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Povos da floresta transformam Campus em território de conexões; no Parque, novas exposições são abertas
Museu Goeldi I COP30 com Ciência – O Mapinguari, figura simbólica da Amazônia conhecida por devorar aqueles que vivem da destruição da floresta, foi quem conduziu a ‘chegança’ dos Povos da Floresta, no Campus de Pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), na abertura da programação do ‘Espaço Chico Mendes e Fundação BB na COP 30’, na noite da sexta-feira, e na programação deste sábado. O Parque Zoobotânico também deu início à temporada de eventos da COP30, com a abertura de duas exposições: “Brasil: Terra Indígena”, com mais de 2 mil peças que retratam a cultura e a permanência indígena no país, e "Impressões da Floresta", com painéis com formas e pigmentos da flora.
Com a presença de populações tradicionais vindas de diversas localidades da Amazônia, na noite da sexta-feira, a base científica do Museu Goeldi (Campus) se transformou em ‘território’ onde os conhecimentos tradicional e popular reforçam o protagonismo da instituição na agenda de debates climáticos. Após a mística de abertura, as comunidades extrativistas, lideranças populares e juventudes das águas e da floresta foram recebidas pelos representantes das organizações realizadoras do evento, entre eles, Angélica Mendes e Ângela Mendes, neta e filha, respectivamente, do líder seringueiro e patrono do Meio Ambiente, Chico Mendes; do diretor do Museu Goeldi, Nilson Gabas Júnior, e de Júlio Barbosa, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).
O espaço ao ar livre, montado em frente ao Auditório Paulo Cavalcante, com capacidade para receber até trezentas pessoas, foi inteiramente ocupado, inclusive pela população do entorno do Campus, que também esteve presente para prestigiar o início das atividades e as apresentações culturais da noite. Nilson Gabas Júnior destacou essa conexão histórica estabelecida entre o Museu Goeldi e os povos da floresta na produção do conhecimento sobre a Amazônia. “Desde que o Museu Goeldi foi concebido, há quase 160 anos, os cientistas e naturalistas sabem que o conhecimento vindo das populações tradicionais é importante para o conhecimento global da floresta. Então, essa imbricação entre tradição e ciência é algo que sempre buscamos. E o resultado disso é a gente conseguir fazer coisas em conjunto”.
Estudo do Museu são subsídios – Exemplo desse trabalho conjunto são os estudos desenvolvidos pelo Museu Goeldi que fornecem subsídios para a criação de novas Reservas Extrativistas (Resex), um dos legados de Chico Mendes. As Resex são unidades de conservação que visam proteger os meios de vida e a cultura das populações locais, garantindo o uso sustentável dos recursos naturais. Ângela Mendes, presidente do Comitê Chico Mendes, afirma que não haveria como falar de COP30 sem fazer essa conexão. “Estando na Amazônia e falando do legado de Chico Mendes, o nosso tema principal e puxador do nosso espaço teria que ser as reservas extrativistas como um direito do território, direito à regularização fundiária e como justiça socioambiental para os povos”.
Outra iniciativa é o projeto “Restaurando a Mata”, tecnologia social desenvolvida em parceria com aldeias do território indígena Tupinambá, no coração da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. A iniciativa busca restaurar a harmonia entre a floresta e as comunidades, associando o manejo florestal ao enriquecimento com espécies de árvores escolhidas pelas próprias aldeias. Trata-se de uma resposta aos desafios impostos pelas mudanças climáticas como secas intensas, incêndios e degradação ambiental que ameaçam não apenas a biodiversidade, mas também o modo de vida de povos tradicionais.
A pesquisadora e coordenadora de Pós-graduação do Museu Goeldi, Marlúcia Martins, também reforçou a parceria com as comunidades tradicionais e destacou o trabalho desenvolvido pelo MPEG e outras instituições parceiras nos últimos cinco meses através dos Ciclos de Diálogos COP 30 com Ciência. “É uma parceria que concretiza o nosso discurso. Nós nos preparamos para essa COP através de vários Ciclo de Diálogos e em todos eles nós tivemos a presença da sociedade e foi reiteradamente dito a importância da parceria entre a pesquisa e as comunidades tradicionais. E esse é o momento disso se tornar uma coisa objetiva, concreta”.
As juventudes no debate climático – Neste sábado (8/11), a condução dos debates ficou por conta da juventude extrativista, que refletiu sobre os resultados que espera-se alcançar nesta COP30. Estes resultados serão incluídos em um relatório com as principais demandas apontadas. Matheus Azevedo, coordenador da Juventude do CNS, destaca esse papel na continuidade do legado de resistência dos povos extrativistas.
“Nessa COP, a gente espera sair só dos acordos e dos papéis assinados. As nossas juventudes falam, mas também agem. E os nossos líderes globais precisam sair do discurso e avançar para as práticas efetivas, para que isso possa garantir a manutenção das vidas, não só nas florestas, mas nas cidades em todo mundo. Pelo caminho que estamos seguindo, com esse modelo predatório de exploração, não vamos conseguir chegar ao mundo ideal sonhado por Chico Mendes. E a juventude tem esse papel de levantar um novo legado, uma nova forma de nação que possa realmente olhar para os povos da floresta enquanto fundamentais para a manutenção da vida no planeta”, disse.
À tarde, houve o lançamento da pesquisa “Populações extrativistas da Amazônia e sua importância nas negociações da COP 30: perspectivas locais para guiar negociadores(as), tomadores de decisão e formuladores de políticas públicas”, que embasou os debates que ocorreram em seguida, no auditório Paulo Cavalcante. O documento pode ser baixado aqui.
O Espaço Chico Mendes - O “Espaço Chico Mendes e FBB na Cop 30” é o resultado da parceria entre as fundações Chico Mendes e Xapuri com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), o Comitê Chico Mendes, o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e a Fundação Banco do Brasil. A programação segue no Campus de Pesquisa até o dia 21 de novembro. Acompanhe aqui.
Público pode visitar duas novas exposições
O público visitante do Parque Zoobotânico – que estará aberto todos os dias, das 9h às 16h, durante a COP30, com entrada gratuita – tem mais duas exposições para conhecer. A primeira é a Brasil: Terra Indígena, promovida a partir da parceria entre o Museu Goeldi, o Instituto Cultural Vale e sua unidade vinculada, o Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM), contando ainda com o apoio do Instituto Moreira Salles. A exposição tem a curadoria de Gabriel Gutierrez, diretor do CCVM. Ao lado da equipe do Museu Goeldi, representada pelo diretor Nilson Gabas Júnior, da técnica do acervo etnográfico, Suzana Karipuna, e do coordenador de Museologia, Emanoel Fernandes, Gutierrez ressaltou o privilégio de inaugurar a exposição no Museu Goeldi, instituição científica atuante na Amazônia há quase 160 anos.
“A proposta é que as pessoas aprendam mais sobre as particularidades dos povos indígenas, entendam que a permanência deles, desde o período anterior ao da colonização, continua. É uma permanência. Eles estão presentes em todos os estados do Brasil, em todos os biomas”, explicou o curador, considerando a COP um momento oportuno para as reflexões que a mostra provoca. “Dentro de uma democracia fortificada, a gente consegue perceber e afirmar cada vez mais que o Brasil é indígena. A ideia é as pessoas se reconhecerem enquanto indígenas e entenderem a visão integrada que os povos indígenas estão oferecendo para a gente repensar o mundo”, sintetizou.
O diretor Nilson Gabas Júnior afirmou que a exposição apresenta, com muita contundência, a diversidade dos povos indígenas do Brasil. “A gente precisa, a partir do conhecimento, aprender a valorizar o legado dos povos originários. O resultado desta mostra é contundente, no sentido de ser, além de belíssimo, visualmente, muito bem concebido”, disse ele, ressaltando a missão do Museu Goeldi, quando une arte e política no contexto da COP. “A nossa missão é educar, é mostrar que os povos indígenas possuem as suas demandas, que são muitas, e que precisam ser valorizadas, respeitadas e atendidas”.
Próximo à saída do Parque Zoobotânico, o Castelinho recebeu onze painéis idealizados por Ana Leal e Laura Calhoun, com matéria-prima da Floresta Nacional de Caxiuanã, onde as duas artistas ministraram oficinas à comunidade que vive no entorno da Estação Científica Ferreira Penna do Museu Goeldi. Na abertura da exposição Impressões da Floresta, o artista plástico Alexandre Sequeira falou sobre a importância do trabalho. “Poderia falar do valor da sustentabilidade, do valor estético, mas o mais bonito é pensar que, através dessa técnica, Ana e Laura promovem para essa população a oportunidade, não só de reconhecer e valorizar o seu entorno, como também de reproduzir elementos que acabam se traduzindo em símbolos, como bandeiras do local”, resumiu.
Diretora substituta do Museu Goeldi, Roseny Mendonça celebrou a presença da exposição na programação do Parque, durante a COP. “É mais uma parceria do Museu Goeldi que reforça seu papel na promoção da arte, da ciência e da troca de saberes com os povos. É muito importante compreender que esses painéis trazem um pedacinho da Estação Científica e da comunidade do seu entorno e que a gente também deixa contribuições por lá”, disse, agradecendo às artistas e a equipe do Museu envolvida no projeto.
Ana Leal agradeceu o apoio do Museu, em especial, a dedicação da coordenadora do Laboratório de Comunicação Pública da Ciência (Labcom), Joice Santos, entusiasta do projeto. Ela também mencionou o patrocínio da Emgea, via incentivos fiscais viabilizados por editais culturais do Governo Federal. “A gente só tem que agradecer muito. As crianças que participaram criaram uma nova maneira de olhar a floresta. Elas olham para as folhas e perguntam: será que essa vai dar uma boa impressão? Na medida em que a comunidade se apropria da técnica, dá muito orgulho”, acrescentou Laura Calhoun.
“Estação Amazônia Sempre” é aberta e MPEG recebe visitas institucionais
Na manhã deste sábado, também foi dado início à programação de painéis da Estação Amazônia Sempre, promovida pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Os debates vão ocorrer até o dia 21, no auditório do Centro de Exposições Eduardo Galvão. Com o tema “A Amazônia revelada: usando a arqueologia para proteger a Amazônia”, o primeiro painel da série foi organizado pela Universidade Federal de São Paulo (USP) e Nathional Geographic Society e contou com a participação de Eduardo Neves (USP), Bruna Rocha (Universidade do Oeste do Pará) e Vinícius Honorato (Universidade do Oeste do Pará). No domingo (09/11), às 9h30, as “iniciativas para o transporte na Amazônia: soluções integradas para um desenvolvimento regional sustentável” serão o tema a ser discutido.
Em meio às programações ao longo deste sábado no Parque, o diretor do Museu Goeldi, Nilson Gabas Júnior, recebeu autoridades internacionais, no intuito de fortalecer as políticas em defesa da ciência e do meio ambiente. Pela manhã, Gabas recebeu o embaixador da Bélgica no Brasil, Chris Hoornaert; o primeiro-ministro da Antigua e Barbuda, Gaston Browne; o vice-primeiro ministro da Guiné Equatorial, Gaudêncio Mohaba Messu; a ministra do Congo, Judith Suminwa Tuluka; e o embaixador da Suíça; Hanspeter Mock. À tarde, foi a vez da visita de cortesia do primeiro-ministro de Papua Nova Guiné, James Marape. Na ocasião, as delegações aproveitaram para conhecer o acervo vivo de fauna e flora do parque.
Texto: Denise Salomão, Carla Serqueira e Erika Mohri
Edição: Andréa Batista
CONFIRA AS PROGRAMAÇÕES DO DOMINGO NAS DUAS BASES DO MUSEU
NO PARQUE - Estação Amazônia Sempre – Endereço: Av. Magalhães Barata, 376, São Braz, Belém (PA)
09h30 - 10h30 – Iniciativas para o Transporte na Amazônia: Soluções Integradas para um Desenvolvimento Regional Sustentável | Organizador: Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (Grupo BID) - (Reinaldo Fioravanti, BID; Emannuel Sant Thiago Pereira Loureiro, UFPA; Eduardo Corrêa Tavares, MIDR; Hilton Alves de Aguiar, IDB & CPH; - Cloves Benevides, MT).
11h00 – 12h00 – Conectando o Monitoramento da Biodiversidade às Mudanças Climáticas em Ecossistemas Tropicais | Organizadores: Museu Goeldi, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto Tecnológico Vale, Universidade Estadual do Ceará | Moderação: Hugo Fernandes, UEC; Patrícia Morellato, CBioClima/Unesp; Mauro Galetti, CBioClima/Unesp; Mariana Vale, UFRJ; Alexandre Aleixo, ITV.
12h00 – 13h30 – Amazônia Urbana Resiliente: Ecossistemas no Centro da Ação Climática nas Cidades | Organizador: ICLEI América do Sul | Moderador: Alejandro González, ICLEI; Maria Camila Uribe, BID; Taísa Mendonça, Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Amapá (a confirmar); Vladmir Chong, Província de Maynas (a confirmar); Natália Maia, Projeto CITinova II; Cecilia Guerra, CAF.
15h30 – 16h30 – Diálogos abertos sobre o Grupo BID Organizador: Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (Grupo BID)
14h00 – 15h00 – Clima e restauração – liderança das redes multi atores na construção de estratégias para ação climática, restauração de paisagens e conservação da sociobiodiversidade || Organizador: Aliança pela Restauração na Amazônia | Rodrigo Mauro Freire, Aliança pela Restauração na Amazônia e TNC Brasil; Sâmia Nunes, Aliança pela Restauração na Amazônia e ITV; Fabrício Ferreira, Aliança pela Restauração na Amazônia e Embrapa; Marlúcia Martins, Aliança pela Restauração na Amazônia e Museu Goeldi.
17h00 – 18h00 – Sociobioeconomia Revelada - A contribuição das economias de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para a formação das paisagens e regulação climática | Organizador: Instituto Socioambiental (ISA) | Moderador: Jeferson Straatmann, ISA; Francisco de Assis Porto, Rede Terra do Meio; Hélio Lopes, Povo Tukano, FOIRN; Marta Gomes, Rede Terra do Meio; Eduardo Neves, Museu Paraense Emílio Goeldi e Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.
NO CAMPUS - Espaço Chico Mendes – Campus de Pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi – Av. Perimetral, 1901 - Terra Firme, Belém (PA)
Temática do domingo: Aliança dos Povos e Economias da Sociobiodiversidade | Solenidade de Honra
09h00 – Territórios de Uso Coletivo: Povos Indígenas, Povos Tradicionais Extrativistas, Comunidades Quilombolas e Comunidades Locais como estratégia central de combate à Crise Climática Global Formato: Painel
10h30 – Carbono, Floresta e Direitos: Caminhos e desafios dos Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Extrativistas na construção de Projetos de REDD+ Formato: Painel
13h00 – Show do cantor Alberan Morais Formato: Apresentação ao vivo
14h00 – Acesso ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) num contexto de crise climática Formato: Painel
17h30 – Mercado de Histórias – Alcinete Damasceno Formato: Apresentação ao vivo
18h00 – Plantadores D’Água – Dir. Dani Bertollini Formato: Cinema
19h00 – Dispositivo de honra – Angela Mendes (presidente do CCM), Júlio Barbosa (presidente do CNS), Kleytton Morais (FBB), Edel Moraes (SNPCT), Marina Silva (MMA), Presidente Lula, Marlucia, Gabbas (MPEG), Princesa Esmeralda...Formato: Encontro
20h00 -- Show de Felipe Cordeiro Formato: Apresentação ao vivo