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Com pesquisas de ponta, Cemaden recebe workshop de projeto entre Brasil e Reino Unido
Workshop anual da CSSP Brazil reuniu cerca de 50 pesquisadores que atuam em instituições de pesquisa do Brasil e do Reino Unido
As mudanças climáticas geram impactos globais – e, por isso, demandam pesquisas e respostas articuladas, tanto entre áreas de conhecimento quanto entre diferentes regiões do mundo. De 16 a 18/6, o Cemaden foi uma das sedes, no Brasil, do workshop anual da Parceria Ciência para Serviços Climáticos Brasil (Climate Science for Service Partnership – CSSP, na sigla em inglês).
No dia 16/6, a mesa de abertura da edição de 2026 do workshop foi realizada no INPE e contou com a participação do coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, Jose Marengo. Em sua fala, Marengo enfatizou que, no Brasil, os desastres são fundamentalmente climáticos, o que torna o estudo do clima indissociável da gestão de riscos e da emissão de alertas de desastres realizadas pelo Cemaden. Ele ressaltou que as pesquisas desenvolvidas no âmbito da CSSP Brazil têm ido além da região Amazônica, uma vez que os desastres afetam diversas regiões do país. Marengo também alertou para o aumento na frequência e na abrangência das secas no Brasil e mencionou a importância de estudar eventos compostos (seca e calor simultâneos), que têm impactos severos na biodiversidade. O coordenador-geral argumentou que a ciência e o entendimento técnico não bastam; para ele, é preciso investir na educação e na comunicação, para que as populações e os governantes percebam os riscos e adotem as ações necessárias para mitigar os impactos de eventuais desastres.

- No Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do INPE, o coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento, Jose Marengo, representa o Cemaden durante a mesa de abertura do workshop anual da CSSP Brazil.
O auditório do Cemaden recebeu, no dia 17/6, os cerca de 50 pesquisadores participantes do workshop. A maior parte da programação do segundo dia teve enfoque na área de impactos e redução de riscos de desastres e contou com apresentações de pesquisadores do Centro.
Antecipação de riscos geológicos
Um dos destaques foi a apresentação do tecnologista do Cemaden Henri Pinheiro sobre a ferramenta Weather Pattern Forecasting (WPF), voltada à previsão de deslizamentos. O estudo, desenvolvido em parceria com outros pesquisadores do Cemaden, demonstrou que é possível identificar sinais de alto risco com uma antecedência de 7 a 14 dias, ampliando significativamente a janela tradicional de alerta. O sistema foi testado com sucesso durante o evento de Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) em janeiro de 2026, que resultou em 82 ocorrências de deslizamentos no Sudeste brasileiro. Além disso, a observação de dados históricos de deslizamentos – com a contribuição do sistema de Registros de Eventos de Inundação e Deslizamentos (REInDesc), ferramenta desenvolvida no Cemaden – contribuiu para incrementar a previsão de riscos. A conclusão dos autores é que a ampliação do período de previsão viabilizada pela ferramenta Weather Pattern Forecasting tem o potencial de complementar sistemas de previsão e de alerta.

- Henri Pinheiro, tecnologista do Cemaden, apresenta pesquisa sobre previsão de deslizamentos de terra.
Monitoramento de secas e segurança alimentar
Em sua apresentação, o pesquisador do Cemaden Marcelo Zeri revelou avanços no monitoramento de secas com a inclusão de variáveis de temperatura. Zeri destacou que, em um cenário de demanda crescente por água e alimentos, mudanças climáticas e intensificação de eventos extremos, é fundamental tanto monitorar quanto prever ocorrências que impactem o setor agrícola. A proposta utiliza o Índice de Temperatura Padronizado (Standardized Temperature Index – STI, na sigla em inglês) para refinar o diagnóstico de impactos na vegetação. Os resultados indicam que o novo índice, denominado IISt3, apresenta desempenho superior para prever secas na Amazônia e na Caatinga, regiões onde o calor extremo potencializa os danos à agricultura. Além de testes em períodos mais longos, os autores da pesquisa apontam o potencial da combinação entre o novo índice e modelos de previsão subsazonais (ou seja, mais longas que as previsões do tempo para alguns dias e mais curtas que as projeções para os meses de uma estação do ano).

- Marcelo Zeri, pesquisador em agrometeorologia, durante sua apresentação no workshop anual da CSSP Brazil.
O fenômeno do “veranico de fevereiro”
Outro trabalho foi apresentado pelo pesquisador do Cemaden Christopher Cunningham, que detalhou as propriedades dos veranicos (dry spells) no Sudeste brasileiro durante a estação chuvosa. O estudo apontou que janeiro e fevereiro, apesar de serem meses de pico chuvoso na região, apresentam características mais secas que dezembro, com chances de veranicos prolongados (mais de 10 dias) chegando a 18% em janeiro e 26% em fevereiro – ante 9% em dezembro. Esses períodos secos são críticos para o "Quadrilátero dos Reservatórios", área que armazena 65% da água do país e gera um terço da eletricidade nacional, onde déficits de chuva podem ultrapassar 40% em anos severos.

- O fenômeno do "veranico" de fevereiro foi tema da apresentação do pesquisador em meteorologia do Cemaden Christopher Cunningham.
Sobre a CSSP Brazil
Com a participação de Cemaden, INPE e INPA, a CSSP Brazil é uma das componentes de uma rede de parcerias entre o Met Office (a agência climática do Reino Unido), universidades e instituições de pesquisa – rede esta que envolve, ainda, países como China, Índia e África do Sul. Em sua apresentação na mesa de abertura do workshop, o representante do Met Office, Andy Hartley, destacou alguns números da parceria entre Brasil e Reino Unido: juntos, os mais de 100 pesquisadores das 22 instituições de pesquisa que integram a rede da CSSP Brazil já publicaram mais de 180 artigos científicos, acumularam mais de 10,7 mil citações acadêmicas e 400 menções em documentos de políticas públicas ao redor do mundo, além de promoverem a capacitação de mais de 350 pesquisadores – ampliando as possibilidades de avanço no conhecimento.

- Andy Hartley, do Met Office, apresenta alguns números da parceria entre Brasil e Reino Unido para as pesquisas em ciência climática.
Além do eixo de impactos climáticos e redução de riscos de desastres, a parceria abrange pesquisas em modelagem climática e ciclo do carbono, com o objetivo de viabilizar uma resposta integrada às mudanças climáticas.