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Do risco à ação: jovens atuam na prevenção de riscos de desastres e na mobilização social em suas comunidades
No final de maio e início de junho de 2022, fortes chuvas atingiram o estado de Pernambuco e ocasionaram 133 mortes. Destas, quase metade (64) ocorreu no município de Jaboatão dos Guararapes, vizinho da capital pernambucana. A catástrofe socioambiental poderia ter sido ainda mais grave, não fosse pela atuação de estudantes que haviam participado do projeto Dados à Prova D’Água, do Cemaden Educação. Segundo a reportagem publicada em 2024 pela Agência Pública, o aprendizado resultante do projeto - que envolveu o mapeamento de riscos no território, a construção de pluviômetros de garrafas PET e as orientações para a interpretação dos dados captados nesses instrumentos - foram determinantes para que, na comunidade do Retiro, em Jaboatão, não houvesse nenhuma morte decorrente do desastre que atingiu o município naquele período.
Um dos estudantes que bateu à porta dos vizinhos para avisá-los quanto ao risco iminente foi o estudante Aléxys Ferreira, à época com 17 anos. “Lembro que estava chovendo muito e, quando fui ver a medição pelo pluviômetro, tinha chovido bastante durante a noite. Como já tínhamos orientações, o grupo sempre conversava com a comunidade, explicando o que fazer e orientando que, em qualquer situação, procurassem a Defesa Civil, pois eles tinham mais preparo”, relembra. Ferreira destaca, ainda, a importância do trabalho contínuo e conjunto na orientação aos moradores - para que, em momentos críticos, as pessoas já estejam mais preparadas para agir de maneira rápida. O grupo estima que, naquela ocasião, cerca de 125 residências foram visitadas para alertar as famílias quanto aos riscos.

O despertar do interesse de jovens estudantes para projetos como os desenvolvidos pelo Cemaden Educação depende, em grande medida, da atuação de educadores. Jurandy Clementino, coordenador do Centro Educacional, Social e Cultural João Martins, localizado em Jaboatão dos Guararapes, foi essa ponte entre a iniciativa Dados à Prova D’Água e os estudantes da comunidade do Retiro. “Nós fazemos história quando transformamos conhecimento em ação, quando levamos orientação às ruas, quando colocamos a educação a serviço da proteção da vida. Nós ajudamos a salvar vidas, e isso é algo maravilhoso e que muito nos honra”, destacou, emocionado, o professor Jurandy, durante a itinerância pernambucana da campanha “#AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco”. A equipe do Cemaden Educação esteve em Pernambuco, Olinda e Jaboatão dos Guararapes entre os dias 9 e 13 de fevereiro de 2026 para promover encontros formativos. Na semana de atividades, foram realizadas reuniões, oficinas e eventos culturais nesses três municípios - que estão entre os mais suscetíveis a desastres socioambientais.

- Da esquerda para a direita: Professora Rejane Lucena (que integrava a Defesa Civil de Jaboatão dos Guararapes à época do desastre de 2022 e hoje é servidora do Cemaden); professor Jurandy Clementino, do Centro Educacional, Social e Cultural João Martins; Regina Alvalá, diretora do Cemaden; e Rachel Trajber, coordenadora do Programa Cemaden Educação. Foto: Nayla Lopes.
Entre as instituições parceiras do Cemaden Educação, nas itinerâncias da campanha e nas ações de educação para a percepção de risco de desastres, estão as defesas civis. Para promover uma cultura de prevenção, é fundamental a inserção nas comunidades vulneráveis - seja por meio de lideranças comunitárias ou de estudantes e educadores. Nesse contexto, os agentes dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (Nupdecs) - grupos de moradores voluntários que recebem formação para compreender a percepção de riscos, monitoramento, alertas, capacidade de resposta e promoção de uma cultura de prevenção. Essas ações formativas são uma ponte crucial entre as defesas civis e as populações em áreas suscetíveis a riscos de desastres.
Unindo a atuação dos educadores com o potencial dos Nupdecs, o professor João Alfredo dos Santos Neto, gestor da Escola de Referência em

- Professor João Alfredo Neto e Major Agilana Inojosa com estudantes do Nupdec Frei Campo Mayor e com a equipe da campanha “#AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco”, após encontro formativo em Recife, em fevereiro de 2026. Foto: Nayla Lopes.
Uma de suas alunas e componentes do Nupdec EREM Frei Campo Mayor, Giovana, de 16 anos, esteve presente em um dos encontros formativos da etapa pernambucana da campanha “Cidades sem Risco”. Segundo a estudante, o sentido prático de suas atividades traz um senso de propósito que a motiva. “O que mais me interessa é ajudar as pessoas, é estar lá quando precisam da gente, é poder prevenir esses acidentes e mitigar essas ocorrências nas comunidades, é dar atenção às pessoas e levar conhecimento que ajude a evitar que elas se machuquem”, garante Giovana.
A participação de estudantes que, apesar de tão jovens, já demonstram seu engajamento em causas fundamentais para suas comunidades emociona a major Agilana Inojosa, coordenadora da Escola de Defesa Civil de Pernambuco. “Quando vejo as meninas, vejo o quanto os jovens podem transformar a sociedade e ser um futuro - mas não um futuro distante e apenas de esperança, mas sim de ação, de concretude. Daqui a pouco vejo essas meninas como geógrafas, prefeitas, professoras, mudando a comunidade e o entorno delas. Às vezes a gente esmorece, mas ver esse frutos do nosso trabalho nos dá um ânimo e uma energia gigantesca”, ressalta a major Agilana.
Entre a consciência das precariedades e a esperança de futuro, jovens de Natal se capacitam na oficina da campanha Cidades sem Risco
“A partir daqui, ninguém vê nada”. Essa frase, escrita numa ponte pela qual Sabrina de Melo passa diariamente no caminho para a escola, provoca reflexões que inquietam a estudante de 16 anos. Aluna da Escola Estadual Francisco Ivo Cavalcanti, em Natal (RN), Sabrina detecta algumas precariedades que atravessam sua rotina: “Minha mãe é professora e também veio de uma realidade muito difícil e periférica. Hoje em dia, mesmo a educação tendo propiciado a ela a possibilidade de trabalho como professora concursada, ainda sofremos com situações que mostram a marginalização do espaço onde vivemos. Minha rua às vezes alaga completamente, cada chuva é uma angústia e nos sentimos ilhados e invisíveis”.
Ao mesmo tempo em que impõe dificuldades, a dureza da realidade (além das influências da mãe e da madrinha) motivou Sabrina a se engajar socialmente e a escolher sua profissão: professora de Sociologia. Apesar de vislumbrar as dificuldades do ofício, a estudante entende que a educação é o que possibilita mudanças na vida das pessoas. “Reconheço a dificuldade que é você ver a situação dos seus alunos e não saber como mudar; você perceber que talvez não tenha um futuro adequado para eles. E muita gente joga essa responsabilidade nas costas dos professores, mas eles não têm como, por exemplo, evitar que os estudantes vivam em áreas de risco e sofram efeitos dos desastres. Mas eles [os professores] têm como indicar um caminho para eles [os estudantes] saírem dali - e levarem, junto com eles, outras pessoas que vivem naquelas áreas periféricas por falta de escolha”, argumenta a aluna da escola visitada pela equipe do Cemaden Educação, que classificou o encontro formativo como “inesquecível”.

- Ana Cecília de Quadros (esquerda) e Sabrina de Melo (direita) desenvolvem campanha durante o encontro formativo do Cemaden Educação, em Natal, no Rio Grande do Norte. Foto: Leandro Vaz.
É por compartilhar conhecimento voltado à necessidade das pessoas em áreas mais vulneráveis que Ana Cecília de Quadros, também aluna da Escola Francisco Ivo Cavalcanti, gostou tanto do encontro formativo da campanha “#AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco”. A estudante destacou o caráter prático e acessível da atividade, o que viabiliza o envolvimento de diversos públicos. “Achei fantástico! Eu estava procurando qualquer movimento no qual eu pudesse ser útil de alguma forma. Não necessariamente eu vou passar por essa situação [de desastre], mas, se eu vier a passar, alguém vai me ajudar. Então, é justo que eu ajude também”, acredita. Ana Cecília destaca, ainda, a importância de trazer visibilidade para problemas que afetam o cotidiano das pessoas mais vulneráveis. “Esta semana [em abril de 2026] choveu muito aqui na cidade. E ninguém na escola conseguiu completar os cinco dias de aula, pela dificuldade de chegar aqui. Sem contar quem perde suas casas, seus filhos, seus animais de estimação. É algo cotidiano - e, por isso mesmo, é revoltante, porque acontece há tanto tempo e com tanta frequência e, mesmo assim, não gera mobilização”, opina. Na oficina, ela e seu grupo conceberam uma campanha informativa, voltada a instruir as pessoas sobre como proceder em caso de desastres. “As pessoas precisam aprender como agir para ajudar e para serem ajudadas em caso de emergência”, completa a discente.
Exemplos de pessoas que já passaram por desastres e atuaram para reduzir seus impactos, como Alexys Ferreira, de Jaboatão dos Guararapes (PE), indicam um futuro que pode ser o de Sabrina, Ana Cecília e muitos outros estudantes alcançados pelas iniciativas do Cemaden Educação. “Na época eu estudava no IFPE Recife e sempre tive interesse por pesquisa. Esse foi meu pontapé inicial. Hoje faço História na UFRPE e quero ajudar meus alunos, levando projetos desse tipo para ensinar como agir, como ajudar os outros e entender como podem fazer a diferença”, conta Alexys.
Até o dia 15/5, a 9ª edição da campanha “#AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco” está com as inscrições abertas para iniciativas desenvolvidas em comunidades de todo o Brasil. Esta edição da campanha é fruto da parceria entre o Cemaden Educação (MCTI) e a Secretaria Nacional de Periferias, do Ministério das Cidades. Mais informações sobre os eixos temáticos, etapas das campanhas a serem realizadas e regulamento estão disponíveis na página da campanha.
