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Desastres socioambientais chamam a atenção para o funcionamento do Centro, voltado ao acompanhamento e emissão de alertas diante de riscos às populações em áreas suscetíveis
Coordenador do Cemaden apresenta sistema de monitoramento do Centro a correspondente da DW Brasil
Na tarde da última quinta-feira (5/3), o coordenador-geral de Operações e Modelagens do Cemaden, Marcelo Seluchi, recebeu a jornalista Nádia Pontes, correspondente da Deutsche Welle Brasil, para explicar o funcionamento da Sala de Situação e do sistema de monitoramento do Centro.
Seluchi destacou a evolução das ferramentas de acompanhamento de riscos no país, que se tornaram mais objetivas e assertivas ao longo dos anos, e salientou a importância do trabalho articulado de diferentes especialistas para a detecção de riscos e interpretação de seus significados e potenciais impactos. O coordenador-geral explicou, ainda, que o Cemaden não envia alertas diretos para as populações suscetíveis a riscos, mas oferece insumos para a atuação de gestores públicos locais.
Criado em 2011 a partir de uma catástrofe na Região Serrana do Rio de Janeiro, o Cemaden transformou a maneira como o Brasil lida com eventos extremos. No início, sem sede própria ou rede de dados, a equipe — composta por poucos especialistas — enfrentou muitos desafios para estabelecer a rede de monitoramento e alertas. Hoje o Centro opera com tecnologia de ponta, monitorando mais de 3.000 pluviômetros próprios, além de dados de radares meteorológicos, satélites e descargas elétricas.
Mais objetividade nos alertas e previsões
Um dos avanços do Cemaden foi a redução da subjetividade na emissão de alertas. No passado, a decisão estava mais sujeita a interpretações dos especialistas da instituição. Atualmente, o Cemaden utiliza ferramentas como o GeoRisk (georisk.cemaden.gov.br), um sistema que aplica equações matemáticas e modelos objetivos para calcular o risco de deslizamentos de terra.
O sistema cruza dados de chuva acumulada, previsão meteorológica e vulnerabilidade do terreno para gerar um índice de risco que varia de "Extremamente Baixo" a "Extremamente Alto". Essa tecnologia permite antecipar cenários de movimentos de massa em até três dias e riscos hidrológicos em até dez dias.
As ciências do risco: multidisciplinaridade no enfrentamento às vulnerabilidades
O monitoramento não é apenas meteorológico. As equipes de plantão do Cemaden, que operam 24 horas por dia, são multidisciplinares, unindo especialistas em Meteorologia, Geodinâmica, Hidrologia e Vulnerabilidade Social. Essa integração é imprescindível, porque a ocorrência de um desastre depende da combinação entre as ameaças naturais e as suscetibilidades locais — que são bastante diversas, sobretudo em um país com as dimensões e o número de municípios do Brasil.
Marcelo Seluchi, do Cemaden, avalia que "cem milímetros não são a mesma coisa em todos os lugares". Fatores como a intensidade da chuva (o volume de chuva de 100 mm em duas horas costuma ser mais perigoso do que em dois dias, por exemplo), a umidade prévia do solo, elementos do relevo, a presença de "cicatrizes" de deslizamentos antigos e o assoreamento de rios influenciam o impacto. Assim, dois municípios podem receber a mesma quantidade de chuva, mas sofrer consequências distintas, devido às suas características físicas e sociais. O especialista observa também que qualquer sistema de previsão, por mais avançado que seja, tem suas limitações.
O fluxo dos alertas
Uma informação reiterada por Seluchi na entrevista à DW Brasil é que o Cemaden não envia alertas diretamente para a população – mas, sim, para as Defesas Civis, para que elas consigam planejar suas ações locais com base nas evidências científicas. O processo segue um fluxo técnico rigoroso:
- Monitoramento: A equipe técnica decide pela emissão do alerta com base na conjunção de chuva, previsão e vulnerabilidade.
- Alerta técnico: O documento emitido é detalhado e utiliza linguagem técnica sobre feições geodinâmicas e cenários de risco. Ele é enviado para as Defesas Civis municipais, estaduais e nacional.
- Ação na ponta: Cabe exclusivamente ao poder público de cada município — que possui autonomia — interpretar esse documento e decidir se aciona sirenes, envia SMS, inicia evacuações ou adota outros procedimentos presentes nos planos municipais de contingência.
Embora o Cemaden não envie alertas diretamente aos cidadãos, o órgão promove a transparência e o acesso à informação por meio de seu Mapa Interativo. Nessa plataforma, é possível consultar os níveis de precipitação em tempo real, visualizando dados da rede de pluviômetros que informam o acumulado de chuva nas últimas horas e dias. Além disso, o Cemaden disponibiliza os boletins de alerta em seu site oficial, permitindo que a população acompanhe quais municípios estão sob risco e qual a gravidade da situação (moderada, alta ou muito alta) para eventos hidrológicos (inundações e/ou enxurradas) e geológicos (movimentos de massa).
Desafios das respostas municipais aos alertas do Cemaden
Neste cenário de evolução nos sistemas de monitoramento e alertas, a maior fragilidade do sistema reside, portanto, na diversidade da capacidade de resposta dos municípios. O coordenador-geral do Cemaden ressalta que, enquanto cidades como Petrópolis e Angra dos Reis possuem protocolos avançados (por vezes desenvolvidos após grandes tragédias), como o fechamento de ruas e sistemas próprios de alarme, muitos municípios de pequeno porte carecem de planos de contingência e equipes capacitadas para a atuação em cenários emergenciais.
Além das limitações logísticas e operacionais, há o desafio cultural: muitas vezes, a população resiste a deixar suas casas por não acreditar no risco. O sucesso de um alerta depende, então, do fortalecimento das Defesas Civis locais e da educação da população para que saiba como agir ao receber um aviso de perigo.
Correspondente da DW Brasil especializada na cobertura de meio ambiente e ciência há mais de 15 anos, a jornalista Nádia Pontes relata que acompanhou o surgimento do Cemaden, e agora está produzindo uma reportagem sobre a evolução dos sistemas de preparo e respostas do Brasil para lidar com o agravamento da crise climática.