Notícias
No contexto da COP30: “Um rio não existe sozinho” abre temporada de eventos no Museu Goeldi
Maquete virtual da obra 41ºC, de Mari Nagem, concebida para a exposição - Crédito: Instituto Tomie Ohtake
Agência Museu Goeldi - “Um rio não existe sozinho” é o nome da exposição que marca a retomada da visitação pública ao Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), na próxima sexta-feira (03/10), a partir das 9h. O projeto criado e desenvolvido pelo Instituto Tomie Ohtake é um dos vários eventos que acontecem no contexto da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) e que terão o Museu Goeldi como instituição anfitriã, realizadora ou parceira. As intervenções artísticas estarão distribuídas em 10 espaços e serão integradas aos 5,4 hectares de área da coleção viva do MPEG – formada, principalmente, por exemplares da flora e da fauna amazônica – localizada no centro urbano de Belém, capital do Pará e sede da COP30.
O diretor do Museu Goeldi, Nilson Gabas Júnior, destacou a importância dessa parceria para a instituição e para as pessoas que visitarão o Parque até dezembro, período em que a exposição ficará em cartaz. “Recebemos com muito entusiasmo o projeto do Instituto Tomie Ohtake, porque entendemos que ele fortalece o nosso papel como um espaço onde ciência e arte se encontram para ampliar diálogos, sensibilidades e formas de conhecimento. Essa e outras ações planejadas em torno da COP30 e do aniversário de 159 anos do Museu Goeldi refletem o compromisso da instituição em ser não apenas um centro de excelência científica, mas também um território dialógico, onde a arte potencializa o alcance da ciência e a ciência inspira novas linguagens artísticas”, destacou.
Nada existe sozinho
“Nada existe sozinho – nem rio, nem povo, nem organizações sociais, nem países –, e estamos nessa roda da vida. Fazer junto é o primeiro passo para, de alguma maneira, contribuirmos para que os muitos mundos permaneçam e coexistam. A começar pelo privilégio que é conviver e aprender com o Museu Paraense Emílio Goeldi, que desde o início, há mais de um século, pensa a Amazônia como um universo”. É assim que o Instituto Tomie Ohtake apresentou o projeto que foi viabilizado pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), com o apoio do Nubank e patrocínio da AkzoNobel, Aché Laboratórios Farmacêuticos e PepsiCo.
“Esta ilha de biodiversidade cuidadosamente mantida existe em um planeta em colapso. Não é um convite ao escapismo, mas um lembrete poderoso do que está em jogo… Vivemos um tempo em que a crise climática se tornou realidade cotidiana. Esta exposição é uma forma de imaginar, junto com artistas e saberes tradicionais, outras possibilidades de existência mais generosas e sustentáveis”, afirma a curadora Sabrina Fontenele. “A floresta não é cenário, mas um sujeito político ativo e pulsante. Reconhecer isso é também reconhecer a urgência da justiça climática e a resistência dos povos que há séculos protegem esse território”, afirma Vânia Leal, curadora convidada.
A coordenadora de Comunicação e Extensão do Museu Goeldi, Sue Costa, lembrou que a conexão entre ciência e arte é uma estratégia para cultivar vínculos afetivos com o patrimônio natural e cultural da Amazônia, ampliar o acesso ao conhecimento e fortalecer a consciência crítica. “É também um convite à imaginação e à reflexão, porque compreender a Amazônia exige tanto precisão científica quanto abertura poética”, destacou.
Exposição adaptada e visita guiada
A mostra coletiva reúne nove artistas de diferentes regiões do Brasil e um escritório de arquitetura, e o Parque é matéria viva, ponto de partida e inspiração. Todas as obras são site specific, concebidas em diálogo direto com o ecossistema local, respeitando sua delicada dinâmica e propondo uma convivência sensível com seus ritmos, sons, cheiros e presenças. Diferente de um espaço expositivo convencional, cada trabalho precisou se adaptar às condições do ambiente — respeitando a fauna livre, a vegetação e a história da base mais popular do Museu (o Parque Zoobotânico) que completou 130 anos de existência.
Na abertura da exposição (3/10), entre 9h30 e 12h30, no auditório do Pavilhão Eduardo Galvão, acontecem três mesas de diálogos, cada uma com 45 minutos de duração, reunindo diferentes artistas e mediadores: às 9h, Gustavo Caboco, Sallisa Rosa e Deba Tacana, com mediação de Sabrina Fontenele; às 10h, Elaine Arruda, Rafael Segatto e Mari Nagem, mediados por Vânia Leal; e, às 11h, PV Dias, Noara Quintana e Francelino Mesquita, com mediação de Ana Roman, superintendente artística do Instituto Tomie Ohtake. À tarde, das 15h às 16h30, o público é convidado para uma visita guiada pela mostra, com a participação dos artistas expositores.
“Um rio não existe sozinho”: os artistas e suas obras:
-
Sallisa Rosa (GO) – Atua com a arte como caminho a partir de experiências intuitivas ligadas à ficção, ao território e à natureza. Apresenta A terra esculpe a água, instalação em barro que evoca a relação ancestral entre terra e água e reforça a urgência de cuidar das águas que conectam todo o planeta.
-
Rafael Segatto (ES) – Artista multidisciplinar e também trabalhador do mar. Articula suas investigações entre o domínio continental e o marítimo. Apresenta Enquanto correm as águas, instalação que combina remos e cores simbólicas para traçar uma cartografia poética das memórias, espiritualidades e navegações.
-
PV Dias (PA) – Natural de Belém, sua pesquisa concentra-se na estruturação das imagens de um território e nas suas possíveis rupturas. Apresenta Paisagens commodities, projeção em video mapping que revela os rastros da destruição ambiental na paisagem amazônica, sobrepondo imagens do acervo do Museu Goeldi com registros atuais.
-
Noara Quintana (SC) – Artista visual. Suas instalações e esculturas apontam para trocas econômicas, formas arquitetônicas e narrativas contrárias ao legado de um imaginário colonial. Apresenta Tela d’água, uma recriação de espécies ameaçadas a partir de registros históricos, apontando para a fragilidade do ecossistema.
-
Elaine Arruda (PA) – Artista visual, professora e pesquisadora. Sua produção ocupa primordialmente o campo da gravura, mas em uma escala monumental. Apresenta Entoar o vento e dançar marés, instalação que atravessa memórias femininas e ancestrais para refletir sobre o tempo, as águas e as travessias da vida.
-
Mari Nagem (MG) – Artista interdisciplinar que investiga as transformações do meio através da tecnologia, os estados emocionais na era digital e a artificialidade das paisagens. Apresenta 41°C, obra que transforma dados científicos sobre a seca histórica de 2023 no Lago Tefé em paisagens térmicas que alertam para a urgência da crise climática.
-
Gustavo Caboco (RR/PR) – Do povo Wapichana, sua produção artística se desdobra nas áreas das artes visuais, cinema e literatura. Apresenta Casa de bicho e Antibatismo: Victoria Regia, instalações que afirmam a memória e a permanência indígena enquanto questionam as violências coloniais inscritas na Amazônia.
-
Déba Tacana (RO) – Artista Visual, pesquisadora e professora. Tem ascendência indígena e cigana e investiga a matéria cerâmica. Apresenta Luz que Ança, instalação em cerâmica e vidro fundido que conecta ancestralidade e futuro para refletir sobre a crise climática e os direitos humanos.
-
Francelino Mesquita (PA) – Artista visual que trabalha as poéticas dos rios, fauna, flora e vida cotidiana em confluência com a maior floresta tropical do mundo. Apresenta as instalações Proteja-me e Proteção ambiental, propondo um ativismo visual com miriti e outros materiais naturais que evocam saberes ancestrais e alertam para a urgência da preservação da Floresta Amazônica.
-
Estúdio Flume – Fundado em 2015 pelos arquitetos Christian Teshirogi e Noelia Monteiro, o escritório se consolidou por tratar a arquitetura como ferramenta de impacto social, com projetos que fortalecem comunidades rurais e tradicionais. Entre eles, destacam-se o Centro de Referência das Quebradeiras de Babaçu (MA) e a Casa do Mel (PA), reconhecidos nacional e internacionalmente por aliarem sustentabilidade, saberes locais e desenvolvimento comunitário.
SERVIÇO - Exposição “Um rio não existe sozinho”
Data: de 03 de outubro a 30 de dezembro de 2025
Local: Parque Zoobotânico do Museu Goeldi
Endereço: – Avenida Gov. Magalhães Barata, 376 - São Brás, Belém - PA
Visitação: de quarta a domingo, das 9h às 16h
Ingresso: R$ 3 (ingresso do Parque)
Texto: Andréa Batista (Jornalista/MPEG), com informações do Instituto Tomie Ohtake
Imagens: Instituto Tomie Ohtake
Revisão: Denise Salomão