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Fundaj inicia o Colóquio Histórias e Acervos do Abolicionismo e do Pós-Abolição
A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), por meio do Centro de Documentação e Estudos da História Brasileira Rodrigo Melo Franco de Andrade (Cehibra) da Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte (Dimeca), iniciou nesta segunda-feira (18) o colóquio "Histórias e Acervos do Abolicionismo e do Pós-Abolição: Biografias e Ativismos”. Com pesquisadores convidados, o evento — que se estende até a terça-feira (19) na sala Calouste Gulbenkian, no campus Gilberto Freyre da Fundaj, em Casa Forte — apresenta e debate sobre os cenários do movimento abolicionista do século XIX e as transformações sociais do momento histórico pós-abolição no Brasil.
A mesa de abertura do evento foi formada por Márcia Angela Aguiar, presidenta da Fundaj; Túlio Velho Barreto, diretor da Dimeca; Nadja Tenório, coordenadora-geral do Cehibra; e Cibele Barbosa, historiadora e pesquisadora da Fundaj. “Nada melhor que uma reflexão sobre o processo histórico que levou os abolicionistas a participarem da luta pela liberdade, para que as novas gerações tenham acesso essa história e se fortaleçam, e sejam capazes de defender o que precisa ser defendido continuamente nesse país, que é a democracia”, afirmou a presidenta da Fundaj.
Túlio Velho Barreto pontuou a importância de a Fundaj disponibilizar seu acervo para pesquisa e debate. “A realização do colóquio é uma clara demonstração da importância de abordar o presente à luz do passado e da memória. Ou seja, não perder de vista a história, mas entender o presente como um reflexo dela. Para tanto, a preservação e disponibilização de acervos históricos e documentais, como os de Joaquim Nabuco e de André Rebouças, se faz imprescindível.”
Nadja Tenório falou sobre o trabalho do Centro, responsável por manter resguardado o acervo. “A coordenação do Cehibra é responsável por toda a preservação, o tratamento técnico e a disponibilização desses acervos ao público geral, e acho que as trocas de experiências e os resultados de trabalhos através das pesquisas nos acervos estão representados já no próprio título desse colóquio."
A pesquisadora Cibele Barbosa, que idealizou e organizou o colóquio, explicou as motivações que impulsionaram a sua criação. “A ideia é, a partir desses acervos, pensarmos também outras perspectivas, outras trajetórias, acerca das lutas pelo fim da escravidão no Brasil e também o desafio pós-abolição, essa abolição que não contemplou, de fato, a população negra em termos de inclusão social”.
Primeira mesa
O acervo da Fundaj, principalmente sobre os escritos e palestras de Joaquim Nabuco, foi base para boa parte da palestra da primeira mesa do evento: “Acervos e Trajetórias Abolicionistas de André Rebouças e Joaquim Nabuco”. A mesa foi formada por Hebe Mattos, historiadora e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Christian Lynch, jurista e cientista político, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisador da Casa de Rui Barbosa (FCRB), Anita Pequeno, cientista social e professora substituta da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e Rita de Cássia Araújo, historiadora e pesquisadora da Fundaj, mediando o debate.
Christian Lynch começou o debate falando sobre a origem dos ideais abolicionistas brasileiros, que beberam do liberalismo, principalmente sobre como estavam presentes na vida de Joaquim Nabuco. “Nabuco da década de 80 era um Nabuco conhecido por seu papel no abolicionismo, seu papel de defender a liberdade e o liberalismo que estava em alta. A historiadora Hebe Mattos falou sobre como o liberalismo mundial influenciou a abolição brasileira. “O liberalismo na primeira metade do século 19 no brasil era um liberalismo antiescravista.”
A pesquisadora Anita Pequeno falou sobre André Rebouças, rema de sua pesquisa. Nascido livre, em 1838, André Rebouças foi engenheiro, inventor e abolicionista brasileiro. “A grande questão norteadora do meu trabalho sempre foi entender a vida desse homem, esse engenheiro, esse trabalhador da época da escravidão que viveu episódios de racismo mesmo não tendo sido escravizado. Queria entender a vida dele.”
Segunda mesa
Já à tarde, a mesa “Lideranças negras e a luta pela cidadania no Pós-Emancipação: nas ruas, nos meios acadêmicos e nos jornais” reuniu Walter Fraga, historiador e professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Helga Gahyva, cientista social e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Cibele Barbosa. A mediação ficou por conta de Maria Emília Vasconcelos, historiadora e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Autor da biografia de Manuel Benício dos Passos, Walter Fraga falou sobre o capoeira e ativista político baiano que foi figura central dos últimos anos da escravidão. “[A história do] Manuel Benício é boa para pensar várias coisas sobre o ativismo negro do final do século XIX e a questão da escravidão: como ela se projeta para depois da abolição no comportamento, nas atitudes, nas escolhas das pessoas, e entender a política do pós-abolição.”
Helga Gahyva deu continuidade à mesa narrando a atuação de Evaristo de Morais na defesa de Marcelino Bispo de Melo, autor do atentado contra o Presidente Prudente de Morais em 1897 que resultou na morte do Ministro da Guerra. Evaristo, um homem negro de origem pobre, usou de maneira estratégica o determinismo comum na criminologia da época para defender seu cliente, sem focar nas características raciais. “De modo geral, pode-se dizer que, para Evaristo, as teorias que associavam raça e responsabilidade penal não parecem ter tido qualquer importância no que concerne a sua atuação no campo jurídico e judicial.”
Encerrando os trabalhos da segunda mesa do colóquio, Cibele Barbosa explorou a atuação de Evaristo de Morais quanto à recusa de imigrantes afro-americanos na década de 1920 e sua estratégia jurídica de usar o contraditório ideal de “harmonia racial”, defendido pela elite branca da época, no caso. “Nós vamos perceber como Evaristo de Morais mobiliza um imaginário da época de que o Brasil era um país sem preconceitos raciais, imaginário este que vem desde o século XIX”, explicou.
O primeiro dia do colóquio contou ainda com uma sessão de autógrafos para os livros “Geminiana e seus filhos”, na presença da coautora Maria Helena Machado, e “Cartas da África”, de organização de Hebe Mattos. A programação encerrou com uma visita à exposição “Elas: onde estão as mulheres nos acervos da Fundação Joaquim Nabuco?”, no Museu do Homem do Nordeste (Muhne), mediada por Cibele Barbosa e Henrique Cruz, que compõem a equipe de curadoria da mostra.