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Entre memória e Futuro

Da crise à confiança: a tríade — controle, rastreabilidade e informação — que sustenta a segurança nuclear no Brasil

Debate realizado após a repercussão de "Emergência Radioativa" retoma o legado do Acidente com césio-137 em Goiânia e aponta controle, rastreabilidade e informação como base da confiança pública.
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Publicado em 27/04/2026 13h57 Atualizado em 27/04/2026 13h59
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Debate reuniu o diretor da série, Fernando Coimbra; Alessandro Facure, diretor-presidente da ANSN; o físico Walter Mendes Ferreira, o primeiro a identificar o acidente; e o deputado federal Julio Lopes, presidente da Frente Parlamentar Nuclear - Foto: Bianca Wendhausen/ANSN

A regulação e a memória de um dos maiores acidentes radiológicos do mundo seguem como pilares da segurança nuclear no Brasil, e como alerta permanente. Quase quatro décadas após o Acidente com césio-137 em Goiânia, especialistas defendem que o principal legado não está apenas nas normas criadas, mas na capacidade de transformar conhecimento técnico em informação acessível, fortalecendo a confiança pública e combatendo a desinformação.

Esse foi o ponto de partida do debate “Entre Memória e Futuro”, promovido nesta quinta-feira (9), no Centro Cultural da Fundação Getúlio Vargas (FGV), pela Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), em parceria com a FGV Comunicação e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

A discussão ganhou novo fôlego com a repercussão da série "Emergência Radioativa", que reacendeu o interesse público pelo tema e trouxe à tona uma questão central: o que sustenta, hoje, a segurança nuclear no país?

Ao revisitar o episódio de Goiânia, ocorrido em 1987, a produção também provoca uma reflexão mais ampla sobre a evolução do setor nas últimas décadas, e sobre os mecanismos que hoje garantem o uso seguro das tecnologias nucleares. Afinal, depois de Goiânia, o que de fato mudou?

Logo na abertura do encontro, o diretor-presidente da ANSN, Alessandro Facure, reforçou que o acidente é reconhecido como um marco fundamental para a segurança radiológica mundial, destacando a necessidade de traduzir o rigor técnico em linguagem clara para a sociedade.

Segundo ele, é através da ponte entre ciência e comunicação que se consolida uma cultura de segurança efetiva, contendo, ao todo, três elementos que se conectam para o melhor funcionamento desta rede de segurança nuclear:

“Esses três pilares, o controle, a rastreabilidade e a informação, ainda constituem a base da atividade que os reguladores nucleares desempenham. É uma tríade, eu diria: fiscalização e controle robusto, operadores responsáveis pela utilização destas fontes radioativas e, por último, a necessidade de comunicar e informar a população, justamente sobre os riscos e benefícios da radiação ionizante, pois a função regulatória é essa: levar os riscos para um nível aceitável, com base em critérios técnicos e evidências”, destacou.

O debate reuniu ainda o diretor da série, Fernando Coimbra; o jornalista Paulo Motta, premiado pela cobertura do caso; o físico Walter Mendes Ferreira, chefe da área de Emergência da CNEN e primeiro a identificar o acidente; e o deputado federal Julio Lopes, presidente da Frente Parlamentar Nuclear.

Juntos, os participantes discutiram não apenas os aprendizados do passado, mas os desafios contemporâneos para manter e aprimorar a regulação nuclear no Brasil.

O físico e chefe da área de Emergência da CNEN, Walter Mendes, falou sobre a importância da série e relembrou vários nomes que foram fundamentais no trabalho realizado em Goiânia, destacando o Instituto de Radioproteção e Dosimetria como peça fundamental em todo o processo:

“Eu tenho falado constantemente sobre a validade dessa série e a importância dela para a juventude de hoje, para mostrar o que o país fez, aos jovens engenheiros, físicos, químicos, biólogos... tudo isso é muito representativo. Eu ressalto o Dr. Rex Nazaré, que foi o grande estrategista para o resolver o problema de Goiânia, e o nome do Dr. Marcus Godoy, do IRD, no caso. O IRD teve uma participação importantíssima, pois foi o instituto que mais enviou servidores para trabalhar em Goiânia, e aquele foi um trabalho muito bem-sucedido”, ressaltou.

O jornalista Paulo Motta, agraciado com o Prêmio Esso de Jornalismo em 1988 pela coordenação da equipe que cobriu o atendimento às vítimas do acidente no Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, falou sobre o início de sua trajetória no jornalismo, a ida para a cobertura do setor nuclear e os desafios por ele enfrentados:

“Eu vim da geografia e entrei em 1979 no Jornal do Brasil. Na década de 80, eu cobria ecologia e fui destacado para cobrir o setor nuclear, e aprendi sozinho, já que ninguém ensinava. No início era muito bom, eu ia às manifestações do “Hiroshima nunca mais”, com políticos e famosos, mas depois, fui cobrir o enchimento da usina hidrelétrica de Itaipu, por exemplo. Hoje, já estou aposentado, mas eu gostaria muito que houvesse um lugar onde se ensinasse o jornalismo especializado, seja na área nuclear, de ecologia ou qualquer outra”, declarou.

O cineasta Fernando Coimbra, diretor da série “Emergência Radioativa”, contou um pouco mais dos bastidores da produção e as escolhas que precisaram ser feitas durante a construção da narrativa, para que a história não ficasse longa ou cansativa: 

“Não fizemos um documentário, uma matéria ou reportagem, então, você precisa, através da ficção e dos atores, condensar uma história. O período que a gente conta é de mais ou menos três meses, mas estão condensados em cinco horas. Para juntar tantas coisas em pouco tempo, você precisa eleger o que é mais emblemático e significativo para representar tantas coisas que aconteceram. É a mesma coisa com os personagens, pois se colocarmos tantos e tantos, o público começa a se perder”, explicou.

Já o deputado federal Júlio Lopes (PP-RJ), presidente da Frente Parlamentar Nuclear, chamou a atenção do público quanto à importância e necessidade de maiores investimentos na área nuclear, trazendo, como comparação, os recursos aplicados em países vizinhos da América Latina, no que concerne ao setor da medicina nuclear:

“Nós assinamos, há mais ou menos um mês, um compromisso de triplicarmos a energia nuclear no país, um compromisso formal no que se refere à área energética. Porém, se a gente falar sobre o tratamento de saúde, a gente precisa multiplicar por mais de dez vezes. Aliás, os nossos companheiros argentinos e uruguaios tem cinco, sete vezes mais capacidade na medicina nuclear do que nós, então, no mínimo nós temos que decuplicar o nosso atendimento e, ao fazê-lo, teremos que tomar muito mais cuidado e precaução e ter, obviamente, uma administração de risco muito maior”, apontou.

A ANSN é uma instituição nova, mas que já nasce grande, ancorada em uma trajetória sólida, construída ao longo de décadas de atuação técnica e compromisso público. Ao promover este debate, amplia um espaço essencial de escuta, fortalece a circulação de informação qualificada e contribui para a construção da confiança da sociedade, um tripé indispensável para que uma instituição de Estado cumpra, de fato, sua missão republicana.

"Embora a iniciativa tenha sido organizada pela comunicação, este foi, sobretudo, um trabalho coletivo. Um esforço que mobilizou diferentes áreas da ANSN, reafirmando que a construção do diálogo público é sempre plural", afirmou ANa Paula Artaxo, coordenadora de Relações Institucionais da ANSN, acrescentando que o debate só foi possível "graças ao apoio imprenscindível da FGV Comunicação e ao aceite dos participantes".

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