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Petrônio Cunha, o artista de “estilete afiado”
A Fundação Joaquim Nabuco e o artista plástico Petrônio Cunha acabam de formalizar a doação de um expressivo conjunto de documentos por ele produzidos e reunidos. São cartazes originais e desenhos impressos de sua autoria, criados e em circulação entre a década de 1970 e início do século XXI, publicações impressas, reprodução fotográficas de camisas e capas de livros de sua criação e diversos outros documentos avulsos.
Petrônio Cunha integra uma tradição presente nas artes e impressões gráficas que viceja em Pernambuco desde o século XIX, ganhando força e vigor no século XX, com trabalhos inovadores como os presentes na Revista do Norte (1926), de José Maria de Albuquerque e Mello. Diversos outros talentos surgiram após essa experiência paradigmática no campo artístico-cultural, a exemplo de Vicente do Rego Monteiro, Manoel Bandeira, Joaquim Cardozo e Lula Cardoso Ayres. Produção visual renovada por Aloisio Magalhães, Hélio Feijó, Gilvan Samico, o Gráfico Amador, a Oficina Guaianases, dentre outros.
Petrônio Cunha destaca-se e singulariza-se no campo das artes gráficas principalmente pelo domínio da linguagem do recorte do papel. Evocando as palavras de Chico Homem de Melo, designer e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, proferidas por ocasião da exposição Gráfica Pernambucana, um episódio, realizada pela Fundação Joaquim Joaquim Nabuco naquela Universidade, em 2010, em que foram exibidos 35 cartazes de sua autoria, Petrônio Cunha “bebe na fonte da xilogravura popular e, ao mesmo tempo, a transforma a partir da cultura erudita”. Seu “estilete é afiado”, escreve o designer. Segundo ele, Petrônio pensa com as mãos. “Suas silhuetas pictográficas fundem-se com as letras — são todas desenhos e são todas textos”. A xilogravura popular da Região Nordeste serve-lhe de fonte de inspiração, transformando-a a partir de suas próprias referências culturais, de sua estética e estilo artístico.
O trabalho artístico do paraibano e olindense de coração, Petrônio Cunha, vem enriquecer o acervo iconográfico, especialmente o de artes visuais, preservado e acessível à consulta pública no Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira - Cehibra, da Fundação Joaquim Nabuco. Acervo esse reunido em diversos arquivos e coleções, formado por gravuras, rótulos comerciais de cigarro, sabonete, cachaça, doces, vinhos e licores; embalagens de produtos comerciais; capas e ilustrações de livros e periódicos; xilogravuras da literatura de cordel.
Sobre o artista plástico Petrônio Cunha
O paraibano Petrônio dos Santos Cunha, filho de Antônio Ataíde Cunha e Petronila dos Santos Cunha, nasceu na cidade de Campina Grande, em 6 de agosto de 1941. Segundo suas próprias palavras: “Eu sou do tempo dos manogramas, das iniciais dos manuais de letras góticas, antes da datilografia, da boa coleção de álbuns de figurinhas – Estampas Eucalol, da datilografia, da assinatura bonita. Na de papai eu já via um valor gráfico.”
Durante o período em que cursava Arquitetura, na hoje Universidade Federal de Pernambuco, começou a criar marcas, logotipos, cartazes. No início de sua carreira profissional, inspirou-se na revista Grafis e nas palestras proferidas pelo designer pernambucano Aloisio Magalhães, sobre seus projetos de logomarcas; nas falas de Gastão de Holanda, a respeito da feitura de livros; e nas de José Maria de Albuquerque sobre a tipografia.
Ao finalizar o curso de Arquitetura, mudou-se para Brasília com o intuito de estudar Comunicação Visual. Ingressou no mercado de trabalho como “layoutman” das Páginas Amarelas, das listas telefônicas. Em 1969, mudou-se para São Paulo, dedicando-se à área gráfica, fazendo capas de livros, logotipos etc. Segundo seu próprio depoimento: “Nesse período comecei a desenhar [de 1969 a 1971], desenho de artista. Afinal o que eu sempre quis e ainda hoje quero, é ser desenhista. Fiz e faço o que posso.”
Após passar uma temporada em Paris, retornou ao Brasil, voltando a residir em São Paulo até 1977, período em que teve início o seu trabalho com recortes em papel. De acordo com o “esboço biográfico”, de sua própria lavra:
O Recorte surgiu de um curso de gravuras, onde tive contato com a película de serigrafia de corte. Gostei daquilo como desenho e como matriz, não para a serigrafia, mas para “pochois”, que eu imprimia nos vidros das janelas e em papel.
O papel utilizado para os recortes era preto, bonito, bem calandrado, uma beleza de papel. Esse papel servia originalmente para proteção de chapas para radiografia, que eu conseguia num hospital.
Nesse tempo em que eu fazia os recortes pretos, vi no Masp uma exposição de um japonês que fazia o mesmo no que eles chamam Hiriê. Ainda tenho o catálogo dessa expo, bem como uma gravura (serigrafia) a partir do recorte em papel.
Mostrando meus recortes a um amigo arquiteto, do Recife, ele falou é Xilo. Sim, o recorte é como a Xilo, vem da Xilo das gravuras populares dos poetas do Cordel, vem de Samico, que eu já conhecia.
No final dos anos 1970, Petrônio Cunha radicou-se em Olinda, cidade cujos desenhos por ele criados, inclusive para a Prefeitura Municipal, deram ampla visibilidade, dotando-a de uma identidade visual que perdura até os dias atuais. Seus recortes encantam e ensinam a como fazer arte com as mãos.