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Relatório sobre ecologia política da pesca de crustáceos no Nordeste é apresentado na Fundaj
Deslocar o ponto de vista e repensar como a teoria social trata o manguezal e quem o habita — esse foi o ponto de partida do estudo “Ecologia política da pesca de crustáceos em manguezais do Nordeste brasileiro”, iniciado em 2017 e cujo relatório final foi apresentado à Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) no último dia 2 de junho. Ao longo de sete anos, três deles dedicados à pesquisa de campo em cinco áreas de manguezal de grande importância socioecológica da região, quatro pesquisadores voltaram os olhares para o ecossistema e para a atividade e cotidiano dos caranguejeiros que vivem da pesca desses animais.
Com uma abordagem metodológica inovadora, a pesquisa adotou a ideia de ecologia política de modo a contornar as divisões entre o que é natural e o que é humano nas cinco áreas de manguezais estudadas: o estuário do Rio Goiana, na divisa entre Pernambuco e Paraíba; o delta do Parnaíba, na divisa do Piauí com o Maranhão; e os manguezais de Passo de Camaragibe, em Alagoas, e de Canavieiras e Belmonte e Baía de Todos os Santos, na Bahia. Assim, os caranguejos que habitam esses ecossistemas — em especial o caranguejo-uçá, o guaiamum e o aratu — foram vistos como “elementos ativos” nos processos estudados.
Coordenada por Pedro Silveira, antropólogo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, o estudo reuniu a expertise dos pesquisadores Beatriz Mesquita, também da Fundaj; Rafael Palermo Buti, da Universidade Federal da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab); e Lucas Coelho Pereira, da Universidade de Brasília (UnB). O trabalho ainda contou com a colaboração do antropólogo Allan Monteiro, da Fundaj, que elaborou mapas para o projeto, e dos graduandos Cláudio Monteiro e Esdras Nascimento, orientados por Mesquita e Silveira, respectivamente, que realizaram pesquisas de iniciação científica ligadas ao estudo.
O relatório final da pesquisa colocou em evidência a importância dos conhecimentos e práticas desenvolvidos pelos caranguejeiros que habitam nos mangues, bem como as “belezas, dificuldades, dilemas e perspectivas” da vida desses pescadores. “Tentamos, por um lado, traduzir esse universo para quem não o habita. “Procuramos também repensar a forma como a teoria social tratou historicamente os caranguejeiros, muito estigmatizados pela condição de pobreza, estigma esse que não permite ver os conhecimentos e práticas necessários para estar no mangue e dele viver”, explica Pedro Silveira.
Outro ponto levantado pela pesquisa é a importância dos pescadores artesanais e dos habitantes dos manguezais para a preservação desses ecossistemas dos processos de destruição e contaminação em curso, como o aparecimento de óleo no litoral nordestino em 2019, o recorrente vazamento de óleo na Baía de Todos os Santos e a morte de caranguejos provocada pela poluição agroindustrial no estuário do Rio Goiana.
No entanto, a relevância dos caranguejeiros se estende também ao estudo em si, já que os achados passam também pela colaboração com pescadores e organizações com as quais os pesquisadores conviveram durante a pesquisa de campo. “A pesquisa, durante sua execução, participou de muitos processos que estavam em curso, tais como construir formas de gestão da pesca do guaiamum a partir dos conhecimentos e práticas tradicionais, compreender as transformações nas técnicas de captura do caranguejo-uçá e discutir as questões de gênero envolvidas na pesca do aratu”, observa o coordenador do estudo.
Como resultado dos sete anos de pesquisa, o projeto colaborativo gerou 17 artigos científicos, duas exposições fotográficas e um filme etnográfico, bem como a tese de doutorado de Lucas Coelho, da UnB, e a iniciação científica dos graduandos envolvidos. Na visão do coordenador da pesquisa, essas produções devem abrir espaço para o desdobramento de novas pesquisas e incentivar pesquisadores em formação a navegar pelo universo dos manguezais. “Esperamos também que seus desdobramentos continuem dando subsídios para as lutas políticas dos pescadores artesanais, que, em nosso entender, são lutas que interessam à existência coletiva de todos nós”, finalizou Silveira.