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Pesquisador do LNCC analisa como a inteligência artificial de hoje é moldada pelos debates do passado
O matemático Alan Turing e o físico Douglas Hartree disputaram no pós-guerra a possibilidade da inteligência de máquina, conforme contou Bernardo Gonçalves (LNCC/MCTI) em entrevista para a BBC Brasil. Imagem: Sotheby’s via CNN Newsource
Recentemente, Bernardo Gonçalves, pesquisador do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC/MCTI) foi entrevistado pela BBC News Brasil em uma reportagem especial dedicada à história da inteligência artificial (IA) e aos dilemas que acompanham o campo desde sua origem. A entrevista foi republicada por veículos da imprensa nacional como G1, Folha de São Paulo, Época Negócios, Exame, Correio Braziliense, entre outros.
Na reportagem, Gonçalves resgata debates históricos que ajudam a contextualizar fenômenos atuais, como o uso de chatbots, a exemplo do ChatGPT, Gemini ou Claude, para fins de terapia, apoio emocional ou companhia. Segundo o pesquisador, embora essas práticas pareçam típicas do século 21, questões semelhantes já estavam presentes desde os anos 1950, quando a inteligência artificial começou a se consolidar como campo científico.
Entre os temas abordados estão o medo da substituição do trabalho humano por máquinas, a tendência de atribuir características humanas às tecnologias, o apego emocional desenvolvido por usuários e o ciclo recorrente de promessas ambiciosas que nem sempre se concretizam. Para Gonçalves, o principal diferencial do cenário atual está na escala dos investimentos e no poder político e econômico das empresas envolvidas no desenvolvimento dessas tecnologias.
A reportagem relembra episódios históricos como a criação do Eliza, considerado o primeiro chatbot a ganhar notoriedade mundial, desenvolvido na década de 1960 por Joseph Weizenbaum. Programado para simular diálogos terapêuticos, o sistema evidenciou desde cedo a facilidade com que humanos projetam emoções e intenções em máquinas. O próprio Weizenbaum alertou para os riscos de substituir relações humanas por interações automatizadas, uma preocupação que permanece bastante atual.
Outro ponto central é o debate inaugurado por Alan Turing, em 1950, ao questionar se máquinas poderiam pensar. Gonçalves destaca que, desde então, diversos cientistas criticam o uso de metáforas humanas para descrever o funcionamento de computadores, argumentando que isso pode gerar confusões conceituais e sociais. Essas discussões, segundo ele, estão diretamente ligadas a relações de poder e aos impactos da automação sobre o trabalho e a organização social.
“O histórico da computação mostra que essas tecnologias sempre tiveram efeitos sociais concretos”, observa Gonçalves, lembrando que, nas décadas de 1940 e 1950, o termo “computador” ainda designava pessoas, em especial mulheres, que realizavam cálculos complexos.
Ao traçar paralelos entre o passado e o presente, o pesquisador também comenta o chamado “inverno da IA”, ocorrido nos anos 1970, quando expectativas exageradas levaram à frustração e à redução de investimentos. Para ele, embora o debate atual esteja marcado por polarizações extremas, a área continua avançando, impulsionada por recursos econômicos significativos e por aplicações concretas que impactam a vida social e econômica.
Gonçalves se prepara para ministrar o curso "GA-035 – Inteligência Artificial", de março a junho de 2026, na sede do LNCC. O curso é voltado para estudantes inscritos no Programa de Pós-Graduação em Modelagem Computacional do LNCC e pretende discutir com o(a)s estudantes o que é a IA, bem como expor seus conceitos e fundamentos básicos, os problemas, ideias e técnicas matemáticas e computacionais que a constituíram historicamente como disciplina de ciência e engenharia, os fracassos e sucessos de sistemas paradigmáticos, e tendências futuras.
Saiba mais:
Programa de Pós-Graduação em Modelagem Computacional do LNCC: https://posgrad.lncc.br/
Notas BBC e Folha:
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn76p0jjxz7o
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