Versão para profissionais de saúde
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Prevenção e Fatores de Risco
- O fumo e as bebidas alcoólicas são os principais fatores de risco.
- Excesso de gordura corporal (sobrepeso e obesidade) aumenta o risco de câncer de laringe.
- Infecção pelo vírus HPV
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A exposição a agentes carcinogênicos presentes no ambiente de trabalho, também podem contribuir para aumento do risco de câncer de laringe.
- Estresse e mau uso da voz também são prejudiciais.
Em relação ao mecanismo que explica a relação entre álcool e câncer de laringe, as evidências mostram que o acetaldeído, principal e mais tóxico metabólito do álcool, interrompe a síntese e o reparo do DNA e, portanto, pode favorecer a carcinogênese. Além disso, maior exposição ao etanol induz o estresse oxidativo por meio do aumento da produção de oxigênio com potencial reativo e genotóxico. Sugere-se, ainda, que o álcool possa funcionar como solvente, favorecendo a penetração celular de carcinógenos dietéticos ou ambientais (por exemplo, o tabaco) ou interferindo nos mecanismos de reparo do DNA. Pessoas que consomem altas quantidades de bebidas alcoólicas também podem ter dietas carentes de nutrientes essenciais, como o folato, tornando os tecidos-alvo mais suscetíveis aos efeitos carcinogênicos do álcool.
O excesso de gordura corporal é definido pelo IMC, circunferência de cintura e relação cintura/quadril elevados. Os mecanismos específicos para descrever sua relação com maior risco de câncer de laringe ainda não são esclarecidos. No entanto, o excesso de gordura corporal está associado a alterações metabólicas e endócrinas, como hiperinsulinemia e níveis elevados de estrogênio. A insulina e o estrogênio estimulam a multiplicação celular e inibem a apoptose, levando à proliferação celular anormal. Além disso, a obesidade também estimula a resposta inflamatória, favorecendo a carcinogênese.
A associação do vírus HPV vem sendo descrita com os tumores de hipofaringe, mas em menor proporção quando comparado aos tumores de orofaringe.
No caso do câncer de laringe, embora o papel do HPV-16 e 18 seja menos consistente, agentes classificados pela IARC como de evidência limitada em humanos, a exposição ocupacional ao vírus merece atenção. Sobretudo entre profissionais do sexo, que apresentam maior risco de infecção persistente devido ao contato repetido com partículas virais e microlesões epiteliais. Além dessa exposição biológica, há a exposição a agentes como betumes, sobretudo em serviços de impermeabilização e cobertura, nos quais a liberação de aerossóis contendo hidrocarbonetos policíclicos aromáticos é frequente, na indústria da borracha, onde trabalhadores podem ser expostos a uma combinação de compostos e poeiras químicas, implicados na carcinogênese laríngea. Dentre os carcinógenos ocupacionais já classificados no Grupo 1 da IARC, que contribuem para o risco de câncer de laringe, destacam-se: as névoas ácidas inorgânicas fortes, presentes em atividades metalúrgicas e de galvanoplastia, e o asbesto, ainda encontrado em demolições, reformas e em processos industriais que utilizam materiais antigos (IARC, 2025). Essas exposições reforçam a importância da vigilância em saúde ocupacional e da adoção de medidas de prevenção voltadas a grupos profissionais mais vulneráveis, incluindo aqueles expostos ocupacionalmente ao HPV.
REFERÊNCIAS
IARC. List of classifications by cancer sites with sufficient or limited evidence in humans, IARC Monographs Volumes 1–140a. International Agency for Research on Cancer, 2025. Disponível em: < https://monographs.iarc.who.int/wp-content/uploads/2019/07/Classifications_by_cancer_site.pdf>. Acesso em: 21 nov. 2025
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Sinais e sintomas
Os sintomas variam de acordo com o local acometido pelo tumor, ou seja, tumores da região supraglótica se apresentam com disfagia, odinofagia e muitas vezes linfonodomegalias cervicais.
Já os tumores da glote se apresentam com disfonia, sendo diagnosticados mais precocemente e em estágios iniciais. Os tumores subglóticos apresentam sintomatologia em estágio avançado quando invadem a glote, supraglote ou estruturas adjacentes.
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Detecção precoce
As estratégias para a detecção precoce do câncer são o diagnóstico precoce (abordagem de pessoas com sinais e/ou sintomas iniciais da doença) e o rastreamento (aplicação de exames numa população assintomática, aparentemente saudável), com o objetivo de identificar lesões sugestivas de câncer, e, dessa forma, encaminhar os pacientes com resultados alterados para investigação diagnóstica e tratamento (WHO, 2007).
Diagnóstico Precoce
A estratégia de diagnóstico precoce contribui para a redução do estágio de apresentação do câncer (WHO, 2017). Nessa estratégia, destaca-se a importância de a população e os profissionais estarem aptos para o reconhecimento dos sinais e sintomas suspeitos de câncer, bem como haver acesso rápido e facilitado aos serviços de saúde.
Rastreamento
O rastreamento do câncer é uma estratégia dirigida a um grupo populacional específico em que o balanço entre benefícios e riscos dessa prática é mais favorável, com maior impacto na redução da mortalidade. Os benefícios são o melhor prognóstico da doença, com tratamento mais efetivo e menor morbidade associada. Os riscos ou malefícios incluem os resultados falso-positivos, que geram ansiedade e excesso de exames; os resultados falso-negativos, que resultam em falsa tranquilidade para o paciente; o sobrediagnóstico e o sobretratamento, relacionados à identificação de tumores de comportamento indolente (diagnosticados e tratados sem que representem uma ameaça à vida) e os possíveis riscos do teste elegível (Brasil, 2010).
Não há evidência científica de que o rastreamento do câncer de laringe traga mais benefícios do que riscos e, portanto, ele não é atualmente recomendado (WHO, 2007; NCI, 2021).
Já o diagnóstico precoce desse tipo de câncer deve ser buscado por meio da investigação dos sinais e sintomas mais comuns (NICE, 2021).
Os sintomas estão diretamente ligados à localização da lesão. Assim, a dor de garganta sugere tumor supraglótico, e rouquidão indica tumor glótico ou subglótico. O câncer supraglótico geralmente é acompanhado de outros sinais, como alteração na qualidade da voz, disfagia leve (dificuldade de engolir) e sensação de "caroço" na garganta. Nas lesões avançadas das cordas vocais, além da rouquidão, podem ocorrer dor na garganta, disfagia e dispneia.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento. Cadernos de Atenção Primária, n. 29. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno_atencao_primaria_29_rastreamento.pdf. Acesso em: 25 jul. 2023.
NATIONAL CANCER INSTITUTE (NCI). Cancer types. Disponível em: https://www.cancer.gov/types Acesso em: 18 ago. 2023.
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Guideline Suspected cancer: recognition and referral. Published: 23 June 2015. Last updated: 29 January 2021 Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng12 Acesso em: 17 ago. 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Early detection. Cancer control: knowledge into action: WHO guide for effective programmes, module 3. Geneva: WHO, 2007. Disponível em: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/43743/9241547338_eng.pdf?sequence=1. Acesso em: 25 jul. 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guide to cancer early diagnosis. Geneva: WHO; 2017. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241511940. Acesso em: 25 jul. 2023.
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Diagnóstico
O diagnóstico é feito por meio do exame clínico com a laringoscopia, que pode ser direta e indireta (espelho de Garcia, laringoscópio rígido ou flexível).
Caso seja visualizada alguma lesão suspeita e seja possível a biópsia, esta deve ser feita, pois o diagnóstico precoce contribui para um melhor resultado oncológico. Caso não seja possível a realização da biópsia durante a laringoscopia, o paciente deve ser encaminhado para um centro onde a biópsia será feita sob anestesia geral e demais condições necessárias.
A tomografia computadorizada da laringe traz informações importantes quanto à extensão das estruturas comprometidas, bem como auxilia no diagnóstico diferencial com lesões benignas.
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Classificação e estadiamento
O estadiamento desses tumores é realizado de acordo com o subsítio anatômico (supralgote, glote e subglote) de acordo com a 8º edição do TNM da AJCC.
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Tratamento
O tratamento do câncer de laringe depende do estágio da doença e também das condições clínicas do paciente. Normalmente em estágios mais iniciais pode ser empregada a radioterapia localizada ou cirurgias menores (endoscópicas e cirurgias parciais). Em estágios mais avançados, dependendo da extensão dos tumores, alguns protocolos de quimioterapia e radioterapia têm indicação, com resultados satisfatórios do ponto de vista oncológico e funcional. Porém, para tumores mais avançados a laringectomia total associada à radioterapia ainda é o tratamento de escolha com melhor resultado oncológico, mesmo diante de sequelas funcionais, como a perda da voz laríngea e da presença do traqueostoma definitivo. Nesses casos, existe a possibilidade da reabilitação desses pacientes (voz esofágica, eletrolaringe ou com próteses traqueo-esofágicas). Mas para alcançar bons resultados oncológicos e funcionais é importante que o paciente seja avaliado por um profissional especializado e que tenha oportunidade de fazer seu tratamento em um centro com equipe multidisciplinar.
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Acompanhamento pós-tratamento
Após o tratamento esses pacientes devem ser acompanhados no consultório onde será feito o exame clínico e poderão ser solicitados exames complementares. No primeiro ano pós-tratamento o controle será trimestral, passando a quadrimestral no 2º ano, semestral no 3º e anual no 4º. Após 5 anos sem evidência de doença o paciente receberá alta do controle ambulatorial.
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Prevenção e Fatores de Risco