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No mês das mulheres, setor homenageia psiquiatra e cientista que é exemplo de protagonismo feminino na ciência brasileira
Seção de Manuscritos inaugura mostra sobre Nise da Silveira
Ana Lúcia Merege e Renata Linhares de Araújo, da Seção de Manuscritos da FBN
A Seção de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) – vinculada ao Ministério da Cultura (MinC) – inaugurou, na última segunda-feira, a mostra “Nise da Silveira: uma história de pioneirismo feminino”. No mês das mulheres, o setor homenageia psiquiatra e cientista que é exemplo de protagonismo feminino na ciência brasileira. A mostra fica em cartaz até junho, na Seção de Manuscritos, que fica no terceiro andar da Biblioteca Nacional. A entrada é franca, de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h30.
A mostra apresenta sete itens provenientes de três coleções: Coleção Nise da Silveira, Arquivo Arthur Ramos e Coleção Marco Lucchesi. O público encontra documentos que contam a trajetória de Nise e de outras mulheres, como D. Ivone Lara, que além de compositora foi enfermeira no campo da psiquiatria, e Alice Marques dos Santos, primeira mulher a dirigir um hospital psiquiátrico na América Latina. Entre os itens, encontra-se um manuscrito original de Nise e uma obra do artista Fernando Diniz, que foi seu paciente.
A curadoria da mostra é da estagiária da Seção de Manuscritos e doutoranda em História das Ciências e da Saúde, Renata Linhares de Araújo, com colaboração da bibliotecária e servidora da FBN, Ana Merege. Confira abaixo o artigo da curadora sobre Nise da Silveira:
Nise da Silveira - Uma História de Pioneirismo Feminino
(Renata Linhares de Araújo)
Psiquiatra e cientista, Nise Magalhães da Silveira (Alagoas, 1905 - Rio de Janeiro, 1999) é um exemplo do protagonismo feminino na História da Ciência. Em 1921, com apenas 15 anos, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, única mulher em uma turma com mais de 150 alunos. Formou-se em 1926, com a tese Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil, e em 1927 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde atuou no Hospital da Praia Vermelha. Em 1933, especializou-se em neurologia com Antônio Austregésilo.
Durante a Era Vargas, Nise foi presa sob acusação de comunismo e afastada do serviço público, retornando apenas em 1944. Em seguida, foi transferida para o Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no bairro do Engenho de Dentro (atual Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira). Ao retomar suas atividades profissionais, passou a questionar práticas violentas comuns na psiquiatria da época, como o eletrochoque, o coma insulínico e a lobotomia, defendendo um tratamento humanizado, libertário e afetivo. Por isso, foi considerada rebelde.
Em maio de 1946, fundou a Seção de Terapêutica Ocupacional (STO), desenvolvendo atividades voltadas à expressão e à produção artística inconsciente dos internos. Foi uma estudiosa que adentrou diferentes áreas do conhecimento e contribuiu significativamente para o campo dos saberes psi (psiquiatria, psicanálise e psicologia). Além disso, teve papel central na introdução e consolidação da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung no Brasil. Em 1954, criou em sua casa o Grupo de Estudos Carl Jung, que foi oficializado em 1968. Sua atuação ganhou reconhecimento internacional, e Nise viajou à Europa para estudar e participar de eventos científicos, entre 1957 e 1964.
A cientista criou instituições pioneiras que funcionam até hoje: o Museu de Imagens do Inconsciente (1952), a Casa das Palmeiras (1956) e a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, responsável por contribuir para a preservação, gestão e difusão de seu legado. Sua contribuição foi fundamental para a História da Ciência e da Saúde no Brasil, reafirmando a importância de reconhecer e valorizar a História das Mulheres. Seu arquivo pessoal, reconhecido pela UNESCO, e a Coleção Nise da Silveira, preservada na Fundação Biblioteca Nacional, constituem patrimônio cultural de grande relevância.