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Desastres relacionados à água no Brasil aumentam nas últimas três décadas e já afetaram quase 130 milhões de pessoas
Número de desastres relacionados à água (WRD) por categoria e suas respectivas participações em termos de ocorrência, mortes e perdas econômicas no período de 1991 a 2024. (A) mostra o número de ocorrências de WRDs por categoria; (B) apresenta o número de mortes de WRDs por categoria; (C) exibe as perdas econômicas totais estimadas por categoria. As perdas econômicas totais são apresentadas em bilhões de dólares (USD). Para fins de conversão monetária, USD 1,00 (um dólar) é equivalente a BRL 6,00 (seis reais).
Um levantamento inédito publicado na revista científica Environmental Research Letters revela a dimensão e a complexidade dos desastres relacionados à água no Brasil ao longo das últimas três décadas. Os resultados reforçam a relevância da atuação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que há 15 anos monitora e desenvolve estudos sobre riscos e impactos associados a eventos extremos de origem geo-hidrológica.
O estudo, que conta com a participação de pesquisadores do Cemaden, analisou cerca de 60 mil registros oficiais de ocorrências entre 1991 e 2024, incluindo inundações, alagamentos, enxurradas, tempestades, deslizamentos de terra e secas. A análise aponta tendências importantes para a gestão de riscos no país.
De acordo com o trabalho, esses eventos causaram pelo menos 4.774 mortes, deixaram mais de 3 mil pessoas desaparecidas e impactaram diretamente cerca de 129,8 milhões de brasileiros. Os prejuízos econômicos ultrapassam R$ 740 bilhões no período analisado.
Mas a pesquisa vai além do registro quantitativo dos eventos. “Realizamos uma análise detalhada dos impactos dos desastres relacionados à água no Brasil ao longo de mais de trinta anos. Nosso foco não foi apenas quantificar essas ocorrências, mas também avaliar suas variações regionais, identificar quais categorias causam mais fatalidades e localizar as áreas mais afetadas pelos prejuízos econômicos”, explica Elton Vicente Escobar-Silva, pesquisador do Cemaden e primeiro autor do artigo.
“Os padrões nos dados mostram que muitos desses impactos não decorrem apenas de eventos climáticos extremos, mas refletem deficiências antigas nas políticas públicas e na capacitação institucional. Por exemplo, cerca de 1.660 municípios brasileiros ainda não possuem uma Defesa Civil estruturada”, complementa Escobar.
Crescimento dos registros e avanço do monitoramento
O estudo mostra que houve um aumento significativo no número de desastres registrados ao longo do tempo. Parte desse crescimento está associada à ampliação e modernização dos sistemas de registro, especialmente após a implementação do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID), a partir de 2013.
Segundo os autores, esse aumento não indica necessariamente maior frequência de eventos, mas sim maior capacidade de notificação por parte dos municípios. Ainda assim, persistem lacunas, como a subnotificação e a dificuldade de registrar eventos simultâneos ou interdependentes.
Escobar ressalta que a notificação dos desastres na plataforma S2ID só se intensificou após 2019. “Isso indica que, por décadas, o país atuou com monitoramento limitado e preparação insuficiente.”
Tipos de desastres: impactos distintos
Entre os diferentes tipos de desastres analisados, as secas foram as mais frequentes, representando 53,6% dos registros e concentrando 58,5% das perdas econômicas.
Já as inundações se destacam pelo impacto humano, sendo responsáveis por mais de 55% das mortes registradas (2.662). Tempestades e deslizamentos também apresentaram impactos relevantes, especialmente em áreas urbanas e regiões com alta vulnerabilidade socioambiental.
Para o pesquisador, os padrões observados evidenciam problemas estruturais. “A predominância de secas e inundações nos registros de perdas evidencia a lentidão da resposta do poder público para garantir a segurança hídrica, o planejamento do uso do solo e a redução da vulnerabilidade urbana”, afirma.
Diferenças regionais
A análise regional evidencia padrões distintos no território brasileiro:
- Nordeste: maior número de ocorrências, com predominância de secas e elevados prejuízos econômicos;
- Sudeste: maior número de mortes, especialmente associadas a inundações, alagamentos, enxurradas e deslizamentos;
- Sul: alta frequência de eventos como inundações e secas, com impactos econômicos expressivos;
- Norte e Centro-Oeste: destaque para inundações, enxurradas e tempestades, com impactos relevantes.
Além disso, mais de 91% dos municípios brasileiros (5.097) registraram pelo menos um desastre no período analisado, evidenciando a abrangência nacional desses eventos. Para Escobar, essa informação é particularmente crítica. “O dado sugere um subinvestimento crônico na prevenção, nos sistemas de alerta antecipado e na resiliência local”, destaca.

- As 5 cidades brasileiras mais afetadas por desastres relacionados à água em cada região. (A), (B), (C), (D) e (E) representam, respectivamente, as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul.
Desafios para a gestão de riscos
Os pesquisadores destacam que a compreensão dos desastres vai além da análise de eventos isolados. Fenômenos extremos frequentemente ocorrem de forma combinada — como chuvas intensas que provocam inundações, alagamentos, enxurradas e deslizamentos simultaneamente — exigindo abordagens integradas de monitoramento e resposta.
Outro ponto relevante é que os impactos variam conforme fatores como vulnerabilidade social, planejamento urbano, sistemas de alerta e capacidade de resposta dos municípios. Em muitos casos, a redução de mortes ao longo do tempo está associada ao fortalecimento dessas capacidades, mesmo quando os prejuízos econômicos permanecem elevados.
Na avaliação de Escobar, parte significativa dos impactos poderia ser mitigada. “O estudo mostra como a inércia institucional e a governança fragmentada permitiram que os riscos se acumulassem, transformando desastres naturais em perdas humanas e econômicas evitáveis.”
Subsídios para políticas públicas
O estudo fornece um panorama detalhado sobre a ocorrência e recorrência de desastres no Brasil, identificando áreas e municípios mais vulneráveis. Essas informações são estratégicas para orientar políticas públicas, fortalecer ações de prevenção e aprimorar sistemas de alerta precoce.
Para o Cemaden, os resultados reforçam a importância de investimentos contínuos em monitoramento, produção de dados e integração entre instituições, como forma de reduzir riscos e aumentar a resiliência da população frente aos eventos extremos.
Fonte: Ascom/Cemaden (APS)