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Actínio-225: pesquisa do IPEN vai ampliar autonomia brasileira em nova geração de radiofármacos contra o câncer
A recente notícia envolvendo episódio de segurança de uma carga de Actínio-225 (²²⁵Ac) chamou a atenção do público brasileiro para este radioisótopo utilizado em terapias contra o câncer. Trata-se de uma tecnologia que pode representar um importante avanço no tratamento de tumores. O Actínio-225 coloca em evidência uma área estratégica para a ciência brasileira: o desenvolvimento e a produção nacional de radiofármacos alfa-emissores.
No Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN-CNEN), pesquisadores do Centro de Radiofarmácia vêm desenvolvendo estudos nesta área. Os objetivos consistem em dominar não apenas a utilização do Actínio-225, como também as etapas necessárias para transformá-lo em radiofármacos capazes de reconhecer seletivamente células tumorais.
Um exemplo é o desenvolvimento do ²²⁵Ac-PSMA, um radiofármaco experimental direcionado ao antígeno prostático específico de membrana (PSMA), uma molécula encontrada em grande quantidade em muitos tumores de próstata. A ideia é utilizar o PSMA como uma espécie de “endereço molecular”: o radiofármaco encontra as células tumorais e leva até elas o Actínio-225.
O diferencial do Actínio-225 está no tipo de radiação que ele emite. Suas partículas alfa possuem alta capacidade de provocar danos no DNA das células tumorais e percorrem distâncias muito pequenas nos tecidos. Isso cria a possibilidade de atingir o tumor de maneira altamente localizada, uma característica que torna essa modalidade de tratamento especialmente promissora para alguns pacientes com câncer avançado.
Como parte desse processo de desenvolvimento, pesquisadores do IPEN realizaram recentemente testes de radiomarcação de um análogo do PSMA com Actínio-225. Os resultados iniciais foram promissores: foi possível obter o radiofármaco em aproximadamente 45 minutos, com elevados rendimentos e pureza imediatamente após a preparação. Após 48 horas, a pureza permaneceu alta, indicando boa estabilidade nas condições avaliadas.
Mais do que um resultado laboratorial, esses experimentos representam uma etapa importante para o domínio nacional dessa tecnologia. O IPEN possui décadas de experiência no desenvolvimento, produção e fornecimento de radiofármacos para a medicina nuclear brasileira. O Centro de Radiofarmácia atualmente desenvolve e fornece radiofármacos para hospitais, clínicas e centros de pesquisa em todo o país.
O próximo grande desafio é avançar do desenvolvimento experimental para uma cadeia tecnológica cada vez mais nacional. Hoje, o Actínio-225 utilizado em estudos e aplicações médicas no Brasil depende de fontes externas. No futuro, o domínio da produção do próprio radioisótopo pelo país, associado à capacidade de transformá-lo em radiofármacos no IPEN, poderá reduzir essa dependência e contribuir para ampliar o acesso dos pacientes brasileiros a terapias avançadas.
Essa perspectiva já faz parte da agenda de pesquisa do IPEN/CNEN. Em setembro de 2026, foi formalizado um projeto de pesquisa, desenvolvimento e inovação envolvendo a produção de Actínio-225 no IPEN/CNEN e o desenvolvimento de radiofármacos alfa-emissores, reforçando a importância estratégica dessa área para a saúde e para a autonomia tecnológica brasileira.