Notícias
Na Fundaj, Jamil Chade lança livro e debate política e democracia nos EUA
A Bienal Internacional do Livro de Pernambuco promoveu na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), na quinta-feira (7), no Campus Ulysses Pernambucano, no Derby, uma palestra seguida do lançamento do livro “Tomara que você seja deportado: Uma viagem pela distopia americana”, do jornalista Jamil Chade. O encontro contou com a participação de Jamil Chade ao lado de Túlio Velho Barreto, diretor de Memória, Educação, Cultura e Arte (Dimeca/Fundaj), Rogério Robalinho, coordenador da Bienal, e do jornalista Rossini Barreira, como mediador. Diante de uma sala lotada e de um público participativo, o autor apresentou um panorama sobre o cenário político e econômico dos Estados Unidos antes e durante o governo Donald Trump.
Entre os temas abordados, destacou a questão migratória — eixo central de sua obra —, os impactos da desinformação e do negacionismo, e a postura, ou ausência dela, de setores considerados progressistas diante do avanço da extrema-direita no país. Para ele, “há um movimento político que quer refundar a sociedade com base em seus interesses econômicos e na sua própria visão de mundo. Esse movimento não tem nada de tolo ou orgânico — é um movimento com muito dinheiro, com plano e ambição impressionantes”.
O jornalista também apontou que “esse grupo de extrema direita, ultraconservador, entre vários nomes que podemos dar, é absolutamente organizado e globalizado. Precisamos refletir sobre por que um grupo como esse prospera, qual o fracasso da democracia e do sistema econômico que permitiu e deu base para que isso acontecesse. É uma tentativa de entender que a democracia, como está hoje, não atende às necessidades de todos e, muitas vezes, se constrói validando grupos que a ameaçam”.
O diretor Túlio Velho Barreto destacou que o livro do jornalista Jamil Chade já nasceu como uma obra de referência. “Não são apenas reportagens, mas crônicas que nos ajudam a entender a história do tempo presente. E são tempos de distópicos, potencializados a partir da crise da democracia exatamente no país, os Estados Unidos, que muitos consideravam a mais consolidada no mundo, porque amplamente institucionalizada. Mas, não. Bastou a extrema-direita tornar-se eleitoralmente competitiva para, apoiada no uso intensivo das redes sociais, escancarar a sua fragilidade. É nesse contexto, e lá morando, que Jamil Chade nos revela, em seu livro, detalhes até então invisíveis para nós. No caso da Fundaj foi uma honra recebê-lo, o que ocorreu com uma sala lotada, para ouvi-lo.”
Jamil também tratou dos ataques ao Capitólio nos EUA e avaliou que “a anistia transformou invasores em vítimas do Estado. Os invasores acreditam estar do lado certo e que sofreram uma injustiça. Anistia é golpe dentro do golpe. É receita para a continuação da violência. Precisamos entender isso aqui, no Brasil, também”. Segundo ele, os americanos nunca imaginaram que isso aconteceria com eles. “A organização democrática é frágil e, de certa forma, existe uma consciência de que a democracia não está garantida. Mas as pessoas não estão compreendendo o que realmente está acontecendo com elas”.
Com prefácio do cineasta Walter Salles, o livro reúne crônicas que refletem sobre a degradação democrática e os riscos de caminhos autoritários, propondo uma reflexão urgente para o momento atual. Correspondente internacional há quase duas décadas, Jamil Chade já atuou em mais de 70 países e colaborou com veículos como BBC, The Guardian e El País. Autor de diversos livros, foi pesquisador na Comissão Nacional da Verdade e é vencedor de prêmios no Brasil e no exterior, sendo reconhecido por sua cobertura de temas como direitos humanos, migrações e política internacional.