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Muhne ensaia montagem de mesa da jurema sagrada em preparação de nova exposição
As tradições e religiosidade afro-indígenas do Brasil vão assumir uma posição de maior destaque na nova exposição de longa duração do Museu do Homem do Nordeste (Muhne). Nesta terça-feira (03), o equipamento cultural da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) ensaiou a montagem de uma mesa da jurema sagrada na Galeria Waldemar Valente, que fica localizada no edifício do Muhne, no bairro de Casa Forte. A instalação com as peças características da religião tem como objetivo o estudo por parte da equipe de museologia do Muhne para a futura montagem definitiva do núcleo expositivo.
Com a inclusão de peças da jurema com maior destaque e precisão ritual, o Muhne busca reconhecer as influências raízes afro-indígenas e suas tradições na formação identitária do povo nordestino. Tradição de matriz indígena originária do nordeste brasileiro, a jurema antecede a colonização do Brasil e tem como elementos as maracas, o cachimbo, as folhas, as cascas e demais elementos de cura e que têm relação com a espiritualidade.
Para o coordenador-geral do Museu do Homem do Nordeste, Moacir dos Anjos, a instituição busca, desta maneira, desconstruir preconceitos e apresentar a religiosidade não apenas como um elemento do imaginário popular, mas também um pilar da cultura da região. “Antes de tudo, é um reconhecimento da importância dessa religião nessa região do país E também uma tentativa de mostrar suas heranças e origens. Portanto, ela se apresenta dentro da exposição como um desses elementos formadores disso que a gente chama de Nordeste”, explica.
Convidado pelo Muhne como consultor sobre a tradição afro-indígena, o educador museal e juremeiro Henrique Falcão montou a mesa com itens característicos da religião, mas que não passaram por nenhum processo ritualístico. Para ele, o fato das peças não terem passado por esse processo é de grande importância. “Historicamente a gente também tem museus que expropriam peças sagradas dos terreiros de jurema, o que só corrobora com o imaginário colonial de museu, que seria esse museu que usurpa o sagrado, que não deve ser arquivado. As peças sagradas, elas não são arquivos, elas são peças vivas”, avalia.
Entre esculturas de mestres e mestras da jurema, caboclos, exu e pombagira, peças como preacas, maracas, cachimbos, cristais, alguidares, coités compuseram a mesa montada pelo consultor e que devem ser replicadas no espaço de exposição museal após a reforma. “Já existiam, na instituição, elementos pertencentes à jurema sagrada, mas agora resolvemos ampliar e consolidar de uma maneira mais correta do ponto de vista religioso e expográfico dentro do Museu. Ela, nesse sentido, é inédita nesse lugar de destaque que vai ter na exposição e corresponde, na verdade, à importância dessa religião no universo da região Nordeste”, afirma Moacir dos Anjos.
Representante da quarta geração de uma família de juremeiros, Henrique acredita que incluir a jurema sagrada na nova exposição do Museu do Homem do Nordeste possa contribuir para reparar o ostracismo que a tradição historicamente enfrenta. “A gente está pensando formas de tirar a jurema desse ostracismo histórico e social; e só fazemos isso salientando a memória. A gente tem a jurema pela primeira vez presente neste museu — o que é um marco histórico — mas a gente também está pensando em outras formas de salvaguardar e de gerir memórias da jurema”, conclui.