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Pesquisa identifica desafios para lidar com tripla crise de extremos: clima, desigualdade social e desinformação
Os municípios brasileiros enfrentam simultaneamente três tipos de extremos: eventos meteorológicos mais intensos e frequentes agravados pelas mudanças climáticas; desigualdades sociais e racismo, que ampliam a vulnerabilidade da população a desastres; e a explosão da desinformação em redes sociais e aplicativos de mensagens, que confunde as comunidades em momentos de crise. É essa combinação de múltiplas ameaças que o artigo científico "Capacidades organizacionais de comunicação de riscos de desastres na era dos extremos" analisa em profundidade.
A pesquisa foi conduzida pelo Projeto COPE (Capacidades Organizacionais de Preparação para Eventos Extremos/apoio: Fapesp - Processo 2002/02891-9) e combinou análise documental de dados de 1.993 municípios e pesquisa de campo de base qualitativa, realizada no segundo semestre de 2024. Foram realizadas 60 entrevistas, em profundidade, com agentes de defesa civil e moradores de áreas de risco em municípios da Bacia do Rio Paraíba do Sul.
"Evento extremo" ainda é termo desconhecido
Um dos achados da pesquisa é o desconhecimento sobre o que são “eventos extremos”. Para os autores da pesquisa, o uso indiscriminado do conceito de “extremo” — muitas vezes, de forma equivocada, pelos próprios meios de comunicação — pode influenciar o processo de comunicação de riscos e a disseminação de alertas. Diante disso, recomendam o planejamento antecipado sobre como e quando utilizar termos que transmitam, nos alertas, a ideia de desastres impensáveis, como a catástrofe no Rio Grande do Sul em 2024.
Capacidades das defesas civis municipais para lidar com a desinformação
A pesquisa documenta casos concretos de como a desinformação pode agravar vulnerabilidades em situações de emergência. Durante a catástrofe de 2011, que deixou mais de 900 mortos na Região Serrana do Rio de Janeiro, boatos sobre o rompimento de uma represa causaram alvoroço em alguns municípios. Essa narrativa criada gerou distúrbios na cidade. Pessoas chegaram a ser avistadas subindo os morros do município ou procurando outros lugares para se esconder do suposto rompimento. Em outros casos, moradores relataram a circulação de vídeos de inundações antigas apresentados como eventos recentes, prática que os autores enquadram como desinformação contextual, isto é, informações falsas ou tiradas de contexto que são designadas, apresentadas ou promovidas para causar danos públicos ou lucros de forma intencional.
Apesar da falta de recursos financeiros e humanos dos órgãos municipais de defesa civil, os agentes municipais têm desenvolvido estratégias criativas para combater a desinformação: gravação de vídeos com data e hora visíveis para confirmar a situação em tempo real, criação de grupos de WhatsApp monitorados pela própria defesa civil. O estudo aponta a comunicação de riscos e o enfrentamento da desinformação como temas a serem considerados em ações de capacitação para situações de alertas e desastres.
Racismo e desigualdade invisíveis na política de desastres
O artigo também analisa a presença de dimensões raciais e de desigualdade nas políticas e sistemas de informação relacionados à gestão de riscos. Segundo o estudo, a disponibilidade de dados desagregados pode contribuir para o aprimoramento de políticas de redução da vulnerabilidade social a desastres
O artigo “Capacidades Organizacionais de Comunicação de Riscos na Era dos Extremos” está disponível para acesso gratuito no link a seguir: https://revistas.ufpr.br/made/article/view/99225/77282