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REGIÃO SUL
12º Fórum de Pontos de Cultura do Rio Grande do Sul promove diálogos, reflexões e construção coletiva para o fortalecimento da rede
Foto: Aline Pontes
Os 21 anos da Cultura Viva no Brasil e a história dessa política no Rio Grande do Sul, a importância do fortalecimento da memória e a valorização dos mestres e mestras das culturas populares e tradicionais. Esses foram alguns dos temas que marcaram o 12º Fórum Estadual da Rede de Pontos de Cultura RS, realizado nos dias 7 e 8 de fevereiro, no Centro de Convívio dos Meninos do Mar (CCMAR), na cidade do Rio Grande.
O encontro teve como principal objetivo a eleição de 30 delegados e delegadas do estado para o 5º Fórum Nacional de Pontos de Cultura, que se realizado durante a 6ª Teia Nacional, de 24 a 29 de março, em Aracruz (ES). Além de discutir questões relacionadas diretamente à gestão e implementação da Política Nacional Cultura Viva (PNCV), esta edição da Teia prevê debates em torno de três eixos: Plano Nacional de Cultura Viva para os próximos 10 anos; Governança da PNCV; Cultura Viva, trabalho e sustentabilidade da criação artística. Os fóruns estaduais vêm abordando esses eixos temáticos e reunindo proposições para serem levadas ao encontro nacional no Espírito Santo.
Em Rio Grande, foram realizadas discussões sobre a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) e sua relação com a PNCV, mesas de mestres e mestras, articulação dos pontões de cultura, e conversas sobre a memória da rede neste momento de retomada, depois de 12 anos sem um fórum nacional (o último foi em 2014, na Teia Nacional da Diversidade, em Natal). A escolha da delegação que representará o estado na 6ª Teia foi acompanhada de outras duas eleições: da Comissão Estadual de Pontos de Cultura, instância onde ocorre a gestão compartilhada da política, e do Comitê Gestor da Política Estadual Cultura Viva, que conduz o processo de participação social.
“A rede de Cultura Viva no Rio Grande do Sul tem uma característica distinta: conta com uma legislação estadual desde 2014 e um comitê gestor da política desde 2019. É uma experiência que ainda não temos em escala nacional”, destacou Leandro Anton, coordenador de Articulação da Cultura Viva no Ministério da Cultura (MinC). Para ele, esses dois dias de programação foram importantes para a reflexão, renovação e organização da própria rede. Segundo o representante do MinC, em 2023, quando foi retomada a PNCV, o Rio Grande do Sul tinha 264 pontos de cultura distribuídos em 113 municípios (de um total de 497). Agora, esse número saltou para 654 pontos de cultura espalhados por 150 municípios.
O 12º Fórum Estadual da Rede de Pontos de Cultura foi organizado de forma híbrida, com participação presencial e virtual, e contou com 132 representantes da rede Cultura Viva no estado. O evento foi promovido pela Rede RS de Pontos de Cultura, com apoio da Prefeitura do Rio Grande, por meio da Secretaria do Município de Cultura e Economia Criativa (SMCEC), da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) e do Ministério da Cultura, entre outras instituições e parceiros.
O evento reuniu representantes dos governos municipal, estadual e federal, e da organização anfitriã, o Ponto de Cultura e de Memória Filhos de Aruanda, fundado em 2012 em Rio Grande. Nesta cidade de quase 200 mil habitantes, situada no extremo sul do estado, são 12 pontos de cultura certificados pelo MinC. Destes, nove foram credenciados recentemente, em 2025, por meio de editais municipais da Aldir Blanc.
Cristiano Ávila, representante do Instituto Cultural Filhos de Aruanda, falou sobre o sentido de pertencimento, da responsabilidade e da alegria de ver esse espaço se transformar em território de escuta, de memória, de luta, de criação. “Território onde a cultura não é ornamento. É direito, é política pública, é vida em movimento”, afirmou, destacando este fórum como um espaço de construção coletiva, de avaliação do que foi (e será) feito, de proposição e de fortalecimento da rede de Cultura Viva. “Aqui reafirmamos que nós, pontos, não somos projetos temporários; somos políticas estruturantes.”
Memória
A secretária de Cultura e Economia Criativa do município, Rita Patta Rache, disse receber com muita atenção e comprometimento a realização do fórum na cidade, conhecida por sediar o ArtEstação, um dos primeiros pontos de cultura certificados pelo MinC, em 2005. Segundo ela, foi com essa parceria que a história da Cultura Viva teve início no município, estendendo-se depois para a Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Em trabalho conjunto com o MinC, a FURG participou do processo de constituição da Geribanda, uma rede de 16 Pontos de Cultura do sul do estado, e da Incubadora Cultura Viva, criada em 2015.
“De lá pra cá nada parou no trabalho, que é sempre de parceria entre sociedade civil e poder público. É com esse espírito, de pensar no caminho possível entre a institucionalidade e a sociedade civil organizada, que se fazem encontros como este. Este fórum é dos pontos de cultura, de organização autônoma, mas é importante também para nós, que viemos do movimento social e hoje estamos no poder público. Estar aqui nos lembra de onde viemos e qual é o nosso compromisso como gestoras e gestores públicos”, completou Patta Rache.
Leandro Anton, que participou de duas mesas do encontro como representante do governo federal, reforçou a importância de se regatar a história da PNCV nesses 21 anos de trajetória. “A gente tem que fortalecer a memória coletiva da rede. Manter e se apropriar dessa memória, não como algo parado no tempo, uma lei ou uma norma, mas sim como algo vivo. É importante ouvir pessoas”, afirmou.
As duas décadas do Cultura Viva também foram celebradas pelo coordenador do Sistema Estadual de Cultura, Rubem Oliveira. “A cultura brasileira era muito baseada no erudito, no que é consagrado, no europeu. Nós não tínhamos essa consciência dos nossos valores. Hoje, vi um grupo de pessoas chegando lindamente vestidas, mostrando quem são e por que estão aqui”, disse o representante da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac).
Saberes dos mestres
Mediador da mesa dedicada aos mestres e mestras, que deu início ao segundo dia de atividades, Ivan Terra começou levantando algumas questões comuns: Os pontos de cultura precisam ter mestres ou mestras da cultura popular? Precisam ter alguém que seja detentor de saberes e fazeres e que tenha a responsabilidade de passar esses saberes adiante? Mas, afinal de contas, como identificamos um mestre ou mestra? “Em princípio, é aquele ou aquela que sabe, que viveu, e que pode nos contar e nos iluminar com o seu conhecimento. Se nós tivermos, dentro do nosso território, esta gente que pode, de alguma forma, nos ensinar a viver para um mundo melhor, então nós temos uma mestra ou um mestre”, explicou.
Na sequência, a palavra foi dada à mestra Susana Kaingáng, do Instituto Inka e Ponto de Cultura Kanhgág Jãre, primeiro ponto situado em uma terra indígena a receber o reconhecimento do MinC (em 2005). “Nossos conhecimentos são repassados de geração a geração através da oralidade. E quem tem esse papel dentro das nossas culturas são os nossos mestres, os nossos anciões, os Kanhgág kófa. Isso é algo muito importante pra gente”, disse a pesquisadora indígena. “Existem saberes que estão assentados em uma cosmovisão de um povo, mas que a gente só vai entender quando sentar com um ancião. É preciso sentar e ouvir os nossos velhos. É fundamental a gente aprender a valorizar o saber dos nossos mestres”, afirmou.
Em sua intervenção, Susana também falou do importante papel dos acadêmicos indígenas, que hoje estão nas universidades registrando os próprios saberes. “Deveríamos falar não ‘universidade’, mas ‘pluriversidade’, porque ali estão os nossos saberes. E como pesquisadora indígena, eu diria que estamos cansados de sermos objetos de pesquisa. Nós somos sujeitos da nossa pesquisa. É uma forma de registro também. Claro que existe o sagrado, existem conhecimentos e saberes que não devem estar escritos nem ser divulgados, mas a universidade precisa reconhecer a nossa trajetória, nossa experiência, nossa tecnologia”.
Mãe Carmen de Oxalá, por sua vez, exaltou as mestras que vieram antes dela. “Eu me emociono porque elas não estão aqui presentes, mas estão espiritualmente. Agradeço profundamente esse compromisso com a ancestralidade que nós carregamos no sangue, na alma, na transmissão daquilo que a gente aprendeu sem inventar. Como não há nenhum lugar, nenhuma loja, nenhum dinheiro que compre tempo de vida, eu tenho o compromisso de transmitir aquilo que aprendi, da forma como aprendi com meus mestres e mestras”. Mãe Carmen representa a Associação Beneficente Cultural Africana Templo de Yemanjá (Assobecaty), primeiro terreiro a ser reconhecido como ponto de cultura pelo MinC e primeiro pontão de cultura de matriz africana no estado do Rio Grande do Sul