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RESPEITO
Artigo resgata origem do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+
“Consideramos justa / toda forma de amor…” [Lulu Santos, Toda forma de amor, 1988]
“Nunca vi rastro de cobra nem couro de Lobisomem/
Quando eu estava pra nascer
De vez em quando eu ouvia
Eu ouvia a mãe dizer
Ai, meu deus, como eu queria
Que essa cabra fosse homem
Cabra macho pra danar
Ah mamãe, aqui estou eu
Mamãe, aqui estou eu
Sou homem com H
E como sou”
[Antônio Barros, Homem com H, 1973]
Cara comunidade do IBC, nesta semana em que celebramos pela terceira vez o Dia do Orgulho LGBTQIAPN+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais/Transgêneros/Travestis, Queer, Intersexo, Assexuais/Arromânticos/Agênero, Pansexuais, Não-binários, + - Outros), nos parece adequado trazer à memória a Revolta de Stonewall, ocorrida em Nova York na data de 28 de junho de 1969. Considerada um marco fundamental para o movimento das pessoas pelos seus direitos, o Stonewall foi uma reação espontânea e violenta da comunidade contra as batidas policiais e a discriminação sistêmica que enfrentava.
Suas causas remontam aos anos anteriores a 1969, que foram marcados por um ambiente de intensa repressão à comunidade LGBTQIAPN+ nos Estados Unidos. Vale lembrar que, naquele país, em grande parte dos estados, a homossexualidade era considerada crime, o que ensejava uma perseguição policial constante, prisões arbitrárias e humilhações públicas. Bares e boates LGBTQIAPN+ eram frequentemente invadidos pela polícia, e seus frequentadores podiam ser presos sem acusação formal, simplesmente por "crimes contra a natureza", pelo uso de roupas "inadequadas" ao seu gênero biológico (especialmente os trans e as drag queens), ou simplesmente por estarem em um local "homossexual". Muitos desses poucos estabelecimentos que existiam eram controlados pela máfia, que pagava subornos à polícia corrupta para evitar batidas constantes. Como se isso não bastasse, esses estabelecimentos também se sentiam autorizados a explorarem seus clientes, cobrando mais caro por bebidas e chantageando seus frequentadores ou visitantes mais ricos com a ameaça de os "tirar do armário".
O problema era sistêmico. Como a sociedade americana também era predominantemente conservadora e heteronormativa, a homossexualidade era vista como uma doença mental, até mesmo pela Associação Americana de Psiquiatria, o que vergonhosamente perdurou até 1973, contribuindo para o estigma e a marginalização.
Foi somente com a ascensão de outros movimentos de direitos civis (como o movimento pelos direitos civis dos negros e o movimento feminista) e a crescente oposição à Guerra do Vietnã, que esse ambiente que reforçava a invisibilidade e a vergonha para pessoas LGBTQIAPN+ foi ganhando maior corpo e efervescência social, inspirando a resistência. Embora não houvesse uma articulação política coesa entre os diferentes movimentos antes do que aconteceu no Stonewall, a ideia de se lutar por direitos e desafiar a opressão estava no ar.
Situado no bairro do Greenwich Village, em Nova Iorque, o Stonewall Inn, era um dos poucos locais onde pessoas LGBTQIAPN+, especialmente jovens gays, travestis e pessoas trans pobres, negras e latinas, podiam se sentir relativamente seguras e expressar-se abertamente. Por isso, as frequentes batidas policiais no local eram particularmente sentidas pela comunidade. Entradas violentas, em um recinto fechado, com a autoridade pondo pessoas contra a parede, aos berros.
Na nossa Semana do Orgulho LGBTQIAPN+ deste ano (2025), o IBC gostaria de enfatizar não só a importância de se respeitar toda forma de amor, mas também a própria existência da comunidade e das pessoas que a integram, dentro e fora da instituição.
A exemplaridade histórica da Revolta de Stonewall certamente não está no fato de primeiro ato de resistência LGBTQIAPN+, mas sim na intensidade e repercussão que a transformaram num catalisador decisivo. Como um de seus mais importantes desdobramentos tem-se a emergência do Movimento de Libertação Gay: A revolta gerou uma explosão de ativismo, organização e orgulho dentro da comunidade LGBTQIAPN+.
Em seguida foram criadas organizações como a “Gay Liberation Front” (GLF) e a “Street Transvestite Action Revolutionaries” (STAR), co-fundada por Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera (duas figuras centrais naquela revolta), que foram fundadas com o objetivo de lutar por direitos e reestruturar a sociedade.
Outro impacto visível foi a organização das primeiras marchas do Orgulho LGBTQIAPN+. A primeira, em 28 de junho de 1970, marcou o aniversário da revolta e pavimentou o caminho para as Paradas do Orgulho que hoje são realizadas anualmente em diversas cidades ao redor do mundo.
Como uma grande Supernova de empoderamento, Stonewall se tornaria um símbolo universal da luta por direitos LGBTQIAPN+, amplificando a voz e a visibilidade da comunidade LGBTQIAPN+, que antes vivia na invisibilidade e no medo. Para muitos, foi a primeira vez que puderam se levantar e declarar que não tolerariam mais o tratamento discriminatório.
É por isso que o Instituto Benjamin Constant, do alto dos seus 170 anos saúda as pessoas gays, lésbicas, trans, queer, assexuais e a todos, com ou sem a Deficiência Visual, nesta Semana do Orgulho! É pela vida delas!