Notícias
Coleções da Seção de Manuscritos | Nise da Silveira
A coleção reúne documentos relacionados à trajetória da médica psiquiatra alagoana Nise Magalhães da Silveira (1905–1999), reconhecida por sua contribuição para o campo da saúde mental no Brasil.
Nise da Silveira nasceu em Maceió (AL), em 15 de fevereiro de 1905. Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1926, única mulher numa turma de mais de 60 estudantes. Ao longo de sua carreira, destacou-se por questionar métodos considerados agressivos no tratamento psiquiátrico, como a lobotomia e o eletrochoque, defendendo abordagens terapêuticas baseadas na valorização da criatividade, da afetividade e da livre expressão dos pacientes.
Em 1932, após alguns anos de estágio, Nise da Silveira foi nomeada para trabalhar na clínica de neurologia da Faculdade Nacional de Medicina do Brasil. No ano seguinte, concluiu sua especialização e passou num concurso que a levou a trabalhar como psiquiatra na antiga Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental. Foi presa duas vezes durante o governo Vargas, por ter trabalhado na ala médica reivindicadora da União Feminina Brasileira e por suspeita de comunismo. Casou-se, em 1940, com seu ex-colega de faculdade, Mário Magalhães da Silveira, com quem não teria filhos.
Ao retornar para o serviço público, em 1946, Nise foi trabalhar no Setor de Terapia Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II. Logo começou a promover mudanças, como a inclusão de oficinas de arte no setor. A primeira exposição de trabalhos dos pacientes ocorreu naquele mesmo ano, e em 1947 foi inaugurada a primeira mostra externa, no prédio do MEC, com curadoria do crítico de arte Mário Pedrosa.
Em 1952, Nise fundou, no Rio de Janeiro, o Museu de Imagens do Inconsciente, dedicado ao estudo das produções artísticas de pacientes psiquiátricos. Quatro anos depois, criou a Casa das Palmeiras, instituição voltada à reintegração social de ex-internos por meio de atividades expressivas e convivência terapêutica. Foi responsável pela introdução da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung no Brasil e criadora do Grupo de Estudos Carl Jung em 1954. Seu trabalho também a levou à Europa para estudos e participação em eventos científicos. Em 1974, fundou a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, criada para apoiar a preservação e a continuidade do museu e de seu legado.
Nise da Silveira publicou vários livros ao longo de sua carreira, entre os quais “Jung: vida e obra” (1968), Imagens do Inconsciente (1981), sua sequência “Mundo de Imagens” (1992) e “Cartas a Spinoza” (1995), além de artigos e documentários. Faleceu em 30 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro. Seu arquivo pessoal, atualmente sob a guarda da Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, recebeu reconhecimento do Programa Memória do Mundo da UNESCO, o que ressalta o valor histórico e documental desse acervo para a preservação da memória da ciência, da psiquiatria e da cultura no Brasil.
A Coleção Nise da Silveira na Divisão de Manuscritos foi doada em 2016 pela antropóloga e professora aposentada da UERJ, Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, amiga e colaboradora da médica, com anos de atuação na administração da Casa das Palmeiras. O conjunto é composto por 33 registros, entre fotografias, documentos pessoais, recortes de jornais e cópias de documentos que ajudam a compreender aspectos de sua vida e de sua atuação profissional, tais como os referentes à investigação e prisão de Nise. Há também fotografias em que Nise da Silveira aparece ao lado de outras mulheres, tais como Dona Ivone Lara – que, além de cantora e compositora, foi enfermeira e desempenhou um papel pioneiro na reforma psiquiátrica - e Alice Marques dos Santos, primeira mulher a dirigir um hospital psiquiátrico na América Latina.
A coleção pode ser consultada presencialmente na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional.
Ana Lúcia Merege e Renata Linhares de Araújo
(Divisão de Manuscritos)