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Familiares de membros do Movimento de Cultura Popular se emocionam com a mostra Mutirão
Participantes do Movimento de Cultura Popular (MCP) e familiares prestigiaram o lançamento da exposição "Mutirão", que resgata a história desse movimento emblemático. O lançamento foi realizado na quarta-feira (15), na Galeria Vicente do Rego Monteiro, campus Ulysses Pernambucano da Fundação Joaquim Nabuco, no Derby. Ao percorrerem os corredores repletos de fotografias, documentos e registros da época, muitos deles se viram imersos em lembranças vivas de suas experiências passadas. Em meio às memórias evocadas por cada imagem e cada texto, sentimentos de nostalgia e emoção transbordaram.
“A exposição é marcante, aqui se tem imagens e registros que me dão uma experiência quase completa do que foi o MCP. Tem um lado emocional muito forte, pois fui voluntário do movimento, tinha 16 anos, e fui levado por alguns fundadores, Paulo Rosas, Paulo Freire, que eram muito amigos, e atuei num programa chamado Praças de Cultura. Aqui a gente reaviva a consciência histórica da tradição de luta e da cultura do Recife”, disse o ex-vice-prefeito Luciano Siqueira, que se emocionou durante o evento.
Para alguns, foi uma jornada através do tempo, relembrando os ideais, lutas e conquistas que marcaram suas vidas e contribuíram para transformações significativas na sociedade. Na visão do professor de artes visuais José Rufino, da Paraíba, a exposição não apenas resgata a história do MCP, como também pode reacender o espírito de solidariedade e comprometimento que uniu aqueles indivíduos em prol de uma causa comum.
“A exposição é importantíssima, um resgate dessa história tão forte da relação entre arte, educação e libertação no Estado de Pernambuco. O movimento teve influência nos estados vizinhos, inclusive na Paraíba, de onde eu sou. Meus pais participaram do segmento paraibano do MCP. Espero que seja uma inspiração aos jovens, temos experimentado uma sociedade do individualismo, tomara que iniciativas como essas resgatadas aqui possam servir para que a sociedade volte a ter lutas em comum, lutas de classe, por direitos e por igualdade. Não consigo imaginar educação sem cultura, sem ruptura, sem movimentos artísticos que possam romper o estado das coisas, principalmente o estado de exploração, humilhação, de degradação da natureza que vemos de forma tão impactante”, comentou o docente.
Arraes
O Movimento de Cultura Popular (MCP), iniciado no Recife, surgiu como uma resposta à necessidade de enfrentar o subdesenvolvimento e o analfabetismo que assolavam Pernambuco. Com amplo apoio de intelectuais, educadores, artistas e representantes da igreja católica e do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o MCP buscou educar a população em situação de vulnerabilidade e proporcionar-lhe acesso à cultura.
Após a vitória de Miguel Arraes nas eleições para o governo de Pernambuco em 1962, o MCP expande suas atividades para o interior do estado, recebendo apoio para ensinar os trabalhadores analfabetos e promover o conhecimento da cultura local e da política nacional.
Presentes da abertura da mostra, três dos filhos de Miguel Arraes percorreram os corredores da exposição e se depararam com os documentos e registros que resgatam um período tão crucial na vida de seu pai, que está estampado em diversos retratos ao longo da mostra. “Achei muito importante fazer essa exposição e inserir o MCP em seu verdadeiro contexto da parte educacional, que foi a grande contribuição que ele deu. Foi o maior campo de experimentação que Paulo Freire teve para seu método de alfabetização para adultos, além de ser um lugar de experimentação de artes, até um filme chegaram a produzir, mas não conseguiram concluir, que era Cabra Marcado Para Morrer, que depois Eduardo Coutinho o transformou em uma obra prima. A exposição está muito representativa e muito justa com os personagens que fizeram o movimento”, destacou o professor Luiz Cláudio Arraes de Alencar.
Artista plástico, Maurício Arraes destacou o quanto a mostra está robusta do ponto de vista de documentação. “É uma exposição muito bem feita sobre um projeto muito importante para a história do Brasil, não só esse projeto de educação de todos para todos, como também a revelação da grande riqueza cultural do país e a importância da valorização da arte popular de forma democrática. O MCP foi um movimento que teve repercussão, apesar de toda a repressão que se seguiu, ele continuou subterrâneo e continua até hoje tendo sua importância, por meio de muitos artistas que revelou e da arte popular que foi irreversivelmente revelada, algo da nossa cultura mais de raiz”, comentou.
Por sua vez, Pedro Arraes viu na exposição uma possibilidade de estar mais próximo do que seu pai vivenciou. “Para mim é bastante importante essa exposição sobretudo porque já nasci fora, na época do exílio, e ouvia falar do MCP como algo meio abstrato. Então, me faz ver através da mostra um pouco mais concretamente do que se tratava, é bastante importante todo mundo conhecer essa história”, apontou.
A presidenta da Fundaj, a professora doutora Márcia Angela Aguiar, ressalta a relevância da exposição para relembrar fatos históricos do campo da educação, destacando a participação muito significativa de Silke Weber no movimento. A professora Silke foi secretária de Educação do Estado de Pernambuco no segundo governo de Miguel Arraes.
Germano Coelho
Quem também não segurou a emoção na ocasião foi Fernanda Coelho, neta do ex-prefeito de Olinda, Germano Coelho (1927-2020), um dos fundadores e primeiro presidente do Movimento de Cultura Popular (MCP). Acompanhada de sua filha Maria Cecília, bisneta de Germano, ela pôde ver parte da história de sua família destacada em páginas e retratos.
“Estar revivendo o MCP, que cresci ouvindo as histórias, a vivência do meu avô, viver isso novamente é muito emocionante, é relembrar tardes e mais tardes, rememorar passeios no Sítio Trindade, na sede do MCP, vendo as cartilhas que minha vó fez para a educação de adultos, jovens, é muito emocionante ver essa galeria cheia, conhecendo a verdadeira história do que foi o Movimento. Devemos trazer o passado para o presente e para o futuro, os jovens precisam conhecer essa história para usar como inspiração”, comentou.
Os documentos presentes na exposição, como a carta de criação do MCP, carregam consigo memórias de uma época de fervor e engajamento. Nas entrelinhas dos textos, é possível reviver sonhos sonhados em coletivo. O sociólogo Fernando Mousinho veio ao Recife direto de Brasília, onde atua no Congresso Nacional, somente para participar da abertura e destacou essa pujança do que está retratado.
“Vim só para essa abertura, acompanho muito essa obra do MCP, de Miguel Arraes, ainda sigo escrevendo sobre. Me chamou muito a atenção pela beleza, pelo valor estético e educacional, formador de consciência, e pela originalidade. A maioria das peças aqui são originais, como as peças de Abelardo da Hora, as fotografias dos acampamentos, a literatura, o manual de instruções do orientador, é possível atualizar na memória, sinteticamente tudo que foi feito de 1959 até 1964, até a chegada da maldita ditadura que aplacou esse projeto que é revolucionário até os dias de hoje”, concluiu.
Visitação
Os interessados na exposição podem acessá-la gratuitamente. A visitação pode ser realizada até 3 de novembro, de terça a domingo e feriados, das 13h às 17h. Mutirão foi promovida e produzida pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), por meio da Unidade de Artes Visuais, de sua Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte (Dimeca). Com curadoria de Moacir dos Anjos, coordenador-geral do Museu do Homem do Nordeste (Muhne), o trabalho reúne mais de 200 itens pertencentes a diversas coleções públicas e privadas, incluindo fotografias, folders, cartazes, documentos, filme, objetos, jornais, livros e obras de artistas de algum modo associados ao Movimento de Cultura Popular, tais como Abelardo da Hora, Francisco Brennand, Guita Charifker, Maria Carmen e Wilton de Souza.