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Cidades sem Risco: No Quilombo da Fazenda, em Ubatuba, diferentes gerações se unem em prol da preservação e cuidado
No Quilombo da Fazenda, crianças interagem com o meio ambiente e constroem relação de respeito e conhecimento empírico. Foto: Leandro Vaz.
Dona Laura e Maria Flor são separadas, em datas de nascimento, por algumas décadas. Mas, nos objetivos e ideais de vida, elas se encontram: a perpetuação de saberes e culturas ancestrais aliada à preservação ambiental. A luta por reconhecimento e visibilidade junto ao poder público e os papéis de liderança por elas exercidos marcam suas atuações no Quilombo da Fazenda e todo o território adjacente, em Ubatuba. A itinerância da campanha #AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco passou por lá no dia 25/3, e encontrou muita sabedoria, cultura e respeito pelo ambiente que nos abriga - além de alguns impactos que eventos como chuvas fortes podem ocasionar em localidades menos assistidas.

- Quilombo da Fazenda, em Ubatuba, recebe equipe da campanha #AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco, com integrantes do Cemaden Educação e da Secretaria Nacional de Periferias. Foto: Leandro Vaz.
Como reflexo das mudanças climáticas, Dona Laura rememora as transformações na relação entre as pessoas de sua comunidade e o ambiente. “Antigamente, nossos ancestrais olhavam para o céu e sabiam se ia ventar, se ia chover. Hoje a gente perdeu esse conhecimento, e a gente não consegue mais se prevenir. Hoje vem de repente, o rio enche e alaga tudo e muita gente não consegue sair. Uma parte dessas mudanças climáticas é responsabilidade do ser humano”, argumenta.
Aos 70 anos de idade, ela relembra, ainda, as circunstâncias do descaso quando da morte de sua mãe, há 50 anos: “Quando minha mãe morreu, ela ficou dois dias presa do outro lado do rio, porque não tinha como passar. A gente tinha a esperança de uma ponte. São coisas com as quais convivemos há muito tempo, e o poder público não costuma olhar pra gente”, destaca a líder comunitária do Quilombo da Fazenda, militante do Fórum de Comunidades Tradicionais e presidente do Conselho Municipal Quilombola de Ubatuba. Segundo dona Laura, o Exército brasileiro estava presente no quilombo, em março de 2026, para construir uma ponte provisória.
Maria Flor, de 12 anos, também reporta precariedades que ela e seus amigos mirins já precisaram enfrentar. “Quando chovia, mesmo que fosse na cabeceira do rio, a gente ficava preso na escola; chegamos a passar várias noites na escola por causa disso”, afirma a liderança mirim do Fórum de Comunidades Tradicionais da região da Costa Verde (que abrange o litoral Norte de São Paulo e litoral Sul do Rio de Janeiro). Ela aprendeu em casa sobre a importância da relação respeitosa com a natureza e, também, sobre a necessidade da luta pela preservação de sua cultura, tradições e modos de vida. Seu pai, comumente reconhecido por Mário Gato, e sua mãe, Carol Barbosa, são exemplos práticos de resistência, luta e liderança pelo bem-viver das comunidades tradicionais, através da cultura, saúde e tradição de seus costumes. Por isso, Maria Flor tornou-se liderança mirim do Fórum de Comunidades Tradicionais, espaço em que pleiteia coisas básicas para seu futuro: água limpa para beber e um solo fértil para brincar e cultivar. Sua atuação inclui a realização de rodas de conversa com cerca de 30 crianças da comunidade, para compartilharem suas rotinas e aprenderem com artesãos locais sobre seu trabalho. “Minha família é toda do Fórum de Comunidades Tradicionais, e sempre acompanhei as atividades com eles. Aí eu comecei a refletir e pensei: ‘mas eu também quero ajudar’. Aí eu comecei a juntar crianças de vários territórios, e hoje somos uma equipe e uma família”, detalha Maria Flor, que entoou, durante a passagem da itinerância da campanha Cidades sem Risco pelo Quilombo da Fazenda, o lema “FCT mirim, o futuro das tradições”.

- Aos 12 anos, Maria Flor desponta como liderança em sua comunidade e fala sobre a harmonia entre pessoas e meio ambiente. Foto: Leandro Vaz.
O encontro no Quilombo da Fazenda foi marcado pela diversidade: representantes do Fórum de Comunidades Tradicionais, organizações da sociedade civil, escolas, gestores das unidades de conservação, comitê de bacias hidrográficas, Defesa Civil, Prefeitura e Câmara Municipal de Ubatuba, entre outros parceiros, estiveram presentes no evento promovido pela campanha #AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco. E, assim como Maria Flor, as crianças da comunidade marcaram presença no encontro formativo e participaram de uma oficina específica. Entre elas estava o Joaquim, irmão de Maria Flor que está na foto de abertura desta reportagem - numa representação da relação de intimidade e respeito entre pessoas e ambiente (que, por vezes, se perde nas grandes cidades).
Oficina de desenhos expressa o conhecimento das crianças
Se a conversa direta sobre assuntos difíceis como os desastres pode não ser o método mais adequado para crianças pequenas, o desenho é uma forma de expressão potente. Essa foi a conclusão a partir das produções resultantes da oficina promovida no Quilombo da Fazenda pela professora Rejane Lucena, do Cemaden. Enquanto os adultos desenvolviam suas ideias de campanhas, os pequenos e pequenas foram estimulados a pensar sobre o que é um desastre, se e quando vivenciaram algum desastre e o que poderia ser feito para evitar danos maiores. Entre os desenhos, produzidos por crianças de 3 a 5 anos, estão uma ilustração da lama invadindo as casas e uma outra que mostra pessoas em andares superiores de edificações para se abrigarem das inundações.

- Desenhos produzidos durante oficina do Cemaden Educação com crianças do Quilombo da Fazenda, em Ubatuba. Foto: Leandro Vaz.
A partir dessa aplicação dos recursos a eles acessíveis para fazerem sentido da realidade vivida, observa-se que as crianças demonstram a compreensão dos acontecimentos em suas comunidades. “Em Ubatuba, a escola afirmou-se como espaço de escuta e construção compartilhada, onde a arte mediou o encontro entre saberes científicos e comunitários. As crianças demonstraram profundo conhecimento do território, reconhecendo sinais da natureza e práticas de cuidado. Esse saber fortalece a construção de comunidades mais seguras e resilientes”, analisa a pedagoga e tecnologista do Cemaden Rejane Lucena, que conduziu a oficina com as crianças em Ubatuba.
Única professora quilombola da escola do Quilombo da Fazenda, a pedagoga e socióloga Vera Lúcia Braga aprovou a atividade e se surpreendeu com o resultado. “Nem eu sabia que as crianças teriam tanta facilidade para demonstrar, nos desenhos, o sofrimento que vem das enchentes e da dificuldade de vir para a escola”, avalia Vera Braga. A professora considera, ainda, que o encontro formativo do Cemaden Educação e da Secretaria Nacional de Periferias dialoga diretamente com o que ela leva para a sala de aula: a defesa de uma relação adaptativa e sustentável com o local de pertencimento. “Eu ensino para os meus alunos que, se você for extrair alguma coisa da mata, tem que deixar a matriz. Se tem três cachos de alguma coisa, você vai colher dois e deixar um, até para os animais poderem levar para lugares que não alcançamos”, exemplifica a docente quilombola.
Inscrições prorrogadas
Até o dia 25/5, a 9ª edição da campanha do Cemaden Educação (em parceria com a Secretaria Nacional de Periferias, do Ministério das Cidades) está com as inscrições abertas para iniciativas desenvolvidas em comunidades de todo o Brasil. Mais informações sobre os eixos temáticos, etapas das campanhas a serem realizadas e regulamento estão disponíveis na página da campanha.

