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Artigo analisa percepções de pesquisadores brasileiros sobre acesso aberto e pagamento de taxas de publicação científica no Brasil
A cobrança de taxas de processamento de artigos (Article Processing Charges – APCs) tem suscitado debates, controvérsias e desafios para a comunicação científica, especialmente entre comunidades acadêmicas e organismos de financiamento à pesquisa do Sul Global. Nesse contexto, as discussões sobre os modelos de comunicação científica e os caminhos para a democratização do acesso ao conhecimento ganham novos elementos com a publicação do artigo “Percepções e Práticas sobre o Acesso Aberto e o Pagamento de Taxas de Processamento de Artigos no Brasil”.
O estudo conta com a participação de tecnologistas e pesquisadores do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e investiga as práticas de publicação em acesso aberto, analisando como a comunidade científica brasileira percebe e utiliza diferentes modelos de comunicação científica, especialmente aqueles que envolvem o pagamento de taxas para publicação.
Assinam o trabalho André Luiz Appel, Tatiane Pacanaro Trinca, Larissa de Araújo Alves, Nathaly Cristine Leite Rocha e Sarita Albagli. O artigo foi publicado na revista Dados, um dos principais periódicos brasileiros das Ciências Sociais.
O estudo integra a pesquisa internacional “Uma Análise Comparativa da Ciência Aberta, do Acesso Aberto e da Circulação de Conhecimento na América Latina e na África”, iniciada em 2023 e coordenada pelo Global Research Institute of Paris (GRIP), associado à Université Paris-Cité. A iniciativa reúne pesquisadores da África do Sul, Argentina, Brasil, México e Senegal.
A pesquisa foi realizada a partir de uma abordagem cientométrica, inserida no campo dos estudos sociais da ciência. O objetivo foi compreender de que maneira as transformações nos modelos de negócio da publicação científica podem repercutir na organização de grupos e práticas científicas, além de subsidiar políticas públicas de financiamento à ciência, tecnologia e inovação. Para isso, o estudo analisou frequências de publicação, tipos de periódicos utilizados, fontes de financiamento e valores destinados ao pagamento de APCs em diferentes áreas do conhecimento, possibilitando comparações com os demais países participantes da pesquisa internacional.
Para a realização do estudo, foi aplicado um questionário a 15.426 bolsistas de Produtividade em Pesquisa (PQ) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ao todo, foram obtidas 6.288 respostas, correspondendo a uma expressiva taxa de participação de 40,71%.
Os resultados indicam que há amplo apoio ao acesso aberto como princípio para a circulação do conhecimento científico. Entretanto, as opiniões sobre o pagamento de APCs permanecem divididas. O levantamento identificou um equilíbrio relativo entre percepções favoráveis e desfavoráveis à cobrança dessas taxas, revelando a complexidade do tema no contexto brasileiro.
O estudo também revelou diferenças significativas entre áreas do conhecimento e estágios da carreira acadêmica. Pesquisadores das Ciências Agrárias e das Ciências da Saúde, bem como aqueles enquadrados nos níveis mais elevados das bolsas de Produtividade em Pesquisa (PQ) do CNPq, apresentaram maior preferência pela publicação em periódicos de acesso restrito. Em contrapartida, nas áreas de Humanidades e Ciências Sociais observou-se uma forte preferência pelo modelo de acesso aberto diamante, que não prevê cobrança de taxas nem para autores nem para leitores.
Outro dado relevante mostra que parte significativa dos pesquisadores utiliza recursos próprios para custear a publicação de artigos. Segundo o levantamento, mais da metade dos respondentes que já pagaram APCs afirmaram ter recorrido a recursos pessoais ou provenientes de seus salários para arcar com esses custos, evidenciando desafios relacionados à sustentabilidade e à equidade do sistema de comunicação científica.
Segundo os autores, ao analisar as práticas de publicação científica e as percepções da comunidade acadêmica brasileira sobre as taxas de processamento de artigos, o trabalho oferece subsídios para o desenvolvimento de políticas públicas e institucionais voltadas a uma ciência mais aberta, democrática e equitativa, contribuindo para os debates sobre sustentabilidade dos periódicos científicos, justiça informacional e equidade na circulação do conhecimento.
Leia o artigo
O artigo está disponível para leitura na íntegra na plataforma SciELO.
Acesse:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52582026000100606&tlng=pt
Referência:
APPEL, André Luiz; TRINCA, Tatiane Pacanaro; ALVES, Larissa de Araújo; ROCHA, Nathaly Cristine Leite; ALBAGLI, Sarita. Percepções e Práticas sobre o Acesso Aberto e o Pagamento de Taxas de Processamento de Artigos no Brasil. Dados, Rio de Janeiro, v. 69, n. 1, p. e20240147, 2026.
DOI: https://doi.org/10.1590/dados.2026.69.1.404.