Em Libras
Escritor, pesquisador, doutorando, servidor público, preto, gay, nordestino, pobre e surdo. É com estas palavras que Erliandro Félix Silva, aluno de graduação do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), orgulhosamente se descreve. O orgulho é justificado, pois sua trajetória de sucesso se sobrepõe às estatísticas associadas aos grupos minoritários dos quais faz parte. Além das conquistas acadêmicas que vem acumulando, Erliandro foi nomeado, em janeiro, membro correspondente da Academia Taubateana de Letras (ATL), tornando-se o primeiro escritor surdo da instituição, aos 44 anos de idade.

- Foto: Arquivo pessoal
Autor dos livros infantis bilíngues “Alcembleia” (2022) e “Bule” (2018), Erliandro escreve em Língua Portuguesa e Língua Brasileira de Sinais (Libras). Sua paixão pela literatura foi o que o levou a entrar na ATL, um sonho realizado a partir de uma indicação de um professor da Universidade de Taubaté (Unitau). "Isso representa a valorização da língua de sinais, da cultura surda e da educação bilíngue para surdos, algo que é muito importante para minha identidade e trajetória", observa o escritor, em entrevista exclusiva para o portal do INES. Ele é categórico ao frisar que suas características, aquelas com as quais se descreve, influenciam diretamente seu trabalho e a forma de ver o mundo: "Elas estão presentes na minha pesquisa e nas minhas escolhas, me motivando a lutar contra a desigualdade social e pela justiça, pois acredito que só assim podemos alcançar a verdadeira equidade", ressalta.

- Foto: Arquivo pessoal
Doutorando em Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do ABC, em São Paulo, Erliandro é formado em Letras-Libras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e já fez diversos cursos no INES — entre eles, duas pós-graduações: em Interculturalidade e Descolonização na Educação de Surdos e em Língua Portuguesa para Surdos. Desde 2022, está matriculado no curso de licenciatura em Pedagogia Bilíngue do instituto, na modalidade a distância. Para o pesquisador, a formação e o corpo docente do Departamento de Ensino Superior do INES tiveram papel marcante na sua vida, tornando-o capaz de concluir dois mestrados, na Unitau e no Instituto Federal do Rio Grande do Sul. "O INES foi fundamental para o meu desenvolvimento. Sou eternamente grato a todas as pessoas que me apoiaram, que me ajudaram a voar mais alto", afirma ele, fazendo questão de destacar o apoio recebido por professoras como Osilene Cruz e Ana Regina Campello, que o ajudaram a compreender e a valorizar sua surdez, ensinando-o a lidar com ela e a encontrar formas de usar esta vivência "para contribuir para a educação de surdos e para a literatura surda".

- Foto: Arquivo pessoal
Os ofícios da escrita literária e da pesquisa se somam ao cargo de servidor técnico-administrativo no campus Ilha Solteira do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), onde desempenha a função de assistente de aluno. Erliandro se mudou para o município paulista por causa do trabalho, mas sua história começa em Eunápolis, cidade no sul da Bahia, em uma família humilde de pessoas ouvintes, com condições pouco propícias ao seu desenvolvimento. Aos 3 anos de idade, foi diagnosticado com surdez, após uma meningite, e só entrou na escola formal aos 20, sendo o único de seus cinco irmãos a se alfabetizar. "Por muitos anos, não tive a oportunidade de estudar, pois o sistema de educação não oferecia o direito às pessoas surdas e o governo não liberava nossos direitos linguísticos. Para ajudar minha mãe, precisei trabalhar na roça. Mesmo sem acesso à escola, sempre tive amigos surdos, com quem aprendi Libras", conta.
Não à toa, circular em ambientes escolares, acadêmicos e literários, hoje com desenvoltura própria e um currículo que muitos sequer almejam, tem um significado especial para Erliandro, que usa a língua de sinais desde os 6 anos: "Sempre sonhei em ser aluno e viver em um ambiente escolar onde a comunicação em Libras fosse a principal". Após o ingresso na ATL, o escritor pretende seguir produzindo obras bilíngues, continuando a se dedicar, também, às pesquisas acerca de temas como o letramento étnico-racial na educação de surdos e interseccionalidades, de forma a manter seu comprometimento pessoal com a promoção da diversidade, da inclusão e da transformação social.