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Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais - Cemaden/MCTI
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Estudo inédito mostra como as mudanças climáticas são percebidas pelos profissionais de Proteção e Defesa Civil

Realizado por pesquisadores do Cemaden, o estudo mostra, entre outras percepções, que a maioria dos agentes de defesa civil (80,6%) concorda, totalmente, que as mudanças climáticas vão causar desafios adicionais à gestão de risco de desastres. Porém, somente 10% se sentem preparados (as) para lidar com esse desafio.
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Publicado em 08/07/2026 15h57

O que pensam os profissionais de Proteção e Defesa Civil sobre as mudanças climáticas? Uma pesquisa inédita no Brasil, recém-publicada no International Journal of Disaster Risk Science, apresenta resultados que podem fomentar uma gestão de riscos e desastres mais efetiva, levando-se em conta a intensificação da mudança climática e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

O artigo intitulado “ Perceptions about Climate Change in the Brazilian Civil Defense Sector” (Percepções sobre Mudanças Climáticas no Sistema Brasileiro de Defesa Civil) é fruto de uma pesquisa desenvolvida, em 2021, pelos pesquisadores Victor Marchezini, Luciana Londe, Silvia Saito e José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) - unidade de pesquisa do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) - com participação de Eloisa Loose, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

“Atualmente, observa-se um aumento na intensidade e frequência de eventos extremos de chuva em todo o Brasil, que deflagram enxurradas e deslizamentos de terra, em áreas onde vivem as populações mais vulneráveis socioeconomicamente”, explica o climatologista José Marengo.

Desde dezembro de 2021, desastres associados a inundações e deslizamentos têm afetado o sul da Bahia, norte de Minas Gerais, Petrópolis, regiões metropolitanas de São Paulo e Recife, provocando a morte de mais de 300 pessoas, além de deixar mais de meio milhão desabrigadas. Por outro lado, regiões como a bacia do Rio Prata vivenciam uma seca iniciada em 2013,  que ainda não terminou, além da situação de crise hídrica a qual pode afetar cidades como São Paulo.

“Os modelos projetam chuvas intensas em regiões de Sudeste, Sul, e Leste do Nordeste, que têm uma alta densidade populacional. Se a vulnerabilidade e a exposição não forem reduzidas, podem gerar desastres com mortes e deixar mais pessoas sem moradias.”, enfatiza Marengo e complementa: “Assim, é necessário que o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil desenvolva essa percepção de que o clima está mudando. Os extremos de clima e desastres associados a grande impacto, projetados para o futuro, já estão acontecendo agora.”

Situação das defesas civis municipais

No Brasil, dos 5.570 municípios, 4.236 (76%) possuem unidades de proteção e defesa civil. Porém,  menos de 20% deles possuem planos de redução de risco de desastres e legislação,  ou instrumento de gestão ambiental sobre adaptação e mitigação de mudança do clima, conforme aponta a Pesquisa de Informações Básicas Municipais, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

“Diante dessa situação, torna-se importante analisar a percepção dos operadores de proteção e defesa civil em relação às mudanças climáticas, tendo em vista que os eventos extremos de tempo e clima são uma variável importante na produção social do risco de desastre. As mudanças climáticas não são naturais, tampouco os desastres”, argumenta Marchezini, que é sociólogo no Cemaden e, atualmente, realiza pós-doutorado no Natural Hazards Center , da Universidade do Colorado, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Fontes de dados

A pesquisa virtual foi realizada em outubro de 2021 - durante o Mês Internacional de Redução de Risco de Desastres - envolvendo 1.063 participantes de defesas civis municipais e estaduais de todas as regiões do país.

O questionário abordou duas dimensões principais: o que os operadores de defesa civil sabem e o que pensam sobre as mudanças climáticas. Algumas das 25 questões também permitiram que os participantes adicionassem informações complementares sobre o tema.

A pesquisa interdisciplinar - que contou com a participação de sociólogos, climatologista, geógrafa e jornalista - também analisou as fontes de informação utilizadas pelos respondentes e os graus de confiança que estes atribuem aos cientistas, governos e meios de comunicação. “Estudar as percepções de riscos e como se dá sua comunicação é importante para preparar diferentes grupos sociais, governos, imprensa e setor privado no enfrentamento da crise climática”, explica Eloisa Loose, jornalista que estudou o tema em sua tese de doutorado premiada pela CAPES em 2017.

A pesquisa identificou ainda como os participantes percebem a atuação da defesa civil em relação a outras agendas globais importantes para a redução de risco de desastres (RRD) e a adaptação às mudanças climáticas, como a Campanha da ONU sobre Cidades Resilientes, o Marco de Ação de Sendai para RRD, o Acordo de Paris e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Percepções sobre as mudanças climáticas, fontes de informação e capacitação da defesa civil

A pesquisa identificou diversos resultados que podem subsidiar as ações de capacitação da proteção e defesa civil em relação às ações de gestão de riscos e desastres, e de adaptação às mudanças climáticas. Dentre os principais resultados inserem-se:

  • A maioria  (80.6%) dos agentes de defesa civil concordam totalmente que as mudanças climáticas vão causar desafios adicionais à gestão de risco de desastres, mas somente 10% se sentem preparados (as) para lidar com esse desafio;
  • Um quarto dos respondentes (26.3%) concordam totalmente que é fácil compreender as informações sobre mudanças climáticas;
  • A confiança nas fontes de informação é um desafio : 52,4% concordam totalmente e 40,5% parcialmente com as informações disponibilizadas por cientistas, mas o nível de confiança é reduzido em relação a governos e imprensa;
  • Apesar dos ODS 11 e 13 estarem relacionados ao tema dos desastres e mudanças climáticas, somente 30% dos respondentes consideram que as ações de defesa civil estão associadas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Percepção sobre mudanças climáticas pelas defesas civis (Artigo - Cemaden/MCTI)

Da pesquisa ao aperfeiçoamento da política pública

Os autores da pesquisa afirmam que receber informação sobre mudança climática não é sinônimo de estar capacitado. Uma porcentagem muito baixa dos respondentes se sente preparada para lidar com mudanças climáticas Isso indicou a demanda em ações de capacitação em análise de vulnerabilidade socioambiental, noções básicas de meteorologia, implementação de soluções baseadas na natureza, dentre outros tópicos.

Os pesquisadores consideram que o Ministério do Meio Ambiente, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil e o Cemaden poderiam estabelecer um programa conjunto de capacitação em gestão de riscos de desastres e adaptação às mudanças climáticas, a fim de fortalecer a capacidade institucional nos municípios.

“Esse aumento da capacidade institucional municipal poderia auxiliar na formulação e implementação de planos municipais, melhorando os índices identificados pela Pesquisa de Informações Básicas Municipais, do IBGE”, sugere Silvia Saito, geógrafa no Cemaden e professora no Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais, da Universidade Federal de Santa Catarina.

“É importante destacar que somente um quarto dos respondentes consideram que as ações de defesa civil estão associadas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Isso indica que é necessário promover iniciativas para difundir essa agenda no âmbito do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil”, recomenda Luciana Londe, bióloga no Cemaden e professora no Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais, uma parceria entre o ICT/Unesp e o Cemaden/MCTI.

Para acessar o artigo gratuitamente: https://rdcu.be/cWtrC

Fonte: Ascom/Cemaden

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