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“Luz, Câmera e Prevenção”: workshop une arte e ciência no combate à sífilis
Workshop une ciência e arte para discutir estratégias de combate à sífilis
Com a exibição de “Cobaias”, longa dirigido por Joseph Sargent (1997), encerrou-se ontem (29), no Auditório Central do Centro Nacional de Primatas, o workshop “Luz, Câmera e Prevenção: estratégias educativas para sífilis”. O seminário esteve direcionado ao combate da doença e à divulgação do conhecimento científico, tudo através de palestras e da arte cinematográfica. Ele foi organizado por uma força conjunta de três seções do Instituto Evandro Chagas (IEC): Bacteriologia e Micologia (SEBAC), Ensino e Informação Científica (SEEIC) e Comunicação e Memória Institucional (SECMI), por meio do Museu do Instituto Evandro Chagas.
De acordo com a Dra. Daniela Soares, uma das idealizadoras do evento, a iniciativa nasceu da percepção de que se tem muito conhecimento e políticas de saúde voltados ao enfrentamento da sífilis. No entanto, ela continua frequente.
“Nossa missão institucional não é só produzir conhecimento, mas traduzi-lo e realizar divulgação científica para a sociedade”, diz.
A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST). Ela é curável e, sabendo que os estudos sobre ela precisam de maior divulgação, a Dra. Daniela pensou logo no Dr. Mauro, para dizer-lhe: “A gente precisa falar sobre sífilis. Já se fala muito sobre HIV, HPV, mas pouco se fala sobre a sífilis. É uma doença secular.”
Dr. Mauro é, de nome completo, Mauro Romero Leal Passos, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor do livro “Sífilis - Ou Mal Perpétuo”. A obra trata, entre outras coisas, da abordagem da IST através da representação na arte.
Trata-se de “um desdobramento de uma grande exposição que a gente fez no Paço Imperial (RJ)”, afirma DR. Mauro. “Mas exposição você desmonta e acabou. Então decidimos fazer um catálogo, pelo Ministério da Saúde. Mas tinha um pouco de limitação. Fomos aumentando e acabou virando um livro.”

- A organizadora do evento, Daniela Soares, dando as boas vindas aos participantes e palestrantes.

Olhares sobre a sífilis
As palestras, concentradas principalmente no primeiro dia (29), foram distribuídas em três mesas temáticas: “a sífilis como desafio para a saúde pública”, “mobilizando a sociedade” e “transformando a realidade”.
Essas três abordagens retratam a necessidade de um olhar global e contextualizado para a IST.
“Um bom cientista é sempre aquele que está com os olhos e ouvidos abertos e atentos ao que está acontecendo”, destaca, logo na abertura do seminário, a Dra. Lívia Martins, diretora do IEC.
Também com um olhar atento, a Dra. Charliana Damasceno, da Secretaria de Saúde Pública do Pará (SESPA), aponta o aumento no rastreio de diferentes formas de contágil da sífilis: a adquirida (por relação sexual ou contaminação sanguínea), a gestacional (diagnosticada na mãe durante a gravidez) e a congênita (transmitida da mãe para o bebê na gestação ou no parto).
Porém, para Damasceno, “não adianta apenas rastrear; é preciso tratar.” Para isso, ela destaca ainda a necessidade de duas frentes de atuação, já que “fazer ciência é uma coisa; juntar com a política para fazer acontecer é outra.”

- A diretora do IEC, Lívia Caricio,durante a abertura do evento.

O preconceito contra a sífilis
Assim que o Brasil se tornou república, foi adotado no país um ideal de progresso baseado na força do trabalho. Portanto, era preciso zelar pela saúde dos trabalhadores a fim de se manter uma mão de obra estável. Consequentemente, de acordo com a historiadora Dra. Luiza Amador, da Secretaria de Educação do Pará (SEDUC), esse momento ficou marcando por políticas sanitaristas.
A sífilis representava, nesse contexto, um “entrave para o progresso”, afirma.
Ainda segundo Amador, a infecção passou a ser associada a três fatores: sanitarismo e práticas de cura; degeneração e eugenia; e prostituição. Por extensão, ela estava ligada também à luxuria, à população mais pobre, aos maníacos, às taras.
As prostitutas, grandes culpabilizadas, eram chamadas de “vendedoras de sífilis”. Logo passaram a ser fichadas pela polícia. Aquelas que, após exame, conseguissem comprovar que não portavam a IST, eram habilitadas ao serviço. Eram as "prostitutas de carteirinha”.
Já entre as estratégias de eugenia (de purificação da raça), tinha-se “exames pré-nupciais, casamento entre pessoas sadias e controle de hábitos e comportamentos que pudessem degenerar a descendência’”, declara Amador.

- Mesa de debate,após a exibição do filme, composta pelo Dr. Mauro Romero, da UFF,do Prof. Luiz Fernando, responsável pelo Laboratório de Virologia da UFPA e as Dras. Joana Favacho (LABIST) e Danielle Murici,do Comitê de Ética em Pesquisa do IEC.
Racismo e cobaias humanas no Estudo de Tuskegee (EUA)
O segundo dia do evento (30) girou entorno ao filme “Cobaias”, de Joseph Sargent (1997). Sendo uma das obras indicadas no livro de Dr. Mauro, o drama retrata um experimento realizado pelo Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos na cidade de Tuskegee, de 1932 a 1972.
Nesse estudo, 399 homens negros com sífilis foram deixados sem tratamento. O objetivo era observar os efeitos da infecção em seres humanos não tratados.
Hoje, esse experimento é tido como um marco referencial para não se negligenciar diretrizes éticas de medicina e de estudos em seres humanos.
Após a exibição do longa no workshop, foi aberta uma mesa de debate, composta pelo Dr. Mauro Romero, da UFF, do Prof. Luiz Fernando, responsável pelo Laboratório de Virologia da UFPA e das Dras. Joana Favacho e Danielle Murici, ambas do Comitê de Ética em Pesquisa do IEC.
Para Elisandro Monteiro, mestrando em Biologia que assistiu aos dois dias do seminário, o cine-debate foi a atração de maior impacto. “Eu já tinha ouvido a história (de Tuskegee), no ensino médio, numa aula de geografia. Mas hoje, assistindo ao filme, a gente tem a percepção de como foi esse experimento”, declara.
Para o estudante, os dois dias do workshop se complementam, somando as perspectivas científicas, das palestras, com a artística, por meio do cinema. “Fico muito grato de ter participado. Foi um tempo muito produtivo para mim”, conclui.

- Participante observando a galeria de posters com filmes relacionados citados no livro "Sífilis ou mal perpétuo".

Convocação para próximas atividades
O workshop foi apenas uma das etapas do projeto de divulgação científica e conscientização desenvolvido pelo IEC. Também estão previstas rodas de conversas, oficinas e exposição no Museu do Instituto Evandro Chagas (MEV). As datas ainda serão definidas.
Para essas novas fases, o instituto convoca a participação de instituições, estudantes e demais interessados na promoção da arte e da divulgação da ciência. "Percebemos que o conhecimento científico sobre a sífilis avançou muito nas últimas décadas, mas esse avanço nem sempre se traduz em mudança de comportamento na população. Foi dessa constatação que nasceu o projeto. Queremos aproximar a ciência das pessoas, utilizando a arte, a história e a cultura como caminhos para promover educação em saúde e fortalecer a cidadania.", finaliza a Dra. Daniela Soares.
Interessados podem entrar em contato com a Seção de Bacteriologia e Micologia (sabmi@iec.gov.br / sebac@iec.gov.br) ou com o MEV (museu@iec.gov.br).