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Museu Goeldi na COP30: a casa da ciência e dos povos contabiliza 350 eventos em 15 dias
Museu Goeldi | COP 30 com Ciência – O Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) se prepara para retomar sua rotina, mas com um novo horizonte e desafios, após mais de duas semanas de atividades relacionadas aos debates sobre mudanças climáticas, no contexto da 30ª Conferência das Partes (COP30). Nas duas bases físicas em Belém, o Parque Zoobotânico e o Campus de Pesquisa, foram montados quatro espaços com nomes e programações diferenciadas (Casa da Ciência, Estação Amazônia Sempre, Planetary Embassy e Espaço Chico Mendes), que receberam, pelo menos, 350 eventos em, aproximadamente, 15 dias. Pelos temas discutidos, pelas presenças registradas, pelos encaminhamentos tomados e pelos legados deixados, o Museu cumpriu seu papel de “casa da ciência e dos povos”.
O diretor da instituição, Nilson Gabas Júnior, celebrou a realização da programação na instituição de pesquisa mais antiga da Amazônia. “Gostaria de compartilhar nossa satisfação em realizar, aproximadamente, 350 eventos em pouco mais de duas semanas. O resultado dos debates aqui promovidos, sem dúvida, auxiliarão os tomadores de decisão a entender a relação entre a bio e, principalmente, entre a sociodiversidade e as mudanças climáticas. Falar de mitigação, de adaptação ou de financiamento climático passa, necessariamente, pelos territórios que são habitados pelas populações tradicionais. E o Museu Goeldi, como resultado já esperado desta COP-30, por ser uma instituição que sempre dialogou com comunidades tradicionais desde sua fundação, há 159 anos, se coloca no centro desse diálogo e desses debates”, destacou.
Gabas Júnior também aproveitou para falar da necessidade de um aporte de recursos financeiros e mais profissionais para a manutenção do Museu Goeldi e a continuidade de sua missão frente aos desafios propostos: “Esperamos que, com mais recursos humanos e financeiros, possamos seguir no novo caminho que trilhamos a partir da realização da COP-30, com o reconhecimento nacional e mundial que temos tido, a partir de nossas pesquisas inovadoras, de nossa capacidade de divulgar ciência, de manter coleções científicas incríveis, de educar cientificamente, e de participarmos de intervenções artísticas, como incremento e amálgama da consciência ambiental e cidadā. Agradecemos aos nossos parceiros e aos nossos visitantes por fazerem parte dessa história”.
Entre os parceiros que viabilizaram as programções estão o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com a Organização do Tratado de Cooperação Amazônico (OTCA), com a Embaixada da Suiça e o braço suíço de inovação tecnológica, a Swissnex, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que financiou a Casa da Ciência do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Comitê Chico Mendes, o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA), Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), o Instituto Cultural Vale e a Fundação Banco do Brasil.
O Museu Goeldi também acolheu, pelo menos, sete exposições: “Ahetxiê: um tesouro da costa amazônica”, “Diversidades amazônicas”, “Um rio não existe sozinho”, “Brasil:Terra Indígena”, "Impressões da floresta", além da pintura dos muros do Parque pelo Maub, que transformou o entorno do espaço em uma galeria a céu aberto, e da exposição fotográfica da Rede Bioamazônia “Amazônia a olhos vistos”. Além disso, o Museu Goeldi, recebeu, pelo menos, 29 agendas institucionais, que foram iniciadas com as reuniões bilaterais do presidente Lula com sete países. Além disso, a diretoria da instituição recebeu diretamente ministros de governos estrangeiros e representantes de organizações internacionais e de outros Estados do Brasil.
NÚMERO DE EVENTOS NO MUSEU GOELDI:
134 na Estação Amazônia Sempre (BID e parceiros)
90 no Espaço Chico Mendes e Fundação Banco do Brasil
47 na Casa da Ciência do MCTI
21 Planetary Embassy + Embaixada Suíça + Road to Belém
OUTRAS ATIVIDADES:
29 agendas institucionais
23 trilhas no Parque Zoobotânico
7 exposições abertas ao público
A Casa da Ciência: 48 eventos e especialistas em questões climáticas
“A experiência que nós tivemos aqui na Casa da Ciência foi riquíssima”, avaliou Andrea Latgé, secretária de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Nesse período, o Museu Goeldi foi a sede do MCTI, com a ministra Luciana Santos cumprindo sua agenda institucional, na instituição de pesquisa. Em dois espaços do Parque Zoobotânico do Museu, no prédio da Biblioteca Clara Galvão e no auditório Rodrigues Ferreira, foram realizados, pelo menos, 48 eventos – entre palestras, painéis, lançamentos de livros, mesas-redondas –, além da área de exposição de tecnologias sociais desenvolvidas por unidades de pesquisas. Nesses ambientes circularam cientistas com expertise em mudanças climáticas, além de um público ávido por conhecimentos e soluções.
No encerramento das atividades, Andréa Latgé considerou que o “planejamento de longo termo” realizado pela equipe do MCTI foi efetivado, nesses onze dias. Ela disse que o objetivo inicial era construir um espaço que reunisse discussões da ciência brasileira, trazendo especialistas em mudanças climáticas do país, entre os quais pesquisadores ligados aos institutos de pesquisa vinculados ao MCTI que observam e monitoram questões diversas atreladas aos efeitos climáticos, como: desastres climáticos, emissão de gases de efeito estufa, riscos à biodiversidade, desmatamento, efeitos à saúde dos humanos e à agricultura, reserva hídrica, cultura e energia dos oceanos, bioeconomia, transição energética.
“Então, esse leque de questões foram abordadas aqui nessa Casa da Ciência. E nós, certamente, tentamos chamar as nossas estrelas, as pessoas que têm se destacado tanto do ponto de vista da mata, da questão da floresta amazônica, que é uma pauta muito forte. Foram vários nomes – que eu não gostaria de citar para não deixar ninguém de fora – que estiveram conosco e que nos fizeram entender que nós temos um background, uma ciência brasileira no topo internacional e que esteve nesses debates”, destacou Andrea Latgé.
Estação Amazônia Sempre – 134 eventos realizados em 15 dias
A Estação Amazônia Sempre – resultado da parceria entre o Museu Goeldi e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) – foi o espaço que mais reuniu eventos e parceiros. Foram 134 atividades, entre os dias 8 e 21, cocriadas e selecionadas por meio de uma chamada aberta para propostas. É resultado do Programa Amazônia Sempre que teve o objetivo de promover diálogos inclusivos e transformadores sobre o futuro da Amazônia ao longo da realização da COP30.
Foram realizados seminários, palestras e rodas de conversa, incluindo as atividades da Rede Bioamazônia, que engloba oito instituições de pesquisa da Pan-Amazônia, entre as quais o Museu Goeldi. De acordo com os organizadores, cerca de 3 mil pessoas participaram das discussões.
“Agradecemos profundamente ao Museu Paraense Emílio Goeldi pela parceria com o Grupo BID, por meio do seu programa de coordenação regional Amazônia Sempre, e por terem sediado a Estação Amazônia Sempre no Museu Goeldi durante a COP30. Reconhecemos que o sucesso da Estação se dá por trazemos os diálogos sobre a Amazônia para dentro da Amazônia, com a força da ciência e participação dos povos da floresta. A nossa parceria, que vai muito além da COP30, reforça o compromisso do Grupo BID em promover soluções concretas para a região unindo esforços com atores e instituições que atuam no território, buscando um futuro sustentável e resiliente para a Amazônia", disse Tatiana Schor, chefe do grupo de sociedade civil do Grupo BID.
A Estação Amazônia Sempre se baseou no legado histórico e na excelência científica do Museu Goeldi, estabelecendo uma plataforma única para ampliar o conhecimento e a ação nos diálogos climáticos globais. A parceria entre o Programa Amazônia para Sempre do BID e o Museu Goeldi se estende muito além da COP30, com o objetivo de apoiar a restauração da infraestrutura do Museu para que ele possa continuar a servir como um centro de diálogo, colaboração e pesquisa que conecte a sabedoria indígena e o conhecimento científico em toda a região amazônica.
A Estação Amazônia Sempre contou com dois espaços colaborativos: o Chalé Rodolfo Siqueira Rodrigues e o Auditório Eduardo Galvão, ambos no Parque Zoobotânico. Entre os parceiros-chave, estiveram o Governo Suíço; o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI Brasil; e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).
Embaixador da Suíça: “Fechamos parcerias importantes e duradouras”
A presença da Suíça no Museu Goeldi foi representada pelo programa “Road to Belem”, com a realização de debates sobre a biodiversidade e o clima na “Estação Amazônia Sempre”; pela Swissnex no Brasil, que montou o espaço Planetary Embassy. A Embaixada da Suíça no Brasil também articulou, nesse período, a arrecadação de mais de R$ 4,8 milhões para a restauração da Casa Goeldi (um prédio histórico onde viveu o naturalista suíço Emílio Goeldi, no Parque Zoobotânico) e a doação de R$ 33 milhões da Suíça ao Fundo Amazônia . Em 10 dias de programação, foram realizados 21 eventos, sendo a conferência “Imaginando a Diplomacia Planetária com Davi Kopenawa” um dos mais concorridos.
O embaixador da Suíça no Brasil, Hanspeter Mock, afirmou que, para a Suíça, foi uma oportunidade única ter sido recebida e acolhida pelo Museu Goeldi, nesta COP30. Ele também ressaltou o fato de a instituição, há mais de 150 anos, se destacar pelo compromisso com a ciência, com a cultura, com a memória e com a sustentabilidade.
“Em todos os eventos que realizamos, especialmente no Planetary Embassy, tivemos discussões muito ricas e avançamos em questões complexas que exigem compromissos. Fechamos parcerias importantes e duradouras, como a revitalização da Casa Goeldi, esse espaço histórico que será transformado em um centro de ciência e conexão entre comunidades tradicionais e pesquisadores. E assinamos um acordo que renova a contribuição da Suíça ao Fundo Amazônia, com um aporte de R$ 33 milhões. Estamos muito gratos e orgulhosos de caminhar ao lado do Museu Goeldi — uma instituição que, como a Suíça, busca soluções baseadas no conhecimento, na inovação e no respeito ao planeta. Para nós, essa colaboração representa uma visão conjunta de futuro. Que esta parceria se amplie, se fortaleça e produza frutos para as próximas gerações”
As atividades realizadas no Chalé João Batista de Sá (Planetary Embassy) e no Auditório Eduardo Galvão reuniram, ainda, representantes governamentais e do setor privado, cientistas, artistas e outros integrantes de comunidades indígenas e locais. Os eventos realizados também fortaleceram o vínculo entre o conhecimento tradicional e a ciência feita do Museu Goeldi, contando com lideranças indígenas que compartilharam seus conhecimentos e suas lutas como protetores da floresta.
No Espaço Chico Mendes: “Este também é um espaço de escuta oficial”
No Espaço Chico Mendes, montado no Campus de Pesquisa do Museu Goeldi, foram mais de 90 atividades, entre painéis, mesas-redondas, exposições, encontros, caminhadas, apresentações culturais e mostras de cinema. Toda essa programação foi pensada para fortalecer o legado e a memória de Chico Mendes e de outras lideranças populares, garantindo o protagonismo e fazendo ecoar as vozes dos povos tradicionais na COP.
Ângela Mendes agradeceu a parceria com o Museu Goeldi na empreitada que resultou no acolhimento, no diálogo e em ações concretas envolvendo as populações tradicionais no debate climático. “Gostaria de, primeiro, agradecer ao Museu por ter aberto esse espaço para nos acolher. Eu sei que o Museu também já é um lugar de muito diálogo com populações tradicionais e acho que a gente também reforçou isso. Acho que o nosso compromisso, além da visibilidade da força dos povos tradicionais e originários, também traz essa mistura de saberes tradicionais com os saberes da ciência”.
Ao longo desses quinze dias de evento, milhares de pessoas vindas de diferentes lugares do Brasil e do mundo puderam conhecer melhor a história de Chico Mendes, mas também a luta de diversos movimentos populares que apresentaram suas principais demandas, reivindicações e contribuições para o enfrentamento das mudanças climáticas e de outras ameaças que incidem sob os seus territórios.
“Aqui, a gente teve a participação das mulheres indígenas, das mulheres extrativistas, das mulheres catadoras, das quilombolas… A gente teve, praticamente, a maioria dos segmentos de populações tradicionais aqui neste espaço fazendo grandes debates, trazendo suas demandas e vozes que não são ouvidas nos espaços oficiais. Mas este também é um espaço de escuta oficial, porque a gente está com quem, de fato, entende dessa dinâmica do clima”, destaca Ângela Mendes.
Marlúcia Martins, coordenadora de Pesquisa e Pós-Graduação do MPEG, também agradeceu a parceria com o Comitê Chico Mendes e ressaltou o saldo positivo do encontro, principalmente pelo público alcançado e pela importância das discussões realizadas. “A minha avaliação é super positiva. Eu acho que fomos ousados como instituição. Foi uma programação trabalhada em conjunto com o Comitê, não só a programação prevista pelo CNS, mas nós também inserimos muitos parceiros, como a Anmiga e outros que também solicitaram o espaço. Então, foi sendo construído, ao longo do tempo, com muita tolerância mútua, vontade de acertar, de fazer junto, com muito respeito entre as instituições”.
A pesquisadora também agradeceu aos pesquisadores do Campus pela compreensão em fazer do Campus de Pesquisa, um lugar que não costuma receber visitação pública dessa magnitude por ser o espaço sujeito a normas específicas por abrigar as coleções científicas, em um espaço de confluências e saberes entrelaçados. “Não tivemos nenhum intercurso, nenhum problema. A comunidade da Terra Firme também participou, ajudou, fez plantio e veio aqui, expôs na feira, tudo tranquilo. Tivemos vários momentos com eventos culturais que foram muito frequentados, mas sem nenhum tipo de problema”.
Além do público geral, o espaço recebeu visitantes ilustres, como a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva; a ministra dos Povos Indígenas do Brasil, Sonia Guajajara; a ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos; o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos; ativistas e defensores ambientais, como Neidinha Suruí, Claudelice Santos e Sâmela Sateré Mawé, além de artistas locais e nacionais.
Dever cumprido – Após o encerramento do evento, as instituições parceiras vão continuar os diálogos e apresentar documentos que registram e sintetizam as falas, as reivindicações e contribuições dos movimentos e pesquisadores para a pauta do clima. Um processo semelhante foi feito com o Ciclo de Diálogos COP com Ciência, antes da conferência, que se transformou em um documento com 18 recomendações encaminhado à presidência da COP30.
“Nós vamos fazer as relatorias, reunir documentos, colocações e propostas. Não vai ficar no ar e vamos trabalhar sobre isso, além de passar para o próprio governo federal e para as instâncias estaduais ou municipais. Eu acho que a gente tem esse papel, tem esse compromisso como instituição de pesquisa, de trazer essa intermediação e trazer essas vozes para para a divulgação científica, para divulgação pública”, conclui Marlúcia Martins.
Legados do encontro – Como legados dessa parceria bem sucedida, Ângela Mendes destacou o que fica de resultado e contribuição: “Finalizamos da melhor forma, entregando como um legado físico a ‘casa do seringueiro tradicional’ e a réplica da fachada da casinha do meu pai, que eu sei que vai ser cuidada com muito carinho aqui. E acho que o grande legado, talvez, que fica dessa COP para a gente é que os saberes só conseguem ter força quando eles estão juntos. É o saber acadêmico, mas é o saber tradicional, porque alia a teoria à prática. E essa força é que vai fazer com que a gente consiga alcançar essa justiça social, socioambiental, que era o sonho do meu pai”.
Texto: Denise Salomão, Andréa Batista e Isabella Gabas