnóstico precoce, pois são abordagens complementares (Migowski et al. 2018). No cenário atual brasileiro em que cerca de 40% dos diagnósticos de câncer de mama são feitos em estádios avançados (INCA, 2024), é prioritário organizar as ações de diagnóstico precoce.
Referências
BREAST CANCER ASSOCIATION CONSORTIUM et al. Breast Cancer Risk Genes - Association Analysis in More than 113,000 Women. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 384, n. 5, p. 428-439, Feb 2021. DOI 10.1056/NEJMoa1913948. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMoa1913948?articleTools=true. Acesso em: 30 jun 2025.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Código Latino-Americano e Caribenho contra o Câncer [1ª Edição]. Out. 2023. Disponível em: https://cancer-code-lac.iarc.who.int/pt/sobre-o-codigo/
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA. Diretrizes para a detecção precoce do câncer de mama no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2015. Disponível em: https://ninho.inca.gov.br/jspui/handle/123456789/7819 Acesso em: 30 jun 2025.
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA. Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2021. Disponível em: https://antigo.inca.gov.br/publicacoes/livros/deteccao-precoce-do-cancer Acesso em: 30 jun 2025.
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Controle do câncer de mama no Brasil. Dados e números 2024. Rio de Janeiro: INCA, 2024. Disponível em: https://ninho.inca.gov.br/jspui/handle/123456789/17002 Acesso em: 30 jun 2025.
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MITCHELL, R. N. et al. Fundamentos de patologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
SWERDLOW, A. J. et al. Breast cancer risk after supradiaphragmatic radiotherapy for Hodgkin’s lymphoma in England and Wales: a National Cohort Study. Journal of Clinical Oncology, Alexandria, VA, v. 30, n. 22, p. 2745-2752, Aug 2012.
THORNTON, H.; PILLARISETTI, R. R. 'Breast awareness' and 'breast self-examination' are not the same. What do these terms mean? Why are they confused? What can we do?. European Journal of Cancer, Oxford, v. 44, n. 15, p. 2118-2121, Oct 2008. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18805689/ Acesso em: 30 jun 2025.