Versão para profissionais de saúde
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Prevenção e fatores de risco
Além dos fatores de risco clássicos (higiene inadequada, fimose e inflamação crônica), destaca-se a infecção persistente pelos subtipos oncogênicos do HPV, especialmente HPV-16 e HPV-18, reconhecidos pela IARC como carcinógenos para humanos. Em determinados contextos laborais, especialmente entre profissionais do sexo, o risco de infecção e reinfecção por HPV é elevado devido ao contato repetido, múltiplos parceiros e, muitas vezes, barreiras sociais que dificultam a adoção de medidas de proteção. A coinfecção pelo HIV, também classificada como carcinógeno pela IARC, associado ao câncer de pênis, intensifica esse risco, além de comprometer a imunidade, aumentando a persistência viral e a progressão para lesões malignas. Nesses cenários, o câncer de pênis pode ser considerado um câncer que possui relação com o trabalho (CRT), dado o papel da exposição ocupacional contribuindo para o desenvolvimento dessa neoplasia (IARC, 2025; OTERO et al, 2025; ms, 2024).
A atuação da equipe de saúde é essencial na prevenção primária e secundária. Entre as medidas recomendadas incluem-se: vacinação contra HPV para todas as pessoas elegíveis, orientação sobre uso regular de preservativos, e vigilância de grupos ocupacionais vulneráveis, como trabalhadores do sexo. Além disso, é fundamental fortalecer ações de educação em saúde e reduzir barreiras de acesso aos serviços, garantindo que populações expostas recebam acompanhamento contínuo, orientação específica e intervenções preventivas baseadas em risco.
REFERÊNCIAS
IARC. List of classifications by cancer sites with sufficient or limited evidence in humans, IARC Monographs Volumes 1–140a. International Agency for Research on Cancer, 2025. Disponível em: < https://monographs.iarc.who.int/wp-content/uploads/2019/07/Classifications_by_cancer_site.pdf>. Acesso em: 21 nov. 2025
MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR). Portaria GM/MS nº 5.674, de 1º de novembro de 2024.Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017, e atualiza a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (LDRT). Diário Oficial União. 5 nov 2024.
OTERO, U. B; NOGUEIRA, F. A.M; MADEIRA, C. S. P; JUNIOR, J.S.S; BANDINO, M. Câncer relacionado ao trabalho: relato de experiência do Instituto Nacional do Câncer na atualização da Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho do Ministério da Saúde no Brasil. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, [s. l.], vol. 50, p. edoc1, 2025.
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Detecção precoce
As estratégias para a detecção precoce do câncer são o diagnóstico precoce (abordagem de pessoas com sinais e/ou sintomas iniciais da doença) e o rastreamento (aplicação de teste ou exame numa população assintomática, aparentemente saudável, com o objetivo de identificar lesões sugestivas de pré-cancer e câncer e, a partir daí encaminhamento dos pacientes com resultados alterados para investigação diagnóstica e tratamento) (WHO, 2007)
Rastreamento
O rastreamento do câncer é uma estratégia dirigida a um grupo populacional específico no qual o balanço entre benefícios e riscos dessa prática é mais favorável, com maior impacto na redução da mortalidade e da incidência, nos casos de existência de lesões precursoras. . Os benefícios são o melhor prognóstico da doença, com tratamento mais efetivo e menor morbidade associada. Os riscos ou malefícios incluem os resultados falso-positivos, que geram ansiedade e excesso de exames; os resultados falso-negativos, que resultam em falsa tranquilidade para o paciente; o sobrediagnóstico e o sobretratamento, relacionados à identificação de tumores de comportamento indolente (diagnosticados e tratados sem que representem uma ameaça à vida) (BRASIL, 2010; INCA, 2021).
Não há evidência científica de que o rastreamento do câncer de pênis traga mais benefícios do que riscos e, portanto, até o momento, ele não é recomendado (NCCN, 2023 NCI, 2023).
Diagnóstico Precoce
A estratégia de diagnóstico precoce contribui para a redução do estágio de apresentação do câncer (WHO, 2017). Nessa estratégia, destaca-se a importância de ter a população e os profissionais aptos para o reconhecimento dos sinais e sintomas suspeitos de câncer, bem como o acesso rápido e facilitado aos serviços de saúde.
O diagnóstico precoce do câncer de pênis deve ser buscado por meio da investigação dos seguintes sinais e sintomas mais comuns (NICE, 2015; NCI, 2023):
- Tumor ou úlcera no pênis na ausência de doença sexualmente transmissível ou persistente após seu tratamento.
- Espessamento ou mudança na cor da pele do pênis ou prepúcio.
Referências:
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento. Cadernos de Atenção Primária, n. 29 Brasília: Ministério da Saúde, 2010. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno_atencao_primaria_29_rastreamento.pdf
NATIONAL CANCER INSTITUTE (NCI). Penile Cancer Treatment – Health Professional Version. Updated: June 2, 2023. Disponível em: https://www.cancer.gov/types/penile/hp. Acesso em: 07 Jul 2023.
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. NICE Guideline Suspected cancer: recognition and referral. Published: 23 June 2015. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng12/resources/suspected-cancer-recognition-and-referral-pdf-1837268071621. Acesso em: 07 Jul 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Early detection. Geneva: WHO, 2007. (Cancer control: knowledge into action: WHO guide for effective programmes, module 3). Disponível em: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/43743/9241547338_eng.pd.... Acesso em: 15 jun. 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guide to cancer early diagnosis. World Health Organization, 2017. Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/254500.
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA. Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2021. Disponível em: https://antigo.inca.gov.br/publicacoes/livros/deteccao-precoce-do-cancer. Acesso em: 07 jul. 2023.
NATIONAL COMPREHENSIVE CANCER NETWORK (NCCN). Practice Guidelines in Oncology: Penile Cancer. Version 1.2023. Accessed at https://www.nccn.org/professionals/physician_gls/pdf/penile.pdf. Acesso em: 07 jul. 2023.
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Sinais e sintomas
A manifestação clínica mais comum do câncer de pênis é uma ferida ou úlcera persistente, ou também uma tumoração localizada na glande, prepúcio ou corpo do pênis. A presença de um desses sinais, associados a uma secreção branca (esmegma), pode ser um indicativo de
câncer no pênis.Algumas dessas lesões podem estar escondidas debaixo do prepúcio, quando o paciente não consegue expor a glande devido a fimose. E outra situação que deve levar à suspeição de câncer é a presença de ferida inicialmente diagnosticada como infecção sexualmente transmissível porém sem melhora após o tratamento.
Além da tumoração no pênis, a presença de linfonodomegalias inguinais, pode ser sinal de progressão da doença (metástase).
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Diagnóstico
O diagnóstico é feito, basicamente, pela biópsia incisional de qualquer lesão peniana suspeita para se diferenciar as lesões malignas (bem como seus subtipos) das lesões pré-cancerosas e das benignas.
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Tratamento
O tratamento consiste basicamente na exérese da lesão primária peniana (penectomia parcial ou total) associada à linfadenectomia inguinal bilateral com intenção curativa. A cura é possível até mesmo nos casos de metástase inguinal. Não existem protocolos claramente benéficos de radioterapia e quimioterapia, mas podem ser utilizados em casos de recidiva ou para paliação em casos considerados não cirúrgicos.
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Classificação e estadiamento
Classificação Clínica:
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T – Tumor Primário
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TX – tumor primário não pode ser avaliado
T0 – sem evidência de tumor primário
Tis - Carcinoma in situ (Neoplasia Intraepitelial Peniana – PeIN)
Ta - Carcinoma verrucoso não invasivo*
T1 - Tumor invade tecido conjuntivo subepitelial
T1a - Tumor invade tecido conjuntivo subepitelial sem invasão linfovascular ou invasão
perineural e não é pouco diferenciado
T1b - Tumor invade tecido conjuntivo subepitelial com invasão linfovascular ou invasão
perineural ou é pouco diferenciado
T2 - Tumor invade o corpo esponjoso com ou sem invasão da uretra
T3 - Tumor invade corpo cavernoso com ou sem invasão da uretra
T4 - Tumor invade outras estruturas adjacentes
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N - Linfonodos Regionais
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cNx - Os gânglios linfáticos regionais não podem ser avaliados
cN0 - Sem linfonodos inguinais palpáveis ou visivelmente aumentados
cN1 - Linfonodo inguinal unilateral móvel palpável
cN2 - Linfonodos inguinais múltiplos ou bilaterais móveis palpáveis
cN3 - Massa nodal inguinal fixa ou linfadenopatia pélvica, unilateral ou bilateral
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M - Metástase à Distância
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cM0 - Sem metástase distante
cM1 - Metástase à distância
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Classificação Patológica
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As categorias pT correspondem às categorias T clínicas.
As categorias pN são baseadas em biópsia ou excisão cirúrgica
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pN - Linfonodos Regionais
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pNx - Os gânglios linfáticos regionais não podem ser avaliados
pN0 - Sem metástase linfonodal regional
pN1 - Metástase em um ou dois linfonodos inguinais
pN2 - Metástase em mais de dois linfonodos inguinais unilaterais ou linfonodos inguinais
bilateraispN3 - Metástase em linfonodo(s) pélvico(s), extensão unilateral ou bilateral ou extranodal de
metástase em linfonodo regional
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pM - Metástase à Distância
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pM1 - Metástase à distância confirmada microscopicamente
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G - Graduação Histopatológica
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GX - O grau de diferenciação não pode ser avaliado
G1 - Bem diferenciada
G2 - Moderadamente diferenciado
G3 - Pouco diferenciado
G4 – indiferenciado
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*inclui carcinoma verrucoso
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Fonte: UICC/AJCC 8ª edição TNM classificação clínica e patológica do câncer de pênisGrupos de estágio/prognóstico UICC TNM:
Estágio
T
N
M
0
I
IIA
IIB
IIIA
IIIB
IV
Tis
Ta
T1a
T1b
T2
T3
T1-3
T1-3
T4
Qualquer T
Qualquer T
N0
N0
N0
N0
N0
N0
N1
N2
Qualquer N
N3
Qualquer N
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M1
Fonte: UICC/AJCC 8ª edição TNM classificação clínica e patológica do câncer de pênis
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Acompanhamento após tratamento
O acompanhamento irá depender a modalidade de tratamento primário. Entretanto, de uma maneira geral pacientes com lesões submetidas a tratamento local com linfonodos negativos deverão ser submetidos a exame físico do Pênis e das regiões inguinais, pensando em uma possível recidiva local / regional. Este exame físico deverá acontecer a cada 3 meses nos primeiros 2 anos. Após este período semestralmente até completar 5 anos. Nestes casos, exames de imagem adicionais não tem benefício comprovado. A biópsia deve ser realizada para avaliar estado livre de doença naqueles submetidos a tratamento com laser ou quimioterapia tópica.
Aqueles pacientes com lesões penianas e linfonodos inguinais metastáticos que foram submetidos a linfadenectomia com intenção curativa deverão ser acompanhados com tomografia computadorizada ou Ressonância Nuclear Magnética de tórax, abdome e pelve a cada 3 meses por dois anos. Após este período, estes exames de imagem devem ser realizados a cada 6 meses por mais 3 anos, completando assim um total de 5 anos de acompanhamento após o tratamento inicial.
Referências:
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento. Cadernos de Atenção Primária, n. 29 Brasília: Ministério da Saúde, 2010. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno_atencao_primaria_29_rastreamento.pdf
NATIONAL HEALTH SERVICE. Penile Cancer Treatment –Health Professional Version. Disponível em:https://www.cancer.gov/types/penile/hp/penile-treatment-pdq. Acesso em: 02 junho 2023.
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. NICE Guideline Suspected cancer: recognition and referral. Published: 23 June 2015. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng12/resources/suspected-cancer-recognition-and-referral-pdf-1837268071621. Acesso em: 17 Ago 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Early detection. Geneva: WHO, 2007. (Cancer control: knowledge into action: WHO guide for effective programmes, module 3). Disponível em: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/43743/9241547338_eng.pd.... Acesso em: 15 jun. 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guide to cancer early diagnosis. World Health Organization, 2017. Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/254500
EAU-ASCO Collaborative Guidelines on Penile Cancer 2023. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/penile-cancer/chapter/introduction
ATLAS ON-LINE DE MORATLIDADE. Última ano disponível para consulta foi 2020. Disponível em: https://www.inca.gov.br/MortalidadeWeb/pages/Modelo01/consultar.xhtml;jsessionid=514B7EF26E292B5D3C6564EFE605DA66#panelResultado
SAÚDE AMPLIA VACINAÇÃO CONTRA MENINGITE E HPV; ENTENDA O QUE MUDA. Publicado no site do geverno federal em 13 setembro 2022. Disponível em: https://www.gov.br/pt-br/noticias/saude-e-vigilancia-sanitaria/2022/09/saude-amplia-vacinacao-contra-meningite-e-hpv-entenda-o-que-muda
PENILE CANCER. A BRAZILIAN CONSENSUS STATEMENT FOR LOW- AND MIDDLE-INCOME COUNTRIES. Publicado em 26 Outubro 2020. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00432-020-03417-1
MS/SVS/DASIS/CGIAE/Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM. Disponível em: https://svs.aids.gov.br/daent/cgiae/sim/
MP/Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/
Brierley, J., et al., TNM Classification of Malignant Tumours, 8th Edn. 2016.
https://www.uicc.org/resources/tnm-classification-malignant-tumours-8th-editionAmin, MB, e outros. Manual de Estadiamento do Câncer da Oitava Edição do AJCC: Continuando a construir uma ponte de uma abordagem baseada na população para uma abordagem mais “personalizada” para o estadiamento do câncer. CA Cancer J Clin, 2017. 67: 93.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28094848/
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Prevenção e fatores de risco