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Presença da mulher na ciência brasileira é destaque no IPEN-CNEN
Raquel Guimarães Domingos da Silva vem de uma família da comunidade da Mangueira, no Rio de Janeiro. Seu destino poderia ser como de tantas outras mulheres daquele território marcado pela desigualdade social. Mas, inspirada e apoiada na história do seu pai, que vendia doces e balas nos trens da Central do Brasil, ela mudou o rumo da sua vida. Assim como o pai, ela se formou em Medicina e é atualmente chefe da Divisão de Diagnóstico do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Com sólida formação acadêmica e ampla experiência em gestão de saúde, pesquisa clínica e ensino médico, Raquel compartilhou as dificuldades que enfrentou como mulher negra e neta de uma empregada doméstica. “Eu era a única negra da turma e isso me provocava uma espécie de síndrome da impostora”, declarou em sua palestra durante o evento “Mulheres na Ciência: compartilhando trajetórias, experiências e contribuições no campo científico”, que reuniu, no dia 29 de maio, pesquisadoras para uma reflexão sobre os desafios, conquistas e impactos da atuação feminina na produção do conhecimento científico e tecnológico.
Assim como Raquel, a professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (Lance), Lygia da Veiga Pereira, mostrou como ser mulher no ambiente acadêmico exige muito mais força e resiliência. Natural do Rio de Janeiro, ela encontrou em São Paulo o ambiente adequado para fazer suas pesquisas sobre células-tronco pluripotentes, síndrome de Marfan e inativação do cromossomo X. Atualmente, ela lidera o Projeto DNA do Brasil e é fundadora da startup Gen-t, que desenvolve estudos sobre a diversidade genética da população brasileira e suas aplicações na medicina de precisão. Sua atuação científica mostra o quanto é importante entender a diversidade da população brasileira e, principalmente, a conquista de espaço pelas mulheres.
Na mesma linha de uma trajetória inspiradora, a pesquisadora do IPEN, Elisabete Inácio Santiago, mostrou como rompeu com a cultura que trazia da família quando ouviu sua mãe dizer que mulher foi feita para se casar e cuidar dos filhos. O incômodo com essa afirmação, levou Elisabete a estudar química e se tornar uma das mais respeitadas cientistas na área de eletroquímica e desenvolvimento de
células a combustível, tema estratégico para a transição energética e para a busca de soluções sustentáveis. Com reconhecida atuação científica, Elisabete destacou a relevância da pesquisa nacional na área de energias limpas e o papel das mulheres na construção de um futuro mais sustentável e inovador.
Um ponto em comum uniu as três cientistas: o desafio da maternidade. “Chegou a hora, não chegou a hora, como vou seguir a carreira, terei apoio ou não terei...”. Essas foram as questões que se impuseram em determinado momento da carreira. Igualmente em comum, Raquel, Lygia e Elisabete assumiram a maternidade e hoje são também mães inspiradoras não somente para o seus filhos como para a sociedade brasileira.
70 anos do IPEN
O evento “Mulheres na Ciência: compartilhando trajetórias, experiências e contribuições no campo científico”, que faz parte de uma série em comemoração aos 70 anos do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, teve ainda a participação da socióloga Marcia Barral, que representou o Ministério das Mulheres do governo federal.
O encontro reafirmou o compromisso do IPEN com a promoção da igualdade de oportunidades, o incentivo à participação feminina nas áreas de ciência, tecnologia e inovação e a valorização de profissionais que, por meio de suas contribuições, ajudam a transformar o conhecimento científico em benefícios concretos para a sociedade. Mais do que celebrar conquistas individuais, o encontro destacou o papel essencial das mulheres na construção de uma ciência cada vez mais diversa, colaborativa e capaz de impulsionar o desenvolvimento sustentável do Brasil.
Marco Piva - CNEN/IPEN