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Cemaden capacita gestores públicos do Acre sobre mudanças climáticas, percepção de riscos e prevenção de desastres
Tiago Bernardes, tecnologista do Cemaden, apresenta a Sala de Situação
Na última terça-feira (10/3), uma comitiva da Associação dos Municípios do Acre (AMAC), composta por prefeitos e gestores locais e acompanhada por representantes do Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC), realizou uma visita técnica ao Cemaden. A agenda, articulada pela Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil (IRI-Brasil) em cooperação com o TCE-AC, teve o objetivo de disseminar o conhecimento científico e capacitar os tomadores de decisão acreanos diante do aumento de eventos climáticos extremos, como secas e inundações severas, que atingiram recordes históricos na região em 2024.
O trabalho do Cemaden e dados de monitoramento de secas
A coordenadora de Relações Institucionais do Cemaden, Ana Paula Cunha, recebeu a delegação e destacou o papel fundamental do Centro como
unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Ela reforçou a missão institucional de prover serviços climáticos essenciais para a redução de riscos e esclareceu que o Cemaden monitora ininterruptamente mais de 1,1 mil municípios brasileiros considerados prioritários para desastres hidrológicos e geológicos, além de realizar o monitoramento de seca em todos os 5.570 municípios do território nacional.Durante a palestra de abertura, Cunha enfatizou que o Cemaden atua na fronteira entre o conhecimento científico e a gestão pública, transformando dados técnicos em diagnósticos socioambientais que auxiliam na salvaguarda de vidas e na mitigação de impactos nos setores produtivos do país. Essa integração é vital para estados amazônicos como o Acre, onde as condições geo-hidro-meteorológicas exigem respostas rápidas e fundamentadas em ciência de ponta. Além de apresentar um panorama do funcionamento do Cemaden, a coordenadora destacou os dados relativos ao monitoramento de secas – um dos três tipos de desastres que mais assolaram o Acre na última década, de acordo com dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil (2015-2024).
Estrutura das defesas civis e projetos de pesquisa
O sociólogo do Cemaden Victor Marchezini apresentou um diagnóstico sobre as capacidades organizacionais de 2.289 defesas civis municipais no Brasil e sublinhou que o monitoramento de áreas de risco continua sendo um dos maiores desafios municipais. Ele detalhou as atividades do Projeto COPE (Capacidades Organizacionais de Preparação para Eventos Extremos), que conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, processo 2022/02891-9) e é voltado a entender como governos locais podem se preparar melhor para crises climáticas, principalmente diante de eventos extremos de tempo e clima, como secas e chuvas extremas e ondas de calor.Marchezini também abordou o Projeto ELOS, que realizou o diagnóstico das necessidades e capacidades dos órgãos municipais de Proteção e Defesa Civil. Um dos achados da pesquisa foi que 59% das 1.993 defesas civis municipais que responderam o levantamento tinham apenas um ou dois integrantes em suas equipes.
Histórico das mudanças climáticas e a situação atual
Quando falamos em mudanças climáticas, do que se trata? Qual é o papel das atividades humanas nesse contexto de intensificação dos extremos do clima? O coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi, discutiu a natureza dos desastres climáticos atuais e apresentou dados históricos da emissão anual de CO2. O especialista enfatizou que o Brasil figura na quarta colocação entre os países com maior acúmulo de emissões entre 1850 e 2021. Seluchi alertou que, em 2018, quatro em cada 100 pessoas residentes no Brasil estavam expostas a risco de desastres, com destaque para o percentual do Sudeste (10,0% da população em municípios suscetíveis). Num contexto de urbanização acelerada e aumento populacional, eventos extremos são uma realidade definitiva, cada vez mais frequente e que exige adaptação estrutural imediata.O coordenador-geral detalhou como o aquecimento global tem intensificado o ciclo hidrológico, resultando em extremos de chuva e seca mais frequentes, como os observados historicamente no Acre. Esse aumento se reflete nos quantitativos de alertas emitidos pelo Cemaden, que apresentam tendência de crescimento ao longo dos anos de existência do Centro. Segundo Seluchi, a ciência fornece os diagnósticos necessários para que os gestores compreendam essas ameaças e priorizem investimentos em resiliência climática para proteger as populações mais expostas.
Sistemas de alerta e visita à Sala de Situação
Com seu “paredão” repleto de mapas em constante movimento, a Sala de Situação do Cemaden chama a atenção dos visitantes, que ficam curiosos para compreender o trabalho das equipes que ali trabalham. O coordenador-geral de Operações e Modelagens substituto, Giovanni Dolif, explicou o funcionamento dos sistemas de previsão e alerta e demonstrou como modelos meteorológicos são integrados a dados observacionais para prever inundações e deslizamentos. Ele ressaltou que a eficácia de um alerta depende da sua capacidade de chegar pontualmente às mãos das defesas civis locais, para que elas possam disparar os protocolos de evacuação e assistência.
Além das explicações sobre seu funcionamento, o grupo conheceu a Sala de Situação, onde o tecnologista Tiago Bernardes apresentou a operação. Bernardes explicou que uma equipe multidisciplinar de 42 especialistas monitora dados de meteorologia, hidrologia e geociências em tempo real. Além dessas especialidades, a equipe da Sala de Situação é composta por profissionais voltados à dimensão social dos desastres, de modo a incorporar a dimensão humana das vulnerabilidades no trabalho de monitoramento e na decisão pela emissão de alertas. A partir dessa visão multidisciplinar, os dados são analisados e os alertas, enviados ao Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad) e às autoridades estaduais e municipais.
Novo PAC e os investimentos na rede observacional
O chefe da Divisão de Monitoramento e Operações da Rede Observacional (DIMOR) do Cemaden, Gustavo Souza, detalhou a infraestrutura de sensores espalhada pelo território nacional, cuja manutenção consome cerca de 80% do orçamento anual do Centro. Ele trouxe perspectivas positivas para o estado do Acre, detalhando a ampliação da rede de monitoramento por meio de recursos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal.O planejamento do Novo PAC prevê a instalação de dezenas de pluviômetros automáticos e estações de monitoramento em municípios acreanos. Souza destacou que esses novos equipamentos utilizam tecnologia IoT (Internet das Coisas) com transmissão via 4G/5G, o que aumentará significativamente a precisão dos diagnósticos de risco e a segurança da população em áreas remotas da Amazônia.
Educação e percepção de riscos
Para disseminar um olhar atento aos riscos de desastres e promover a educação com foco na justiça climática, o Cemaden conta com o Programa Cemaden Educação, coordenado por Rachel Trajber. Na visita dos prefeitos e gestores acreanos, a pedagoga Jeniffer Souza, da equipe do programa, abordou a importância de fomentar uma cultura de prevenção nas escolas e comunidades. O programa promove a ciência cidadã, engajando estudantes e professores no monitoramento participativo das chuvas e na construção de cartografias sociais de risco.Souza apresentou a campanha nacional "#AprenderParaPrevenir: Cidades sem risco", que busca potencializar o engajamento comunitário e a resiliência das populações mais suscetíveis a riscos. A campanha, promovida pelo Cemaden Educação, está em sua 9ª edição e parte de uma concepção de “campanha de campanhas” – ou seja, a ideia é que os educadores e mobilizadores locais reproduzam, em suas comunidades, as iniciativas que façam mais sentido para cada realidade. A pedagoga do Cemaden Educação ressaltou que os desastres não são naturais – mas são, ao mesmo tempo, sintomas e resultados das vulnerabilidades sociais. Ela apresentou, ainda, os materiais gratuitos disponíveis no site do Cemaden Educação, para usos em iniciativas nos municípios dos visitantes.
IRI Brasil: a integração entre ciência e influência social de lideranças religiosas
O coordenador-geral da IRI Brasil, Carlos Vicente, ressaltou a importância estratégica de unir o rigor da ciência produzida em instituições como o Cemaden e o alcance social das lideranças religiosas. Vicente afirmou que os líderes de fé, por estarem enraizados nas comunidades, são canais imprescindíveis para que a informação científica seja compreendida e transformada em ação direta de cuidado com a vida e com as florestas.
"Os problemas ambientais estão aumentando, e a ciência tem ferramentas para detectar e propor soluções. Já os líderes religiosos estão próximos das pessoas que sofrem, diretamente, os impactos desses problemas. Há muita desinformação circulando, e essa desinformação precisa ser vencida com a verdade científica temperada com o compromisso do amor ao próximo", declarou Carlos Vicente. Para ele, o encontro no Cemaden fortalece esse diálogo, permitindo que a ciência ganhe mais sentido humano ao interferir positivamente na realidade de quem mais sofre com os impactos dos desastres ambientais.
Avaliação da presidência do TCE-AC
A presidente do Tribunal de Contas do Estado do Acre, Dulce Benício, exaltou o caráter formativo da visita ao Cemaden. Ela acredita que esse embasamento contribui para que, ao voltarem para seus municípios, os prefeitos e demais gestores promovam iniciativas que fortaleçam a capacidade de adaptação das populações vulneráveis dos municípios acreanos. Segundo ela, os gestores municipais, como principais formuladores de políticas públicas, precisam ter acesso direto a esses conhecimentos científicos para enfrentar com urgência os desafios climáticos. A presidente reafirmou o compromisso do TCE-AC em continuar apoiando soluções construídas em cooperação para proteger os territórios e as comunidades do estado.





