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Loucurarte: a dança é para todos!
Espetáculo em Aracruz reuniu diversidade de ritmos em apresentações desenvolvidas ao longo 14 anos do grupo. Foto: Fernando Amazonas
Música, corpos, movimentos, expressões. O Ponto de Cultura Companhia de Dança Loucurarte emocionou o público ao subir ao Palco Folia de Reis, na terça-feira (19), durante a 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, em Aracruz (ES). Para além da música e do figurino variados, trocados em vários momentos, um elemento chamou a atenção do público: as cadeiras de rodas. O grupo, criado no estado de Sergipe, une artistas cadeirantes e andantes, construindo uma bela sintonia entre corpos diversos que dançam.
Na apresentação, os artistas transitam por diversos ritmos, desde a dança contemporânea a ritmos populares, da música nordestina à internacional. Mas detrás de uma hora de exibição no palco, existem muitos dias de ensaio, treinamentos e laboratórios para a construção conjunta das coreografias.
O projeto surgiu a partir de uma experiência em um Centro de Atenção Psicossocial em Nossa Senhora da Glória (SE), o Caps Luz do Sol, a cerca de 120 km da capital Aracaju, inicialmente com usuários do equipamento e logo para a comunidade geral. Mas há 14 anos, o Ponto de Cultura passou a ter um espaço na capital, na chácara do presidente e idealizador do projeto Manoel Messias Cordeiro, com um salão devidamente equipado para ensaios, com banheiros adaptados e alojamentos, já que muitos participantes vêm do interior.
O grupo conta atualmente com 18 integrantes, sendo 7 cadeirantes e 11 andantes e pratica tanto a dança artística como a paradança, prática esportiva e competitiva. Todo fim de semana, o grupo se reúne para ensaios, trocas e construções. “Nosso trabalho não é apenas um trabalho assistencialista, é um trabalho de bailarinos que dedicam parte do seu tempo à dança. A gente treina, ensaia, faz laboratórios, trazemos propostas para tentar criar história e conteúdo por meio da dança. Não é simplesmente chegar e dançar”, conta Davi Pontes, um dos dançarinos do grupo. Como ressalta Luiza Kimmer, outra integrante da companhia, os bailarinos merecem ser reconhecidos e remunerados como os artistas que são.

- Espetáculo em Aracruz reuniu diversidade de ritmos em apresentações desenvolvidas ao longo 14 anos do grupo. Foto: Fernando Amazonas
O trabalho artístico exige técnica, minúcia e diálogo, para construir movimentos conjuntos entre cadeirantes e andantes, respeitando os devidos tempos e capacidades de cada corpo, considerando ainda que o grupo reúne dançarinos com diferentes tipos de deficiências. “Existe técnica dos dois lados. Temos que aperfeiçoar os passos para saírem perfeitos no palco, ver até onde cada um consegue chegar em seu ritmo”, diz Ronny Lima, professor de dança artística da companhia.
“O que a gente mais deseja é que nossa arte seja uma ferramenta para a vida de outras pessoas. Para que as pessoas possam nos ver no palco e não pensar apenas: ‘nossa, que bonitinho eles dançando’. Não, queremos que olhem para o palco e pensem: ‘existem muitas possibilidades nesse mundo”, diz Davi, que entrou há alguns meses na companhia, vindo de experiências anteriores na paradança no estado do Pará. Ele considera que aumentou seu leque de conhecimento sobre as possibilidades da dança a partir dos experimentos coreográficos no Loucurarte.
Os desafios ainda são muitos em uma sociedade altamente capacitista, em que ainda sobram preconceitos e falta acessibilidade. E o grupo de dança também se depara com isso quando circula, encontrando muitos equipamentos culturais ou locais de apresentação que não possuem estrutura acessível nos banheiros ou palcos, por exemplo. “Já aconteceu muitas vezes de ter que dançar no chão, onde o público não consegue ver a gente bem”, relata Davi Pontes.

- Cadeirantes e andantes se juntam para compor a Cia Loucurarte. Foto: Fernando Amazonas
Muitos dos cadeirantes, contam os membros da companhia, enfrentam tanta dificuldade para sair às ruas que acabam ficando muito tempo em casa. O envolvimento com a arte serve como um elemento de motivação e de despertar da potência dos próprios corpos, com tudo que eles permitem de expressão.
Mas integrar companhias como a Loucurarte também tem proporcionado não só sair mais de casa, construir conexões com outras pessoas e se desenvolver artisticamente como também conhecer vários outros lugares a partir da circulação do grupo para suas apresentações.
Dias antes da Teia Nacional, a companhia de dança se apresentou na Mostra Nacional Albertina Brasil de Artes sem Barreira, realizada pelo Pontão de Cultura Albertina Brasil, surgido a partir da experiência da Cia Loucurarte, com foco em cultura, acessibilidade e inclusão. Em julho, segue para o 43º Festival de Dança de Joinville, marcando sua quarta participação neste que é considerado o maior festival de dança do mundo.
“Somos loucos pela arte, como diz o nome do grupo. O que nos move é a arte e a cultura que propiciem diálogos e caminhos para as pessoas”, diz Luiz Kimmer. “A dança é para todos os corpos e a Loucurarte quer mostrar que as pessoas com deficiência devem ser incluídas não apenas para assistir outras pessoas mas também para serem assistidas pelo público e se expressarem artisticamente”, conclui.
Por Vitor Taveira
Cobertura Colaborativa Teia 2026