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Brasil sedia pela primeira vez lançamento de relatório da ONU sobre o clima na América Latina e Caribe; Cemaden lidera documento
Lançamento do Relatório em Brasília. Foto: Ascom Mapa – Persio Campos
O climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI), apresentou nesta segunda-feira, 18 de maio, o relatório Estado do Clima na América Latina e Caribe 2025, da Organização Meteorológica Mundial (OMM, ou WMO na sigla em inglês). O evento, na sede do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em Brasília, marcou a primeira vez que o lançamento do documento ocorreu no Brasil. Essa é a sexta edição regional e Marengo coordena os trabalhos pelo sexto ano consecutivo, em articulação com serviços meteorológicos de países da América Latina e Caribe.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, abriu o evento por videoconferência e agradeceu os contribuidores do documento. O Cemaden, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, foi apontado no relatório como referência regional em monitoramento de desastres e secas.
Dados e evidências: o que o relatório mostra sobre 2025
Marengo apresentou os principais indicadores climáticos da região. As temperaturas em 2025 permaneceram acima da média histórica, com anomalias de até três graus Celsius acima dos padrões históricos em diversas áreas. O período 1991–2025 registra a tendência de aquecimento mais forte desde o início das medições, em 1900: 0,26°C por década na América do Sul e 0,25°C na América Central e Caribe. O México teve o ritmo mais alto, de 0,34°C por década.
Segundo Marengo, os dados não são projeções. "Estes dados observados não constituem meras projeções teóricas para o futuro; eles traduzem a realidade climática atual com impactos diretos e mensuráveis nos ecossistemas, na economia e no bem-estar das populações", afirmou durante a apresentação.

- Dr. José Marengo apresenta slide sobre ciclones tropicais durante o lançamento do relatório - Foto: Ascom Cemaden
O documento também registra alterações severas nos regimes hídricos: enquanto algumas áreas enfrentam secas prolongadas, outras acumulam chuvas extremas. Em 2025, enchentes afetaram mais de 110 mil pessoas no Peru e no Equador, e 83 pessoas morreram em inundações no México. No mesmo país, junho foi o mês mais chuvoso da história, mas a seca chegou a cobrir até 85% do território nacional ao mesmo tempo.
Um dos dados mais contundentes da apresentação foi o desaparecimento completo da geleira de Chacaltaya, nos arredores de La Paz, na Bolívia. "Este não é um caso isolado, mas sim um reflexo do ritmo com que os glaciares andinos estão recuando", disse Marengo. As geleiras andinas abastecem cerca de 90 milhões de pessoas e sua perda compromete o abastecimento público, a geração de energia e os ecossistemas locais durante as estações secas.
O nível do mar também foi tema da apresentação. O aumento não é uniforme: no Golfo do México e no norte do Caribe, o mar sobe 21% mais rápido do que a média global, com impactos diretos sobre infraestrutura, turismo e segurança das populações costeiras.
Desastres — Furacão Melissa (Jamaica, outubro de 2025)
Primeiro furacão categoria 5 a pousar na Jamaica. Causou 45 mortes e prejuízos de US$ 8,8 bilhões — mais de 41% do PIB jamaicano. As autoridades usaram modelos de risco para adotar medidas antecipadas, o que reduziu o impacto humano.
O papel do Cemaden: monitoramento contínuo e dados para o relatório da ONU
A diretora do Cemaden, doutora Regina Alvalá, destacou que a instituição trabalha ininterruptamente, 24 horas por dia, 7 dias da semana, no monitoramento de riscos de desastres em todo o território brasileiro. O centro opera uma rede de mais de 3.000 equipamentos de monitoramento de chuvas e acompanha os 5.571 municípios do país no que se refere aos impactos das secas.
Alvalá situou o Cemaden no contexto do relatório da OMM: "As bases de dados que este relatório traz, e mais os que nós geramos no nosso Centro, têm sido essenciais para subsidiar os governos locais, os municípios, os estados e mesmo o governo federal em ações de preparação e prevenção na missão de reduzir os riscos de desastres", disse.
Além das chuvas e secas, o Cemaden monitora riscos de incêndios de vegetação e impactos sobre a agricultura de subsistência. A diretora ressaltou que desastres não estão associados apenas a chuvas extremas — fatores sociais, como populações vivendo em áreas de risco, integram a análise da instituição.
Dados de monitoramento de secas produzidos pelo Cemaden integraram diretamente o relatório da OMM, o que, segundo Alvalá, evidencia a relevância da produção científica brasileira para o sistema de informações climáticas da região.
A diretora e o pesquisador ressaltaram que o objetivo do Cemaden é transformar dados brutos e observações de longo prazo em informações úteis e práticas para a sociedade, com base em evidências científicas sólidas — não em suposições."

- Dra. Regina Alvalá, diretora do Cemaden, durante sua fala no encerramento do evento - Foto: Ascom Cemaden
Governo federal: agricultura de baixa emissão e modernização meteorológica
O ministro da Agricultura e Pecuária em exercício, Cleber Soares, participou do evento e destacou o papel do Cemaden na produção de conhecimento. "O Cemaden faz monitoramento e emite alertas de forma ininterrupta. Mas esse trabalho de produzir conhecimento e dados é também extremamente importante", disse.
Soares também situou o Brasil no contexto das políticas de mitigação climática. Segundo ele, o país iniciou em 2010 o Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Plano ABC), com metas voltadas à adoção de tecnologias sustentáveis — fixação biológica de nitrogênio, recuperação de pastagens degradadas e integração lavoura-pecuária-floresta, entre outras. No ciclo 2021–2030, a meta é incorporar mais 50 milhões de hectares em sistemas de baixa emissão e mitigar 1,1 gigatonelada de CO₂ equivalente.
A secretária-executiva do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Anna Flávia Sena, reforçou o papel dos relatórios científicos como instrumentos de política pública: "O governo quer que esse documento, feito pelo meio científico, sirva para que cada vez mais pessoas reconheçam e acreditem no alerta de que as mudanças climáticas vão causar muitos desastres", afirmou.

- Participantes reunidos ao final do evento de lançamento do relatório - Foto: Ascom Mapa - Percio Campos
Acesse o relatório
O relatório Estado do Clima na América Latina e Caribe 2025 está disponível em:
Organização Meteorológica Mundial (WMO-OMM)
Relatório do Cemaden sobre o Brasil
O Cemaden publica anualmente um relatório com dados climáticos específicos do Brasil, incluindo monitoramento de eventos extremos, secas e desastres naturais. O documento está disponível em:
Cemaden – Estado do clima, extremos de clima e desastres no Brasil
Contato de imprensa — Cemaden
ascom@cemaden.gov.br
Tels.: (12) 3205-0200 / (12) 3205-0201


