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Versão para profissionais de saúde

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Publicado em 05/06/2022 01h24 Atualizado em 07/07/2023 10h17
    • Prevenção e Fatores de Risco

      No caso dos tumores primários do fígado, a prevenção está em evitar o contágio pelos vírus das hepatites B e C, além de doenças metabólicas, como a esteatose (acúmulo de gordura no fígado) e diabetes; consumo de álcool; uso de esteroides anabolizantes; lesões pré-malignas (como os adenomas, muitos relacionados ao uso de anticoncepcionais orais); obesidade e exposição a alimentos que contenham aflatoxina, substância produzida por dois tipos de fungos (bolores) encontrados em alguns vegetais especialmente amendoim, milho e mandioca, se armazenados em condições inadequadas.

      Dentre os fatores de risco mais importantes para o hepatocarcinoma, destaca-se o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, caracterizado pela ingestão de acima de 45 gramas por dia de álcool (cerca de três doses de bebida por dia). O consumo excessivo de álcool é uma conhecida causa de cirrose, assim como um reconhecido agente cancerígeno para diferentes tipos de tumor. Seu consumo crônico leva a danos hepáticos agudos significativos, resultando em fibrose hepática, com possível evolução para cirrose. A maioria dos casos de câncer de fígado tem a cirrose como doença de base, e o efeito do álcool no câncer de fígado provavelmente é mediado pela cirrose como um estado intermediário.

      Outro importante fator de risco é o excesso de gordura corporal (sobrepeso e obesidade). A gordura corporal afeta diretamente os níveis de hormônios circulantes, como a insulina, os fatores de crescimento e o estrogênio, criando um ambiente favorável à carcinogênese e inibidor da apoptose. Além disso, o excesso de gordura corporal estimula a resposta inflamatória que contribui para a iniciação e progressão de vários tipos de câncer. Além disso, o o excesso de gordura corporal é um fator de risco para a esteatose hepática não alcoólica, condição que pode evoluir para cirrose e, portanto, risco aumentado de desenvolver câncer de fígado. Acredita-se que a inflamação sistêmica de baixo grau associada à obesidade contribua para a desregulação metabólica (resistência à insulina periférica e hepática) e a progressão da doença hepática gordurosa não alcoólica para a esteatose hepática não alcoólica, fibrose e, finalmente, carcinoma hepatocelular. Por fim, o excesso de gordura corporal está fortemente associado ao desenvolvimento de diabetes tipo 2, que por si só está associado ao aumento do risco de carcinoma hepatocelular.

      O tabagismo e a poluição ambiental da fumaça do tabaco são fatores desencadeantes para o câncer de fígado.

      São também fatores de risco ao desenvolvimento de câncer de fígado a exposição de profissionais de assistência à saúde e de serviços gerais em estabelecimentos assistenciais de saúde a instrumentos perfurocortantes contaminados por vírus da hepatite B (HBV) e C (HCV). Já profissionais operadores em indústria química, mecânicos de veículos a motor, agricultura e de indústria de plásticos estão mais expostos a arsênio, cloreto de vinila, solventes, fumos de solda, radiação ionizante e bifenil policlorado, agentes também considerados carcinogênicos para este tipo de câncer.

      Fatores de proteção

      Resultados de estudos epidemiológicos apontam o café com tendo provável forte efeito protetor contra o desenvolvimento de câncer de fígado. Entretanto, nenhum limiar de consumo foi identificado, da mesma forma que não são conhecidos os componentes específicos do café que teriam o potencial de diminuir o risco de câncer de fígado. Por isso, não há recomendação de volume de consumo dessa bebida para prevenção de câncer.

      No contexto ocupacional

      De acordo com a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC, 2025), o câncer de fígado está associado a diversos agentes carcinogênicos classificados nos Grupos 1 e 2, muitos deles relacionados a atividades laborais específicas. Entre esses agentes destacam-se: as aflatoxinas; o consumo de bebidas alcoólicas; os vírus das hepatites B, C e D (associados principalmente ao carcinoma hepatocelular); a exposição ao plutônio; a exposição ao tório-232 e a seus produtos de decaimento; a exposição ao cloreto de vinila; ao arsênio e ao arsênio inorgânico; ao DDT (4,4′-diclorodifeniltricloroetano); ao tricloroetileno; bem como a exposição à radiação ionizante do tipo raios X e gama. Também estão incluídas a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana tipo 1 (HIV-1).

      No que se refere à prevenção é fundamental a adoção de medidas que reduzam ou evitem a exposição a esses agentes. O uso correto e contínuo de equipamentos de proteção individual, como luvas, máscaras, aventais e óculos de proteção, é especialmente importante em atividades que envolvem produtos químicos, agrotóxicos e radiações. No caso das exposições a agentes biológicas, como aos vírus das hepatites e ao HIV, destacam-se como medidas essenciais a vacinação contra a hepatite B, o uso de materiais descartáveis, a adoção de práticas seguras no manuseio de instrumentos perfurocortantes e o cumprimento rigoroso dos protocolos de biossegurança.

      Referências

      DROPE, J. et al. The Tobacco Atlas. Atlanta: American Cancer Society and Vital Strategies, 2018.

      IARC. List of classifications by cancer sites with sufficient or limited evidence in humans, IARC Monographs Volumes 1–138. [S. l.]: International Agency for Research on Cancer, 2025. Disponível em: https://monographs.iarc.who.int/wp- content/uploads/2019/07/Classifications_by_cancer_site.pdf. Acesso em: 22 jun. 2025.

      MINISTÉRIO DA SAÚDE. Vacinação: Hepatite. Brasilia, 2025. Acessado em: 12 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hepatites-virais/hepatite b#:~:text=alafenamida%20(TAF).-,Preven%C3%A7%C3%A3o,o%20Disque%20Sa%C3%BAde%20(136).

      Ministério da Saúde (BR). Portaria GM/MS nº 5.674, de 1º de novembro de 2024. Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017, e atualiza a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (LDRT). Diário Oficial União. 5 nov 2024.

      BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Portaria n. 485, de 11 de abril de 2005. Aprova a Norma Regulamentadora n. 32 (Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de Saúde). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 12 abr. 2005.

      OTERO, Ubirani Barros et al. Câncer relacionado ao trabalho: relato de experiência do Instituto Nacional do Câncer na atualização da Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho do Ministério da Saúde no Brasil. Revista Brasileira de Saúde

    • Sinais e sintomas

      Dor abdominal, massa abdominal, distensão abdominal, perda de peso inexplicada, perda de apetite, mal-estar, icterícia (tonalidade amarelada na pele e nos olhos) e ascite (acúmulo de líquido no abdômen) são os principais sinais e sintomas do câncer de fígado.

      Alguns pacientes portadores de adenomas ou hepatocarcinomas poderão evoluir para ruptura espontânea do tumor, caracterizada por dor súbita e de forte intensidade no hipocôndrio direito, seguida de choque hipovolêmico por sangramento intra-abdominal.

      A maioria dos pacientes apresenta anormalidade dos níveis das bilirrubinas, fosfatase alcalina e transaminases.

      Em pacientes com cirrose, o aumento brusco da fosfatase alcalina, seguida de pequena elevação das bilirrubinas e transaminases, sugere malignidade. A alfafetoproteína sérica, um marcador tumoral, se apresenta elevada em 75% a 90% dos pacientes com carcinoma hepatocelular. O tipo fibrolamelar não está associado a altos níveis desse marcador. Já o CA 19.9 elevado está mais associado ao colangiocarcinoma.

    • Detecção precoce

      As estratégias para a detecção precoce do câncer são o diagnóstico precoce (abordagem de pessoas com sinais e/ou sintomas iniciais da doença) e o rastreamento (aplicação de teste ou exame numa população assintomática, aparentemente saudável, com o objetivo de identificar lesões sugestivas de câncer e, a partir daí encaminhar os pacientes com resultados alterados para investigação diagnóstica e tratamento) (WHO, 2007; 2017).

      Diagnóstico Precoce

      A estratégia de diagnóstico precoce contribui para a redução do estágio de apresentação do câncer (WHO, 2017). Nessa estratégia, destaca-se a importância de a população e os profissionais estarem aptos para o reconhecimento dos sinais e sintomas suspeitos de câncer, bem como terem acesso rápido e facilitado aos serviços de saúde.

      Rastreamento

      O rastreamento do câncer é uma estratégia dirigida a um grupo populacional específico em que o balanço entre benefícios e riscos dessa prática é mais favorável, com maior impacto na redução da mortalidade. Os benefícios são o melhor prognóstico da doença, com tratamento mais efetivo e menor morbidade associada. Os riscos ou malefícios incluem os resultados falso-positivos, que geram ansiedade e excesso de exames; os resultados falso-negativos, que resultam em falsa tranquilidade para o paciente; o sobrediagnóstico e o sobretratamento, relacionados à identificação de tumores de comportamento indolente (diagnosticados e tratados sem que representem uma ameaça à vida) e os possíveis riscos do teste elegível (Brasil, 2010; INCA, 2021).

      Não há evidência científica de que o rastreamento do câncer de fígado traga mais benefícios do que riscos e, portanto, até o momento, ele não é recomendado (NCI, 2024).

      Já o diagnóstico precoce desse tipo de câncer deve ser buscado com a investigação dos seguintes sinais e sintomas mais comuns (NCI, 2024; NICE, 2025):

      • Massa e/ou dor em abdômen superior
      • Icterícia
      • Fadiga, inapetência e perda de peso

      Referências

      BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento. Cadernos de Atenção Primária, n. 29. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno_atencao_primaria_29_rastreamento.pdf. Acesso em: 16 jul. 2025.    

      INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA (INCA). Detecção precoce do câncer. – Rio de Janeiro : INCA, 2021. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document/deteccao-precoce-do-cancer_0.pdf . Acesso em: 16 jul. 2025.

      NATIONAL CANCER INSTITUTE (NCI). Recommendations. Updated: May 15, 2024. Disponível em: https://www.cancer.gov/types/liver/what-is-liver-cancer/screening  Acesso em: 16 jul. 2025.

      NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). NICE Guideline Suspected cancer: recognition and referral. Published: 23 June 2015. Last updated:  01 May 2025 Disponível em:  https://www.nice.org.uk/guidance/ng12.  Acesso em: 16 jul. 2025.

      WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Early detection. Cancer control: knowledge into action: WHO guide for effective programmes, module 3. Geneva: WHO, 2007. Disponível em: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/43743/9241547338_eng.pdf?sequence=1.   Acesso em: 16 jul. 2025.

      WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guide to cancer early diagnosis. Geneva: WHO; 2017. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241511940.   Acesso em: 16 jul. 2025.

    • Diagnóstico

      Tomografia computadorizada (TC): Quando realizada com contrataste endovenoso dinâmico (com cortes sem contraste e com contrastes no tempo arterial, portal e tardio), consegue identificar lesões malignas do fígado com exatidão de 75% a 90%, sendo a eficácia inferior em lesões menores de 3 cm.

      Ressonância Nuclear Magnética (RNM): Esse exame pode definir um pouco melhor a extensão do tumor nos pacientes com cirrose hepática e também definir os vasos principais, além de diferenciar lesões císticas e dispensando a administração de contraste venoso. Existem contrastes especificos hepatobiliares que facilitam a detecção e o diagnóstico das lesões hepáticas pela RM.

      Laparoscopia: Permite avaliar a presença ou ausência de disseminação peritoneal.

      A colangioressonância, colangiotomografia, a colangiografia endoscópica retrógrada ou percutânea transhepática podem ser úteis no diagnóstico e no planejamento do tratamento dos tumores, principalmente das vias biliares.

      A biópsia percutânea radioguiada também pode ser útil no diagnóstico.

    • Classificação e estadiamento

      O sistema de estadiamento utilizado para o câncer de fígado é o sistema TNM, da American Joint Committee on Cancer (AJCC), que utiliza três critérios:

      • T. Indica o tamanho do tumor primário.
      • N. Descreve se existe disseminação da doença para os linfonodos próximos.
      • M. Indica se existe presença de metástase em outras partes do corpo, como os pulmões e ossos.

      O sistema descrito para o câncer de fígado é de janeiro de 2018. Números ou letras após o T, N e M fornecem mais detalhes sobre cada um desses fatores. Números mais altos significam que a doença está mais avançada. Depois que as categorias T, N e M são determinadas, essas informações são combinadas em um processo denominado estadiamento geral.

      Estágios do câncer
       
      Estágio IA. T1a, N0, M0.
       
      Estágio IB. T1b, N0, M0.
       
      Estágio II. T2, N0, M0.
       
      Estágio IIIA. T3, N0, M0.
       
      Estágio IIIB. T4, N0, M0.
       
      Estágio IVA. Qualquer T, N1, M0.
       
      Estágio IVB. Qualquer T, qualquer N, M1.
       
      Observação:

      • TX. O tumor principal não pode ser avaliado devido à falta de informação.
      • T0. Sem evidência de tumor primário.
      • NX. Os linfonodos não foram avaliados devido à falta de informação
    • Tratamento

      A remoção cirúrgica (ressecção) do câncer é o tratamento mais indicado quando o tumor está restrito a uma parte do fígado (tumor primário) e também nos tumores hepáticos metastáticos em que a lesão primária foi ressecada ou é passível de ser ressecada de maneira curativa.

      É fundamental a análise multidisciplinar dos casos de neoplasias hepáticas, incluindo neste grupo Hepatologistas, Cirurgiões Hepatobiliares, Radiologistas, Radiologistas Intervencionistas e Oncologistas Clínicos.

      No INCA, todos os casos são analisados em reuniões conjuntas com os especialistas (Grupo de Fígado) em busca do melhor tratamento com melhor resultado e menor risco ao paciente.

    • Acompanhamento pós-tratamento

      O acompanhamento se dá por avaliação médica ambulatorial frequente, associada a exames de sangue incluindo os marcadores tumorais como CEA, CA 19-9 e Alfafetoproteina e de imagem com TC e RM, conforme o caso especifico, para avaliação e detecção precoce de uma eventual recidiva tumoral.

    • Estudos clínicos abertos

      Confira os estudos clínicos abertos para inclusão de pacientes no INCA.

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