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Roda de diálogo na Fundaj traz reflexão sobre movimentos sociais e indígenas de Pernambuco
"Não podemos deixar que acabem com as nossas tradições. Sem os nossos encantados, nossa ancestralidade, não somos nada." A frase do Cacique Marcelo Pankararu, liderança indígena e representante da Rede Sustentabilidade, define bem o que foi a roda de diálogo "Educação e Cultura nos Movimentos Sociais e Indígenas de Pernambuco", que aconteceu no último dia 14/11, na Sala João Cardoso Ayres, no Campus Ulysses Pernambucano da Fundação Joaquim Nabuco, no Derby.
O encontro fez parte da programação do “Seminário em rede e Seminário internacional da pós-graduação Stricto Sensu: Ações formativas e comemorativas”, promovido pela Fundaj, por meio da Diretoria de Formação Profissional e Inovação (Difor).
Mediada pelos mestrandos do programa "Educação, Cultura e Identidade", da Fundaj e UFRPE, Daniel Filho, Eduardo Paysan, Emanuela Nascimento e Fabíola Maciel, a roda de diálogo discutiu sobre a Mostra Pankararu (atividades socioeducativas que acontecem durante o ano todo na área demarcada da etnia - entre Tacaratu, Petrolândia e Jatobá, localizados no Sertão) e demais iniciativas e aspectos da manifestação e preservação da memória dos povos indígenas do estado.
E por isso, os 20 anos da lei nº 10.639/03 e os 15 anos da lei nº 11.645/2008, que estabelecem as diretrizes e bases da educação nacional para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena", não podiam ficar de fora das discussões. Niedja Batista, indígena Pankararu, bióloga e educadora, especialista em direitos dos índios, enfatizou, junto com o mediador, que essas leis são conquistas que devem ser comemoradas, mas nem tanto.
"Apesar dessas leis, ainda não existem políticas públicas mais efetivas. Por exemplo, será que professores não-indígenas estão preparados para ensinar algo aos nossos filhos índios? Com certeza, não!", justificou.
União dos movimentos sociais
Daí a importância, segundo Niedja, do fortalecimento dos movimentos sociais. "Não podemos relaxar. A luta é constante. Temos que buscar a qualidade de vida. No caso da demarcação, a gente não só quer a terra em si, mas também manter a relação com todos os seres vivos e com a nossa cultura. O povo Pankararu sofreu muito quando as águas da Barragem de Itaparica inundou a antiga cidade de Petrolândia, nos anos 1980. Afinal, perdemos terras consideradas sagradas para o nosso povo", frisou.
Pegando esse argumento, o Cacique Marcelo Pankararu destacou que é preciso a união dos vários movimentos sociais para que as pautas sejam conquistadas cada vez mais. "Precisamos nos juntar, índios, negros, ciganos, grupos LGBTQIA+, entre outros, para que possamos ocupar mais espaços de decisões."
O Cacique Marcelo e Niedja sabem que, com a chegada do Governo Lula, muitos desses espaços foram ocupados, mas ainda faltam mais, muito mais. "Precisamos, por exemplo, mudar o que se conta nos livros didáticos de história. Chega de falar de Cabral e troca de espelhos dos colonizadores com os povos originários. Temos que explorar as nossas conquistas. Uma prova é que hoje temos uma ministra dos Povos Indígenas, que é Sonia Guajajara; e uma ministra da Igualdade Racial, que é Anielle Franco", afirmou o Cacique.
E reforçando a luta de todos, Niedja acrescentou: "Temos realmente que nos inserir nas conferências, nos conselhos e na política partidária, que é o que nos rege. Todos juntos, pois as pautas sempre confluem". Ao final da explanação dos dois convidados, abriu-se uma rodada de perguntas dos presentes, na maioria formados por mestrandos do programa "Educação, Cultura e Identidade".
Para o professor doutor Maurício Antunes Tavares, pesquisador da Fundaj e professor da disciplina de Movimentos Sociais do programa de Mestrado, eventos como esse são importantes porque não só discutem o passado e o presente, mas também o futuro. "As sociedades, de uma maneira geral, precisam se perpetuar com todas as suas riquezas e diversidades."