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Na presença do diretor e protagonista do documentário, Saravá Shalom estreia no Cinema da Fundação
Tradições que parecem não se cruzar à primeira vista, as religiões brasileiras e o judaísmo estabelecem um diálogo no documentário Saravá Shalom, que estreou mundialmente nesta terça-feira (29) no Cinema da Fundação. O equipamento cultural abriu as portas da Sala Derby para a exibição do filme, seguida de um debate com o diretor Alex Minkin, o protagonista André Feitosa, e o escritor Ronaldo Correia de Brito. O Cinema da Fundação é vinculado à Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte (Dimeca) da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).
O documentário investiga os rituais religiosos de origem afro-indígena incorporados à cultura brasileira com uma abordagem inédita: a interlocução com a tradição judaica. Sob direção de Alex Minkin, antropólogo visual, ativista cultural e diretor da ONG Ticun Brasil, a narrativa de Saravá Shalom é conduzida principalmente pelo artista cearense André Feitosa, que descobre na sua árvore genealógica raízes africanas, indígenas e judaicas. No decorrer do longa, Feitosa reconstrói sua ancestralidade por 15 gerações e, na falta de arquivos, busca respostas em terreiros e nas tradições orais.
A sessão foi apresentada por Ernesto Barros, curador do Cinema da Fundação, que celebrou a presença do diretor Alex Minkin e a realização da estreia mundial de Saravá Shalom no equipamento cultural da Fundaj. “[O filme] é uma pesquisa muito inédita e, para mim, é uma surpresa muito grande ver essas histórias, diásporas e ancestralidades se encontrando”, comentou. Após a exibição do documentário, os convidados se reuniram para debater o documentário com os espectadores, que trouxeram questões, agradecimentos e elogios sobre o propósito, os sentimentos provocados pela narrativa apresentada e a respeito da própria realização e montagem do longa.
Questionado sobre o ponto de partida para a criação do filme pela cineasta Kátia Mesel, que acompanhou a estreia do documentário, Alex Minkin, que é antropólogo visual e concentra sua pesquisa há mais de uma década nas interseções entre ambas as culturas, relatou sua experiência com judeus brasileiros que conhecera e que frequentavam terreiros. “Eu sempre quis entender o porquê daquilo, o que eles buscam nesse caminho espiritual e, como antropólogo, comecei a escrever artigos sobre espíritos menos conhecidos na umbanda”, contou.
Para o artista, produtor cultural e pesquisador André Feitosa, figura central do longa, Saravá Shalom oferece uma escuta atenta e delicada para fenômenos que “precisavam de um tratamento adequado” e destaca a experiência imersiva que pode ser provocada a partir do filme, que conta com invocações reais, reforçando seu aspecto documental. “É um grande rito, na verdade. Se pudermos considerar como um tipo de partilha, é uma experiência mítica coletiva nossa. Cada um de nós, com nossas respectivas ancestralidades e lugares de passagem de memória sendo ativados e convocados visualmente por chamados ritualísticos”, afirma Feitosa a respeito do longa.
Em sua fala, o dramaturgo, contista, romancista e cronista Ronaldo Correia de Brito analisou as narrativas construídas pelo cineasta e ativista cultural no decorrer do documentário e frisou o caráter autêntico do tema trazido por Minkin. “O filme do Alex, pra mim — embora [a temática] não esteja resolvida — tem um aspecto imensamente original que é fazer esse cruzamento da religião judaica com a umbanda, o kardecismo e a jurema sagrada”, ponderou o escritor. Sobre os desdobramentos de Saravá Shalom, o diretor espera continuar a explorar os cruzamentos entre essas tradições. “Espero que com essa turnê [de divulgação] do filme, eu descubra mais camadas e mais histórias para contar no futuro”, reconheceu Alex Minkin.