Notícias
ARTICULAÇÃO
Comunidades tradicionais de matriz africana iniciam debates preparatórios para a 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura
Divulgação
Lideranças de povos e comunidades de matriz africana que integram a rede da Política Nacional de Cultura Viva (PNCV) realizaram nesta quarta-feira (21) uma atividade virtual para debater as propostas que serão levadas à 6ª Teia Nacional – Pontos de Cultura pela Justiça Climática, em Aracruz (ES), de 24 a 29 de março. O objetivo é garantir que este segmento, com seus conhecimentos e tecnologias ancestrais, tenha protagonismo tanto nas discussões sobre o tema central da Teia, que aborda a relação da cultura com a sustentabilidade e o bem viver, quanto no futuro da Cultura Viva, uma política que reconhece o fazer cultural de base comunitária e tem a gestão compartilhada e participativa com a sociedade civil.
Trata-se de uma iniciativa do Grupo de Trabalho de Matriz Africana da Comissão Nacional de Pontos de Cultura e dos Pontões Ancestralidade Africana no Brasil e Articula Matriz Africana, em parceria com o Ministério da Cultura (MinC). Ao participar do evento, a secretária de Cidadania e Diversidade Cultural da Pasta, Márcia Rollemberg, destacou a importância da gestão compartilhada e participativa da PNCV com a sociedade civil e os entes federados, enfatizando a Teia como um momento de repactuação das parcerias.
“A Cultura Viva é uma política federativa, com um piso de investimento, uma dimensão comunitária e que cria uma trajetória de extrema relevância no Sistema Nacional de Cultura. Estamos em um momento de muitos desafios, mas também de muitas celebrações. Hoje, são 13 mil pontos de cultura, mas estamos somente em dois mil municípios. Então, é um grande desafio fazer essa política ser universal”, explicou.
Citou ainda a relação da PNCV com a diversidade cultural brasileira e como um instrumento para combater preconceitos. “A intolerância religiosa é um tema diário e que revela as dificuldades de uma sociedade que não reconhece a sua diversidade. Acho que ainda estamos em um processo de descoberta desse Brasil plural e profundo. E a Política Cultura Viva faz isso: reconhece aqueles que fazem a cultura no território, as nossas identidades, as nossas tradições e as nossas inovações”, completou Márcia.
Na sequência, o diretor da Política Nacional de Cultura Viva, João Pontes, falou sobre a atuação estratégica dos pontões de cultura de matriz africana no processo de retomada da PNCV e o investimento histórico na política superior a R$ 400 milhões por ano. “A Teia é um momento importante para que a gente possa pensar os desafios e mostrar para o Brasil inteiro que a Cultura Viva é a força mais importante dentro do campo cultural e uma das forças políticas mais importantes do Brasil”, explicou.
Próximo encontro
Chamado de Pré-Fórum, o evento terá continuidade no dia 27 de janeiro, com a divisão dos participantes em grupos de trabalho e a realização de uma plenária para votar as propostas. Segundo a representante do Pontão Ancestralidade Africana, Silvany Euclênio, mais de 300 pessoas já se inscreveram na atividade, sendo que 41% estão cadastradas como pontos de cultura, 20% em processo de certificação e 33% atuam na Cultura Viva, mas ainda não solicitaram o cadastro formal.
Os inscritos tiveram a oportunidade de responder a uma pesquisa avaliando, entre outros assuntos, a inclusão das comunidades tradicionais nas Teias Estaduais. O diagnóstico revelou um cenário de baixa participação ou dificuldade de acesso: 24% participaram ativamente, 41% não se envolveram e 20% tentaram participar, mas enfrentaram obstáculos. Entre os que participaram, há queixas de falta de protagonismo e invisibilização. Em relação às demandas, apontaram a criação de editais específicos, a destinação de mais recursos para oficinas e atividades educativas e o reconhecimento dos territórios tradicionais.
“A realização do Pré-Fórum expressa um grande desejo dos povos tradicionais de maior organização e participação para que tenhamos um protagonismo real na trilha da Teia Nacional. Esse diagnóstico é importante para pensarmos os nossos diálogos e as nossas propostas”, explicou Silvany.
Participações
O Mestre Aderbal Moreira Costa, coordenador do Pontão de Cultura Articula Matriz Africana e da Rede Afroambiental, destacou a relevância de os pontos de cultura debaterem a pauta da justiça climática. “Com a Teia, a gente coloca o tema cultura e clima num lugar de protagonismo necessário para recuperar essa cultura de adoração à natureza. É uma oportunidade importante também de juntar forças nesse momento de sério risco à diversidade cultural. A Cultura Viva é a política que pode dimensionar essa luta de recuperação da nossa episteme para brecar o estado de calamidade cultural que os povos de matriz africana vivem por conta do racismo religioso estrutural e da invisibilização da nossa história. Precisamos assumir e protagonizar essa luta”.
Pai Lula Dantas, coordenador do Ponto de Cultura, Associação do Culto Afro Itabunense e membro da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, reforçou o convite para que a sociedade civil chegue preparada à Teia Nacional e valorize os espaços de participação.
“Para nós, povos de matriz africana, a cidadania nunca foi um presente do Estado. Foi uma conquista pela resistência e pela resiliência. Qualquer instância de participação e controle social onde nós estejamos presentes será o nosso instrumento de cidadania cultural e por ela que nós vamos lutar pelos nossos direitos. Será neste Fórum que transformaremos o saber do terreiro em proposta política. Realizar fóruns nos territórios é nosso primeiro ato de combate ao racismo estrutural e também de defesa da vida, da terra e da memória”, enfatizou.
Presente no evento, o diretor de Promoção das Culturas Tradicionais e Populares do MinC, Tião Soares, classificou o Pré-Fórum como um espaço de diálogo e reflexão sobre as vozes, as culturas e as tradições dos povos e comunidades de matriz africana. “Vivemos em tempos desafiadores, em que é essencial afirmar e defender as nossas identidades, enfrentando as violências culturais que por muito tempo tentaram silenciar nossas tradições. Este Pré-Fórum é uma plataforma valiosa, uma arca onde podemos compartilhar nossas experiências, discutir estratégias de enfrentamento e construção coletiva. Abre e amplia a discussão de políticas públicas voltadas para este segmento tão marginalizado e vulnerabilizado no processo social histórico do Estado brasileiro”.