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Jornada da Terra 2025 exibe filme Recife Frio e debate mudanças climáticas
A Fundação Joaquim Nabuco realizou, na quinta-feira (26), a exibição do curta-metragem Recife Frio (2009), de Kleber Mendonça Filho, como parte das atividades da Jornada da Terra 2025. A sessão aconteceu na Sala Museu do Cinema da Fundação, no Campus Gilberto Freyre, em Casa Forte.
A programação integrou os esforços conjuntos das diretorias de Pesquisas Sociais (Dipes) e de Memória, Educação, Cultura e Arte (Dimeca), no intuito de provocar reflexões sobre a emergência climática a partir do cinema. Após o filme, foi realizada uma roda de conversa moderada por Túlio Velho Barreto, diretor da Dimeca, e Edneida Cavalcanti, coordenadora-geral do Centro de Estudos em Dinâmicas Sociais e Territoriais (Cedist/Dipes).
Também estiveram presentes o cantor e compositor Fred Zero Quatro, uma das principais figuras do movimento Manguebeat; a coordenadora-geral do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira (Cehibra/Fundaj), Nadja Tenório; e a coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa (Cdoc/Fundaj), Sylvia Costa Couceiro.
O filme retrata um Recife transformado por uma súbita queda de temperatura após a queda de um meteorito. Com humor e ironia, Kleber Mendonça Filho propõe uma crítica social que atravessa temas como desigualdade, globalização e crise ambiental. A exibição foi seguida por um debate que abordou os desafios ecológicos e urbanos contemporâneos, refletindo sobre a convivência humana no contexto do sistema capitalista.
De acordo com o diretor Túlio Velho Barreto, é importante colocar o debate climático no centro das discussões. "Esse filme dialoga com a tradição dos filmes de catástrofe. A princípio, parece uma ficção absurda, situada em um futuro distante, mas o que a gente vê hoje — como foi dito no debate — é que as mudanças climáticas podem, sim, provocar episódios extremos, como estamos vivendo no Recife e no Rio Grande do Sul. O desafio é enorme, e precisamos tratar esse tema com a seriedade que ele exige", comentou.
Edneida Cavalcanti destacou a atualidade da obra, mesmo após mais de uma década de seu lançamento. Para ela, é urgente trazer o tema das mudanças climáticas para o centro do debate público, a partir de diálogos entre diferentes saberes. “A gente precisa trazer essa temática para as nossas pautas. Há muita gente preocupada, querendo mudanças, mas talvez estejamos ocupando menos do que deveríamos os espaços de comunicação”, afirmou.
Participante da sessão, a professora Viviane Coelho enfatizou a importância de retomar conversas sobre sustentabilidade, ressaltando o papel da cultura na sensibilização e na mobilização social. “Todos nós sofremos com os efeitos das mudanças climáticas. Precisamos ser protagonistas dessa transformação”, declarou.
Fred Zero Quatro também elogiou a iniciativa, ressaltando o valor do cinema como espaço de encontro e de reflexão coletiva. Para ele, Recife Frio se mostrou ainda mais impactante na tela grande, e o debate após a sessão reforça a relevância de espaços públicos dedicados à discussão de temas como a emergência climática. “A gente vive numa cidade muito castigada por eventos extremos do clima. Seria fundamental que iniciativas como essa se espalhassem por outros espaços, como escolas públicas”, pontuou.
Sobre a obra exibida durante a tarde, Túlio Velho declarou: "Eu gosto muito desse 'documentário' e o associo a clássicos, porque pode-se dizer que vem da tradição de se criar um documentário falso. Penso muito em filmes como Cidadão Kane, do Orson Welles, que trata de alguém que não existiu exatamente, embora inspirado em um grande empresário. Ou Zelig, do Woody Allen, por exemplo. Recife Frio é anterior aos longas que Kleber lançaria depois, mas já apresenta temas que ele trabalha com profundidade, como a desigualdade social, o crescimento desordenado das cidades, a verticalização urbana, a densidade demográfica, as construções sobrepostas e a questão da segurança. Ele desenvolve tudo isso mais adiante, mas aqui esses elementos já estão presentes. Talvez seja um dos filmes de que mais gosto do Kleber, porque tem muitas camadas de discussão sobre as relações sociais", concluiu.
A Jornada da Terra 2025 é realizada por uma ampla rede de instituições, incluindo a Fundaj, a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) e o Centro Sabiá. Ao longo do ano, o evento promove ações voltadas à justiça socioambiental e à construção de futuros possíveis.